Bala no Alvo, Cultura e Sociedade

Síndrome de Cinderela: controle do corpo feminino ou liberdade de escolha?

Os fashionistas que me perdoem, mas isso não é fruto de mentes criativas, mas pura perversidade
Os fashionistas que me perdoem, mas isso não é fruto de mentes criativas, mas pura perversidade

Já tinha ouvido falar nessa técnica e na ocasião, fiquei horrorizada. Mas essa semana, ao receber um release de uma entidade médica condenando a prática e enumerando razões de saúde para a não recomendação, meu horror aumentou. Certa vez, também já tinha escrito em um outro blog sobre moda que eu mantive anos atrás, que a indústria da moda parece ter um plano perverso de controle do corpo feminino ou então, uma noção absurdamente distorcida de beleza, já que para caber nas roupas temos de parar de comer e ter ossos estreitos como os de uma adolescente; e para andar nos saltos altíssimos e em sapatos com formatos exóticos, como saltos na parte da frente, é necessário aprender malabarismo ou então, deformar a anatomia do pé através de cirurgias. É aí que entra o meu horror com a mania estética que na área médica já recebeu nome de doença: a Síndrome de Cinderela.

Recebeu esse nome, alusivo à personagem dos contos de fadas que tem um pezinho delicado para caber em sapatinho de cristal, a prática, adotada principalmente pela mulherada na Europa (o Reino Unido é campeão do procedimento), de fazer cirurgia plástica para encurtar os ossos dos dedos e até lipoaspirar o pé para que ele caiba nos modelos de Christian Louboutin e assemelhados. Desconfio que esses caras odeiam as clientes e querem mesmo é ver as “peruas” que gastam fortunas com seus modelos, de pé engessado. Nenhuma liberdade criativa justifica a perversidade de “induzir” alguém a modificar obsessivamente o próprio corpo para caber num par de sapatos!

A tal cirurgia consiste em serrar os ossos dos dedos! Segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Ortopedia, a cirurgia vem sendo condenada por profissionais de bom senso porque prejudica muito as pacientes. Elas podem passar a sentir dores terríveis, porque ao encurtar ossos dos pés e respectivos ligamentos, mexe-se com todo o equilíbrio e sustentação do corpo. Os dedos são essenciais para dar o impulso das passadas e para manter o equilíbrio quando andamos. As mulheres podem passar a ter dificuldades sérias para se locomover, ao mexer na estrutura dos pés.

Essa foto foi publicada no blog de Julia Petit e mostra modelos em um desfile da Louis Vuitton. As modelos sofrem um bocado para fazer seus pés 39/40, já que são mulheres altíssimas de mais de 1m80, caberem nos 36/37 que os stylist decidem levar para a passarela. Sem querer entrar no mérito da teoria da conspiração, mas olha aí o discurso subliminar que acaba levando as consumidoras britânicas a cortarem fora os dedos...
Essa foto foi publicada no blog de Julia Petit há algum tempo atrás e mostra os pés de duas modelos em um desfile da Louis Vuitton, durante uma Semana de Moda. As modelos sofrem um bocado para fazer seus pés 39/40, já que são mulheres altíssimas de mais de 1,80m, caberem nos 36/37 que os stylist decidem levar para a passarela. Sem querer entrar no mérito da teoria da conspiração, mas olha aí o discurso subliminar que acaba levando as consumidoras britânicas a cortarem fora os dedos…

 

Fico imaginando quando elas envelhecerem e esses ossos e ligamentos, naturalmente, se tornarem mais frágeis devido aos desgastes da idade. Me pergunto se é realmente uma liberdade de escolha estética ou se é escravidão a padrões de beleza impostos por uma indústria insensata e que visa o lucro não importa a que custo. E aí é insanidade tanto dos criadores de sapatos que exigem cirurgias para serem calçados, quanto dos médicos irresponsáveis que aceitam operar um pé saudável apenas por questões estéticas. Mais sem noção de perigo e realidade é a mulher que decide se submeter a esse ou a qualquer outro procedimento clínico ou cirúrgico apenas para corresponder ao padrão da moda!

