Literatura, Resenhas

Resenha: O Castelo nos Pirineus

A vida após a morte e a busca de um sentido para a existência humana são os grandes temas de O Castelo nos Pirineus. Jostein Gaarder usa a experiência como filósofo e a capacidade de tratar temas complexos de forma simples, usando uma linguagem que convida o leitor ao exercício do livre pensamento, para abordar conceitos como ciência e espiritualidade. Não é a presença ou ausência de Deus que incomoda os dois protagonistas do romance, mas ter a clara certeza de que somos seres finitos.

Solrun e Stein se conheceram na juventude, casaram-se muito jovens e viveram cinco anos de uma grande felicidade. Ambos materialistas e convictos de que só temos uma vida para gastar, passavam os dias entregues ao próprio idílio e ao hedonismo. Faziam excursões pelos fiordes da Noruega (praticamente todos os romances de Gaarden são ambientados em seu país natal) e tinham conversas filosóficas regadas a vinho e aguardente de maçã antes de dormir.

Um dia, um episódio inexplicável, ou ao menos difícil de esclarecer, abala tudo aquilo em que ambos acreditavam e os dois terminam se separando. Trinta anos depois, se reencontram exatamente no mesmo cenário onde ocorreu a separação e combinam de iniciar uma correspondência via e-mail. Os dois então discutem, numa troca de mensagens onde cabem muitas digressões e reminiscências, o que exatamente ocorreu no seu passado que os levou à separação.

O formato de O Castelo nos Pirineus foge aos romances convencionais. A história de Solrun e Stein é contada por ambos, mas de forma não linear. O leitor junta as peças do quebra-cabeças do que foi a vida dos dois aos poucos e a partir dos e-mails que um envia para o outro. Gaarder poderia ter escolhido uma troca de cartas em papel, para combinar com a atmosfera romântica e onírica da história, reforçada pelas paisagens de tirar o fôlego da Noruega, mas ao invés disso, opta por uma interface aparentemente impessoal: o computador.

A escolha metaforiza o quanto o exercício do pensamento crítico pode ser solitário. Em uma discussão metafísica e feita à distância, é preciso, acima de tudo, ter boa vontade para desvestir a armadura de (pre)conceitos antigos e aceitar ouvir os argumentos do outro com clareza, sem tê-lo diante dos olhos.

Se Solrun e Stein estivessem discutindo cara a cara, a paixão do momento poderia embotar a sensibilidade de ambos e os argumentos rapidamente resvalariam para uma discussão vazia, ressentida e recheada de trocas de acusações. De longe e por escrito, sobra tempo para tecer os fios da argumentação com paciência. Reler o que outro escreveu antes de responder diminui o risco de equívocos ou mesmo de mudar o foco do debate.

Solrun, professora de História das Religiões, após a experiência em seu passado, transformou-se em uma mística e seguidora de uma corrente mais espiritualizada da vida. Ela abandona o materialismo da juventude e assim, pensa, consegue apaziguar a grande angústia de viver esperando pelo suposto vazio que virá com a morte. Solrun se recusa a acreditar que quando já não estiver mais na Terra ela simplesmente não existirá. Recusa o não ser e se agarra a uma fé profunda para não sucumbir ao desespero.

Já Stein, que é climatologista, está mais preocupado com questões ecológicas e de ordem prática. Esse é o único planeta que temos, por isso é preciso preservá-lo para as gerações futuras. Essa é a única vida que temos, por isso é preciso fazer com que valha a pena. Para a experiência do passado, trinta anos depois, ele continua obstinadamente buscando uma explicação lógica e racional. Fascinado pelo cosmos, Stein mira o céu maravilhado com a vida em si. Para ele já é uma sorte enorme termos sido sorteados na loteria da vida.

Afastados por visões de mundo conflitantes na juventude. Apenas na maturidade o antigo casal se dá o direito de olhar a vida pelas lentes um do outro e essa experiência, tanto quanto a anterior, pode mudar o curso de suas existências. No entanto, Gaarder não proclama um vencedor desse embate. Como um bom professor, ele apenas apresenta o conteúdo sem tecer julgamentos e dá aos alunos (leitores) o direito de conhecer pontos de vista diferentes e com base nisso, construir uma visão particular.

Solrun e Stein defendem apaixonadamente seus pontos de vista, mas o leitor não é induzido a acreditar em um ou outro. Usando a história do casal, o autor faz uma revisão das teorias que explicam a origem do universo e traça um panorama da evolução do pensamento humano. Para quem gosta de temas profundos e crê numa espiritualidade universal mais do que em uma religião específica, a leitura está mais que recomendada.

 Ficha Técnica:

o-castelo-nos-pirineusO Castelo nos Pirineus

Autor: Jostein Gaarder

Tradução: Luiz A. de Araújo

Editora: Companhia das Letras

184 páginas

R$ 35,00 (no site da Saraiva)

>>Leia um trecho na página oficial da editora (arquivo em pdf)

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