(Im)paciente Crônica: Porque não tenho instagram…

emaranhado de redes

Poderia encarnar o Selton Mello, em recente comercial de TV para uma cervejaria, e responder simplesmente, porque sim! Mas eu gosto de escrever e de filosofar e por isso, ao clássico “porque sim, oras, é meu direito não querer ter instagram!”, somam-se outros motivos mais profundos. Um deles é porque não sei fotografar e nunca tive paciência para aprender. Admiro a fotografia e respeito muito o trabalho dos fotógrafos, mas me falta talento e sou do tipo que acredita que técnica sem talento só presta para gerar autômatos. Eu seria uma fotógrafa medíocre, é fato. Prefiro ficar com as letras, onde me saio melhor.

Mas o Instagram é uma rede social, nem todo mundo que está lá é fotógrafo profissional e mesmo entre os amadores, nem todos sabem fotografar bem, embora acreditem que sabem, alguém poderia contrapor. Respondo o seguinte: redes sociais existem aos montes e não é porque elas existem, que somos obrigados a nos engajar em todas. Mesmo para alguém que lida profissionalmente com a internet, é perfeitamente normal e possível saber para que serve o Instagram e não querer ter um desses. Trabalhar com jornalismo digital, acompanhar as novidades do meio, entender minimamente o que é cada coisa e como se usa não obriga a experimentar todas as redes. Sou do tipo que acredita piamente, e isso talvez seja vício de migrante digital beirando os 40 anos, que a vida offline é tão ou muito mais interessante que a online. Escarafuncho várias redes, me engajo em muitas delas, estudo outras por interesse acadêmico, profissional ou meramente por curiosidade, mas para a minha vidinha básica e cotidiana, o Instagram não faz falta. No dia a dia de trabalho, se for preciso usar, estamos aí! O mal das pessoas é não perceber que a vida é cheia de caminhos e que optar por um deles jamais exclui a possibilidade de experimentar outros.

Um exemplo doméstico: minha irmã fotografa divinamente bem e tem uma profunda sensibilidade para captar as sutilezas e singelezas da vida. Ela tem conta no Instagram, que eu acompanho pela internet, já que também não tenho smartphone porque até então, ainda não precisei de um e investir uma pequena fortuna em algo desnecessário me dá aflição e dor de bolso. Meu aparelho básico, que tem gravador tanto para interações ao vivo quanto para conversas telefônicas (uma coisa altamente útil para um jornalista), atende bem às necessidades e não vi motivos para trocar, até o momento.

Whatsapp? Ah tá, quem quiser falar comigo pode mandar o bom e velho sms (ainda se usa), discar meu número e ouvir minha doce voz (já me disseram que é bonita) ou então enviar e-mail, usar G-talk, bate-papo do Facebook, tocar tambor africano ou enviar sinal de fumaça, como os índios nos desenhos animados da minha infância. Telepatia só reservo para os muito íntimos. Formas de me contatar não faltam e naqueles dias em que prefiro o isolamento, outro direito inalienável do ser humano é acordar de “ovo virado”, acredito até que sobrem demais!

Me sinto orgulhosa de ver as fotos que minha irmã posta no seu Instagram e fico ainda mais feliz em ver que, como ela, milhares de pessoas de fato sabem para que serve e como usar uma ferramenta tão interessante. Minha irmã e outro monte de gente bacana que eu conheço e que usa o amigo “Insta”, não segue celebridades, não segue grandes grifes e tampouco se deslumbra com carros de milhões de dólares e colares de esmeralda que dariam para comprar um apartamento confortável em Salvador. Essas criaturas abençoadas com o dom de traduzir a vida em imagens, usam a poderosa ferramenta para de fato comunicar algo interessante aos seus seguidores, sejam eles apenas algumas dezenas, centenas ou milhares, para fazer as rainhas do Instafitness arrancarem os cabelos de inveja. E olha, essa galera boa mobiliza corações e mentes sem tirar a camiseta.

Já me olharam com desdém e até impuseram uma certa piedade fingida à voz quando eu respondi que não tinha Instagram. Também já ouvi, “ah, se você tivesse, eu ia te falar para me seguir”. Oi?! E quem disse que eu quero te seguir? Juro que já deu vontade de responder. Mas quando vejo gente megalomaníaca na minha frente eu ignoro singelamente. Sou daquelas que acredita na indiferença como santo remédio contra arrogância. Também já tive a inteligência subestimada por não ter Instagram. Pensaram que por não possuir um desses, eu era arcaica e logo, desconhecia as modernidades da vida.

E já ocorreu a situação mais bizarra de todas: o interlocutor saber que além de não ter instagram, também não tenho smartphone e, cereja do bolo, ando de ônibus. “Céus, ela é pobre! Que nojo!” Se eu disser que a recíproca não é verdadeira estarei mentindo. Tenho ojeriza e alergia profunda por quem julga os outros por status social, conta bancária, cor de pele, sexualidade e pela popularidade nas redes sociais, entre outras formas mesquinhas de categorizar gente.

Instagram-Fato-simbolo

O Instragram, na minha pobre concepção de pária (leia-se não adepta e pobre), perdeu sua característica inicial e seu motivo de existir, ao menos para uma quantidade cada vez maior de caçadores de seguidores. Mede-se, atualmente, o nível de importância de alguém, pelo tanto de curtidas e/ou fãs que esse alguém arrebanha internet adentro. Li outro dia a declaração de uma estrela da internet. A garota dizia não saber porque tanta gente a segue, visto que se considerava uma pessoa comum. No entanto, na mesma entrevista, dava dicas de como conseguir agradar seu público e ganhar ainda mais seguidores, todos ávidos para acompanhar as 24 horas do dia dessa e de centenas de outras garotas como ela.