É importante ter autoestima, cuidar da aparência externa, porque ela traduz o estado de espírito. É necessário gostar-se e claro, todas temos liberdade de fazermos dos nossos corpos o que bem quisermos, sem dar satisfação a ninguém. Mas manter-se saudável é essencial nesse processo. A liberdade é justamente não se deixar dominar, convencer, encantar por modas que decididamente tiram nossa beleza natural. A liberdade é ter esse corpo que é nosso e de mais ninguém, aceito como ele é e não como querem que ele seja. A liberdade é ter a noção clara de que uma cirurgia plástica está sendo feita para você se sentir bem e não porque é moda ter o pé de tal formato. Realmente não consigo enxergar alguém livre, plenamente livre, quando a motivação para cortar fora um pedaço dos próprios dedos seja caber naquele sapato de sei lá quantos mil dólares que o fulano sabe-se lá quem criou; ou arrancar uma ou duas costelas para ter cintura de vespa (e de pensar que espartilhos já foram queimados como símbolo de opressão) porque os vestidos de festa são tamanho PPP.

Em países do Oriente, as meninas tem os pés enfaixados para que não cresçam. A desculpa é manter um padrão estético apreciado pelos homens de lá, mas esconde-se por trás da prática uma tentativa de limitar a movimentação das mulheres, já que é do conhecimento geral que em muitos desses países, as mulheres são condenadas à submissão eterna. Já li reportagens e vi fotos que mostram que os pés das orientais ficam deformados e elas sentem dores atroses em nome dessa “cultura”. As mulheres-girafa, que usam argolas no pescoço desde crianças, após anos e anos com os adereços, não podem removê-los, pois seus pescoços ficam tão finos que não conseguem sustentar suas cabeças. E para tudo isso usa-se a justificativa da prática cultural.

A cultura evolui assim como as pessoas. Inaceitável que o ser humano avance na tecnologia, conquiste o espaço, crie tantos equipamentos, que a própria medicina evolua em transplantes, uso de células-tronco e, ao mesmo tempo, alguns profissionais voltem no tempo e adotem práticas medievais em nome de uma beleza que, para mim, sem liberdade de escolha, não vale de nada.

…………………………………..

irmasP.S.: Na versão dos Irmãos Grimm para o conto da Cinderela, as duas irmãs adotivas da heroína da história, filhas da sua madrasta má e ambas igualmente mesquinhas com a Cinderela, chegam ao extremo de cortar os próprios dedos para experimentar o sapatinho de cristal e assim, convencerem o príncipe que uma delas era a garota que dançou com ele no baile real. Ao levar uma das irmãs para o castelo e ver uma mancha de sangue nos sapatos da moça é que ele descobre a fraude e retoma a busca pela verdadeira dama, que vem a ser a Cinderela, que tinha os pés naturalmente pequenos. Ou seja, ela nasceu assim.

Existem mulheres que calçam 33/34 e são lindas com seus pezinhos de boneca. E existem aquelas que calçam, 39/40 e são igualmente bonitas. A natureza é sábia e se alguém tem o pé mais largo ou maior do que o da amiga, é porque precisa dele para sustentar um corpo maior, sem sobrecarregar a coluna. E qual é o problema de ter um corpo maior, ou um pé maior? Já vi mulheres que calçam 39 fazerem de tudo para se apertar em sapatos 37 apenas para não deixar de comprar o modelo na promoção. Isso não é estar na moda, é deixar-se escravizar.

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2 thoughts on “Síndrome de Cinderela: controle do corpo feminino ou liberdade de escolha?”

  1. Um horror, um absurdo! Isso é uma mutilação, as mulheres que fazem isso devem ter algum problema psicológico, principalmente com a auto-aceitação e auto-estima. Enfim, ainda bem que aqui no Brasil a moda não pegou!
    Um beijo, Andreia!

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