Cotidiano, Crônicas

Dia de Enem

ProvaA mãe e o garoto saíram cedo de casa. Dois ônibus seriam necessários para que chegassem ao local da prova. E é sempre melhor chegar cedo, com tempo para comprar uma água mineral e até folhear as páginas de um livro; do que correr com o coração a ponto de escapulir pela boca, para não perder o fechamento dos portões, impreterivelmente às 12h (horário de Salvador).

No primeiro dia, o Google os traiu e ensinou o caminho errado. Felizmente, o bairro onde fica o colégio era conhecido da mãe desde a infância. E deu tempo de recuperar o prejuízo e chegar com trinta minutos de antecedência. Uma promessa: nunca mais confiar no Google Maps, ele não conhece Salvador melhor do que quem vive na cidade.

O garoto parecia bastante tranquilo. Até porque, como se diz na gíria dos vestibulandos, era “treineiro”. Ainda falta um ano de escola para que de fato, aquela prova signifique o ingresso no ensino superior. Mas ele e a mãe fizeram questão de seguir o protocolo. Saíram cedo de casa, compraram água, levaram o lanche para aguentar as horas intermináveis de prova sem almoço, procuraram o nome dele na lista e descobriram que ele faria a prova com mais trinta e tantos xarás.

Matemática engraçada a desse exame. As escolas que sediam as provas são arrumadas por ordem alfabética e as salas, por nome. Dezenas de marias, amandas, carlos, matheus…todos juntos na mesma sala.

O garoto atravessou os portões com tempo suficiente para encontrar a sala onde faria suas provas. A mãe ficou do lado de fora, admirada do fato de já ter um filho em idade de ser “treineiro”. Levou um livro para ler enquanto aguardava a saída do garoto. Escolheu um de crônicas, emprestado de uma amiga. Nada mais apropriado para essa mãe, que gosta tanto de observar a vida e seus atores. E foi o que ela fez antes de abrir o livro.

Havia adolescentes de todas as cores e, pelas roupas e formas como chegaram àquele colégio, todas as classes sociais. Alguns vieram de ônibus, outros de táxi, uma quantidade significativa de carro, alguns em modelos importados e outros de carona com os pais de um colega. Uma garota chegou de motocicleta, na garupa do namorado, outra veio com um mototáxi. Estava um minuto atrasada, ainda tentou correr para alcançar o portão, levou um tombo, machucou o joelho e perdeu a hora da prova.

Todos traziam o kit permitido pelas regras do exame: RG, canetas pretas, o documento com o número da inscrição (que nem sempre os Correios entregam em tempo, obrigando-os a imprimir uma segunda via na internet), garrafinha de água, saquinho com biscoitos. A maioria tinha um acessório extra: mães nervosas.

As mães ficam do lado de fora. Por mais que secretamente elas queiram, não podem fazer a prova no lugar das suas crias. Ah, se elas pudessem…

Uma minoria participa da vigília e aguarda o final do exame para levar os filhos de volta para casa. Outras precisam ir cuidar de outros afazeres e só retornarão no final. Insegurança? Medo de deixá-los enfrentar o ônibus ou descolar um táxi sozinhos para voltar para casa? Talvez. Mas é bem mais que isso. Mãe é o bicho mais esquisito da natureza. Na forma peculiar das mães raciocinarem, ficar do lado de fora de um colégio estadual, sentada o dia inteiro em um batente de cimento, é uma forma de dar apoio às suas crias que, do lado de dentro, em cadeiras de madeira igualmente desconfortáveis, espremem os neurônios em busca da fórmula de química, da equação. Essa prova é dura e demorada. Elas sabem que os seus meninos e meninas sofrem um bocado para preencher as 180 questões e escrever uma redação nota mil. Logo, precisam também honrar a tradição que exige que as palavras maternidade e sacrifício sejam sinônimas.

Uma mãe rezava o Oficio de Nossa Senhora e logo em seguida, emendou com o terço. Desfiou incontáveis rosários até a filha atravessar novamente aqueles portões, no sentido contrário, mais de quatro horas depois. Uma segunda mãe passou a tarde batendo papo com o vendedor de água. Teve uma que quis fotografar os saguis que povoam as árvores na entrada do colégio. Um avô comia bolachas enquanto aguardava a saída do neto. Um pai também marcou presença.

Mas as mães eram a maioria. E se ficar uma tarde inteira na porta de uma escola para esperar filhos quase adultos saírem da prova é mico, que seja! As fotos da família de saguis que nos serviram de mascote estão aí, no celular de uma mãe desconhecida, para provar que o slogan de uma certa campanha de pomada para contusões esteve errado todos os anos, pois: “não basta ser mãe, tem de participar”.

*Para Matheus…

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