Gente ainda mais ávida para jogar pedras, verdadeiras rochas vulcânicas gigantescas, ao menor sinal de comportamento falho. Linchamento social está na moda, dentro ou fora da web, principalmente entre aqueles que confundem o termo politicamente correto com as noções básicas mínimas de ética e respeito que todo ser humano deveria trazer de berço. Ser politicamente correto passa longe do bom-mocismo de gabinete e da hipocrisia cristã. Ser correto, politicamente, é respeitar as pessoas em sua humanidade, é tentar entender o outro lado, mesmo que discordando, e assim, até mesmo reavaliar posturas.

Me dá pena das pessoas que lutam à todo custo para manterem-se perfeitas em nome de não ver baixar a audiência. Tenho a leve desconfiança de que para alguns caçadores de seguidores, ver subir o termômetro das curtidas é uma forma de aplacar um grande vazio e uma solidão interior ainda maiores. Não, obrigada, prefiro manter-me longe desse mundinho. Pena ainda maior, e náusea, eu sinto dos seguidores de celebridades (ou subs) que acompanham intensamente a vida de pessoas que não admiram e depois gastam 90% do expediente de trabalho fofocando e desancando a vida, os defeitos, micos e cafonices dos seguidos. E as celebs, tadinhas, felizes em colecionar seus milhares de fãs, mal sabem que o inimigo está a um clique. Tá aí um tema para uma comédia de costumes digna de Molière.

De solidão não sofro. Meu interior busco preencher com coisas que para mim importam demais, como o amor e o respeito das pessoas que admiro, não porque elas estão no Instagram exibindo seu lifestyle que, para mim, ao menos, não é invejado; mas porque essas pessoas têm coisas bonitas para me dizer e me mostrar, coisas que quem caça seguidores ou quem segue celebridades (e subs) compulsivamente, jamais conseguirá entender. São aquelas coisinhas suaves que acalentam a alma, que turbinam não a bunda, mas o cérebro, que enchem o dia de alegria só de entrar no ônibus e ver que tem lugar vazio para ir sentadinha para o trabalho, com os fones plugados, ouvindo REM e percebendo como cada tronco de árvore que passa veloz pela janela tem um design diferente, como a natureza é sábia, pulsante e muito mais digna de ser admirada do que o tanquinho de quem quer que seja…

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P.S.: Com este texto não quero dizer como as pessoas devem usar seu Instagram. Cada um aproveita a ferramenta como bem lhe apetecer, mas sem apontar seu dedinho para quem não usa, não gosta, ou vê outras finalidades diferentes da super-exposição em moda…

P.S.2: A crônica foi inspirada em um texto curtinho e certeiro escrito por minha irmã em seu blog, em 2011, onde ela argumentava porque não tinha conta no Facebook. O blog dela não existe mais, mas até hoje minha irmã não está no Facebook e não sente falta…

P.S.3: Nem adianta xingar caso discorde do texto, porque o blog é moderado. Se discordar, argumente feito gente grande, usando o raciocínio e a educação…

P.S.4: Um ano e cinco meses após escrever esse texto, criei uma conta no Instagram para o blog, para divulgar minhas resenhas literárias. Não é minha conta pessoal, não exibe minha rotina diária de forma compulsiva, não tenho milhares de seguidores e sim, continuo acreditando no que escrevi neste artigo.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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8 respostas a (Im)paciente Crônica: Porque não tenho instagram…

  1. Jefferson B diz:

    Gostei muito do seu artigo. Você está de Parabéns!!! Eu não tenho Instagram, tenho apenas facebook e prefiro postar minhas fotos apenas no facebook!!

  2. Andrews Barros diz:

    Belíssimo texto.
    Tenho 21 anos e me sinto conforme esse texto. Todos os meus amigos são adeptos a mil e uma redes sociais, mas ainda assim, prefiro aquele bom e velho email para se comunicar com meus amigos. Além do mais, não tenho muito tempo, vida de acadêmico não é fácil (rs).

  3. Álvaro diz:

    Gostei muito em ler sobre esse artigo. Não consigo ver o dia da publicação , mas pelo último comentário vi que foi ano retrasado, mas enfim, ultimamente estava achando algo fútil, sem necessidade e com este texto só deu mais clareza.

    • Oi Álvaro, o texto é de fevereiro de 2014. Como pessoa física, continuo sem me interessar pelo Instagram e acredito que muita gente faz um uso nada bacana da ferramenta, que em si, é ótima, o problema é a forma como as pessoas usam. Hoje, 2 anos depois, o blog tem uma conta, que uso para divulgar posts e outras imagens que tem relação com os temas tratados aqui, basicamente os de literatura. Não sigo celebridades, por exemplo, prefiro seguir as minhas editoras preferidas, como a Cia das Letras. Abs!

  4. Pingback: “Instagramizei” o Mar de Histórias | Mar de Histórias

  5. Ana M. diz:

    Perfeito.
    Bom saber que não sou única que é constantemente questionada sobre não querer usar o Insta.

  6. Pingback: Sobre as urgências que criamos e acreditamos que são reais | Mar de Histórias

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