Literatura, Resenhas

Resenha: Amor em Cartas

Recordações de um amor construído com as palavras

Cartas de amor de Genaro para Nair de Carvalho revelam um tempo de romantismo lírico

Andreia Santana

A foto na capa de Amor em Cartas é de Clarice Lispector. A autora de Perto do Coração Selvagem, que era jornalista, foi uma das muitas pessoas a tentar traduzir em palavras o amor do artista plástico baiano Genaro de Carvalho pela bela Nair. Outro que também imortalizou o romance foi o pintor Carlos Bastos, autor de um quadro do casal. Mas nada como ler as palavras apaixonadas de Genaro para entender essa história de amor em particular e decifrar parte dos costumes da Bahia e do Brasil dos Anos Dourados.

Abrir o coração para o amor sem medo de parecer ridículo, e Fernando Pessoa que perdoe, mas as cartas de amor não são ridículas, são apenas humanas, é fundamental para embarcar nesse romance. O livro traz um texto de introdução de Nair de Carvalho, que envolve o leitor no ambiente lírico e ingênuo de sua juventude, revelando os detalhes da divertida gafe que cometeu ao ser apresentada a Genaro.

Na sequência, são publicadas as missivas – Nair selecionou 30 ao todo – de próprio punho de Genaro de Carvalho, ora em letra tremida e urgente, ora com caligrafia exemplar, dando ideia do estado de espírito do seu autor. Ao longo das páginas da publicação, sucedem-se as cartas, enfeitadas com desenhos pintados com lápis de cera, trechos de pensamentos filosóficos, beijos marcados em batom e, principalmente, pela urgência de um “VENHA meu amor” escrito em maiúsculas, que ainda assim são letras pequenas para conter o tamanho do sentimento dos enamorados.

Colabora com o livro Alejandra Muñoz, que explica o delicado processo de transcrever cartas e esclarece que a obra buscou preservar os erros e a grafia vigente nos anos 50. Uma acertada decisão, tanto em respeito ao autor e ao amor que sentia, quanto uma forma de mostrar aos leitores as peculiaridades da evolução da língua portuguesa, a única no mundo a conter a força de uma palavra como saudade.

Em sequência, o leitor recebe a “chave” (transcrição das cartas) para ajudar na compreensão das mensagens. Vale ressaltar que a graça da leitura está em tentar decifrar a letra de Genaro e imaginá-lo, ansioso como só os amantes conseguem ser, a tecer aquelas linhas que se aprimoram carta após carta, da mesma forma que sua arte evoluiu graças ao convívio com a musa inspiradora Nair.

A própria forma de tratamento entre os apaixonados evolui e o leitor de Amor em Cartas torna-se testemunha do crescente sentimento que mistura admiração, carinho, respeito e um inflamado desejo. Os apelidinhos que Genaro coloca em Nair, seus cuidados com a saúde e o bem estar da amada que também é sua musa, a tristeza por ter recebido uma resposta menos empolgada da amada e as queixinhas típicas dos namorados divertem, enternecem e emocionam quem se dispõe a acompanhar a jornada do casal em busca de um final feliz.

Genaro e Nair moravam em cidades diferentes quando se conheceram e tiveram de vencer obstáculos tanto geográficos quanto das convenções sociais da época. Entre o primeiro encontro e o casamento foram dois anos, que a julgar pela intensidade das mensagens, para ele foi um tempo de verdadeiro tormento. Ele era recém desquitado, ela era uma moça de família, criada com os cuidados dispensados às moças na época e noiva de aliança no dedo. Ele era artista, o que na época também não o habilitava como o melhor candidato a marido e Nair era manequim, outra profissão mal compreendida.

Os percalços que tiveram de superar são entrevistos nas mensagens de Genaro, que encoraja sua amada a romper com as convenções e acreditar no amor que ele tem para oferecer. A persistência dele é comovente e em tempos de amores passageiros, inspiradora!

P.S.: Amor em Cartas, já divulgado em Salvador, será lançado em São Paulo nesta quarta, dia 2 de outubro, em evento cuja renda será revertida para uma ONG baiana que cuida de crianças com sequelas de queimadura (leia reportagem).

Ficha Técnica:

 Amor em cartas

Autora: Nair de Carvalho (org.) e colaboração de Alejandra Muñoz

Editora: Gruna

206 páginas

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