Crônicas, Cultura e Sociedade, Geral

Para o Dia Internacional da Mulher não passar em branco

VenusO texto que reproduzo abaixo é do escritor Felipe Machado e foi publicado na edição de fevereiro da revista ELLE, junto com uma série especial de reportagens sobre diversidade. É daqueles para ler, pensar, aprender e compartilhar…

*BELEZA REAL

“Nenhum homem pode dizer com certeza que sabe o que se passa na cabeça de uma mulher. Mulheres são tão complexas que eu não consigo entender nem o que a minha filha quer da vida – e olha que ela só tem 7 anos. O máximo que sabemos é que a mulher se casa com a esperança de mudar o homem, assim como nós nos casamos com a esperança de que elas continuem iguaizinhas. Já percebi também que as mulheres gostam de bolsas e sapatos porque são os únicos itens do guarda-roupa que dá para continuar usando se algum número muda na balança. E sei também que hoje, mais do que serem felizes, as mulheres sonham em ser magras.

Essa parte, eu nunca entendi. E entendo cada vez menos a obsessão feminina com a magreza, até porque acredito que estamos chegando perto de um limite perigoso. As mulheres se vestirem umas para as outras, eu até compreendo. Mas os corpos… Homem gosta de mulher sexy, com curvas onde ele possa se perder de vez em quando. Lembre-se de que uma reta é a menor distância entre dois pontos… mas quem disse que nós estamos com pressa?

Esse desejo por um corpo de medidas artificiais gera uma ansiedade que só atrapalha. Salada não combina com jantar à luz de velas por mais que vocês tentem nos convencer de que água com gás vai superbem com agrião.

Sim, ainda queremos mulheres charmosas e com formas perfeitas. Mas não é a perfeição o que a gente mais deseja: apenas uma faísca que faça acender nosso coração. Pode chamar de química, pode chamar de mágica. Eu prefiro chamar de amor. Ou atração física. Por mais que você fique na academia, gostaria de avisar que nós, homens, nos apaixonamos por pessoas, e não por corpos. Um sorriso largo é bem mais importante do que uma cintura fina.

Todo mundo sabe que cada época tem as suas musas. Se um pintor renascentista fosse convidado para um desfile da Fashion Week, aposto que ele chamaria uma ambulância. Saber que os padrões existem é uma coisa. O que incomoda é descobrir que atualmente não são mais as pessoas que estão fora dos padrões de beleza: os padrões de beleza é que estão fora das pessoas. Deve ser culpa do culto à celebridade, que domina a internet, exaltando corpos escondidos debaixo de camadas de Photoshop. Não queremos mulheres perfeitamente magras, queremos mulheres imperfeitamente sedutoras. Resumindo: precisamos de uma revolução das mulheres normais.

Uma mulher normal simplesmente aceita as suas imperfeições – e dá risada disso. Pois é esse bom humor que vai nos conquistar, e não os detalhes técnicos de seu corpo. Queremos mulheres lindas, inteligentes? Claro que sim. Mas também queremos mulheres corajosas, que ousem desafiar um padrão irreal imposto sei lá por quem.

A expressão japonesa wabi-sabi representa uma estética baseada na aceitação do que é imperfeito. É irônico imaginar que um conceito milenar como esse pudesse ser aplicado com tanta precisão nos dias de hoje. Mas talvez seja a hora de pensar menos nos padrões e mais em pessoas, como a gente costumava fazer naquele passado distante em que as mulheres queriam não ser apenas magras, mas felizes.”

*Felipe Machado, escritor (Revista ELLE, Edição 309, Ano 26, Fevereiro de 2014)

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