Literatura, Resenhas

Resenha: Manuscritos do Mar Morto

A história parece batida e apenas mais um livro que costura as teorias da conspiração sobre a morte de Jesus e o surgimento do cristianismo, dos muitos que surgiram na esteira de O Código da Vinci ou do Anjos e Demônios, ambos de Dan Brown. Mas Manuscritos do Mar Morto, do britânico Adam  Blake, apesar do título óbvio, é um bom thriller policial, desses que se lê de um só fôlego, recheado de alguns mistérios e tramas de espionagem internacional, para entreter leitores que adoram bancar o detetive de sofá.

O ponto de partida é um grupo de historiadores que trabalha em documentos antigos, especificamente aqueles encontrados na década de 1940 em Nag Hammadi, no Egito, e que versam sobre gnosticismo (conjunto de correntes filosófico-religiosas que se mesclaram ao cristianismo na antiguidade) e um suposto Evangelho de Judas. Os pesquisadores descobrem um segredo milenar que jamais deveria vir à luz e pagam com a vida, em crimes planejados para parecerem acidentes.

É a partir daí que entram em ação os protagonistas da história, a detetive da Scotland Yard (sim, a história se passa na terra de James Bond!) Heather Kennedy e o ex-soldado e ex-mercenário Leo Tillman, uma hábil máquina de matar no melhor estilo Identidade Bourne, que há 13 anos viaja pelo mundo em busca de Michael Brand, o homem que ele acredita ter raptado sua mulher e os três filhos pequenos. Os dois se unem porque Brand também parece estar misteriosamente envolvido nas mortes dos pesquisadores.

Além da trama principal, Adam Blake, que é pseudônimo de um autor consagrado da Grã-Bretanha, desenvolve ótimas tramas paralelas, que com o avançar do romance se entrecruzam, como as investigações do xerife Webster Gayle, no Arizona (Estados Unidos) sobre a queda de um avião em um pedaço de deserto sob sua jurisdição.

O autor também explora muito bem os conflitos familiares e internos de seus personagens. Heather Kennedy, por exemplo, cuida do pai, um ex-policial com Alzheimer. E por ser mulher, invejada pela competência em seu trabalho, e lésbica, sofre assédios e provocações constantes dos colegas detetives e do próprio detetive-chefe de seu departamento.

Mais da metade da história se desenrola em Londres, com algumas cenas em lugares exóticos da Europa Central e do Oriente Médio. Depois, juntando as tramas paralelas com maestria, Blake transfere o epicentro da trama para o Arizona e a Cidade do México, unindo Heather e Gayle, além da jornalista Eileen Moggs, uma personagem coadjuvante que se mostra essencial para a investigação da detetive inglesa.

As descrições de armas sofisticadas, lutas e perseguições de carro trazem no DNA o perfume de Ian Fleming (o criador de James Bond) e de Robert Ludlum (autor do livro que inspirou a quadrilogia Bourne no cinema). A influência dos dois autores também está presente na complexa personalidade de Leo Tillman, um lobo solitário em sua obsessiva busca pela família desaparecida e por vingança.

Blake, que também é roteirista de quadrinhos, tem uma narrativa ágil e enxuta. Ele escreve de forma visual e embora não perca tempo com adjetivações desnecessárias, consegue descrever cenários que aparecem na mente do leitor como um filme.

Embora lance mão de teorias batidas e rebatidas em livros de ficção (e em alguns que se pretendem acadêmicos) e misture tudo com as premissas da já consolidada cartilha de literatura policial e de espionagem, Manuscritos do Mar Morto não foge do óbvio, mas surpreende por mostrar as mesmas questões por um ângulo e abordagem novos.

Para fazer justiça a Adam Blake, comparar seu livro a O Código da Vinci é só chamariz de editora, além de grande equívoco. Dan Brown faz questão de manter um tom conspiratório, místico e até meio fanático nas histórias de Robert Langdon; enquanto Blake leva Manuscritos do Mar Morto bem menos à sério enquanto “revelação de uma verdade superior”. Para um leitor mais atento, com senso crítico e bagagem de referências literárias prévias, além de bom senso, fica claro que os livros são água e óleo, não se misturam.

Mike CareyQuem é Adam Blake? Esse é o pseudônimo de Mike Carey, britânico de Liverpool, apelidado nos Estados Unidos de “o novo Neil Gaiman”. Carey é um roteirista bastante disputado no universo dos quadrinhos e escreve para o selo Vertigo, da DC Comics. Também é autor de histórias para as séries Quarteto Fantástico e X-Men e das aventuras do mago John Constantine, de Hellblazer. Em 2012, sua graphic novel O Inescrito foi publicada no Brasil. Apadrinhado por Gaiman, Carey escreveu Lúcifer, HQ de grande sucesso sobre a vida “íntima” do príncipe das trevas.

Ficha Técnica:

Manuscritos-do-Mar-MortoManuscritos do Mar Morto

Autor: Adam Blake

Tradução: Camila Fernandes

Editora: Novo Conceito

480 páginas

R$ 34,90

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s