(Im)paciente Crônica: respeito é bom e as mulheres gostam!

Muitas impaciências somadas em um espaço curto de tempo. Todas, lamentavelmente, com origem no desrespeito histórico contra as mulheres…

Ese Cuerpo es mioNa capa da revista Nova Cosmopolitan de setembro, uma chamada diz que “ser sexy não é mais over”. Conhecendo a linha editorial da revista, já entristeço. Na mesma edição, uma matéria ensina que para fortalecer uma amizade, basta fazer sexo com o amigo (!) Outra chamada: “aprenda quatro jeitos de colocar o preservativo no gato”. E depois dessa, desisti de prestar atenção, acabou a paciência.  A Nova não faz parte do meu repertório de feminilidade. Mas ainda é preciso dizer que a capa da revista traz Gisele Bündchen. Essa mesma, a modelo da campanha de marca de lingerie Hope, em que ela dizia que a melhor forma de avisar ao marido que o cartão de crédito estourou é usando uma lingerie. Foi isso mesmo que você entendeu, uma marca de lingerie já tentou vender  calcinhas e sutiãs embaladas na ideia de que para conseguir atenção de um homem, basta tirar a roupa. Faz todo sentido a modelo da Hope estar na capa da Nova, uma revista machista, que defende que o girl power contemporâneo é ser boa de cama e expert em levar os homens à loucura. O discurso de Nova traz pouco de libertação sexual legítima para as mulheres, antes é mera apologia ao periguetismo. O “ser sexy não é mais over” da revista vai por esse caminho.

E falar em periguetismo, Anitta, a funkeira do show das poderosas (“Quando começo a dançar eu te enlouqueço, eu sei”), inclusive, assina uma linha de roupas “sexy” para uma fast fashion, li em um blog de moda, dia desses. Defendo que as mulheres sejam livres para vestir o que quiserem e que não sejam molestadas por estar de short curto ou minissaia. Que fique claro então que minha impaciência não é com o tamanho dos shortinhos e dos top croppeds (aquelas blusinhas de barriga de fora) de Anitta, mas com o discurso a la Nova, a mesma ladainha de que mulher poderosa de verdade é a que se comporta como objeto sexual descerebrado e submisso, mas fingindo que não. As outras? Ah, são feministas raivosas, barangas e frustradas sexualmente. Pior de tudo, tem mulher defendendo isso!

O que me irrita nessa história toda é que toda uma indústria se esmera em transformar a mulher em coisa, em pedaço de carne, em boneca inflável, em artigo animado de sex shop, em Anastasias Steele, mas traveste tudo de atitude power e as bobocas caem feito patinhas, porque afinal, agradar o macho é preciso.

E o pior, sempre pode ficar pior, uma parte considerável de moças condena o feminismo, sem se dar sequer ao trabalho de entender o que é e para que serve.

Lembro de uma vez em que ouvi da boca de um namorado que o sonho de consumo de todo homem é ter mulheres 2×1: puta na cama, lady na rua. O namoro acabou. Mas esse incauto não era o único a pensar assim. Existe toda uma legião de moços que divide as mulheres em categorias: “minha namorada tem de ser gostosa entre quatro paredes, mas andar recatada na rua”. “As da rua, as que eu canto e digo obscenidades, que aguentem caladas e façam cara de que gostaram do que ouviram, ou então, que saiam de casa usando burca, porque se vestiu shortinho é porque tá querendo”. “A peguete tem de ser bem safada, até porque peguete é descartável, é delivery”. “A namorada, quando virar esposa, que ande na linha”. “Minha mãe é uma santa, mas a dos outros se der mole…”

Descobri, para meu horror completo, que existe curso de sexo oral para mulheres. Sim, a ênfase dos organizadores é que o curso se destina exclusivamente para mulheres, para meu duplo horror! Se é pegadinha, ou piada de mau gosto, não tenho certeza. Mas vi uma chamada em um site sobre temas íntimos, cujo link um colega me passou, sugerindo uma pauta de comportamento sobre tão exótico (eu diria esdrúxulo) curso. Confesso que no primeiro momento ri alto com as fotos da sala de aula e as moças usando próteses de borracha como ferramenta pedagógica (oi?). Ri de gargalhar, mas na sequência veio a tristeza em constatar que existem mulheres no mundo que se submetem a tamanho constrangimento para apimentar a transa e agradar maridos, namorados e afins. O problema não é fazer ou não sexo oral. A questão é que um curso voltado para mulheres com o mote de agradar aos homens é manter o status quo. Ou seja, a mulher é um objeto de prazer masculino e não sujeito do próprio prazer! O mundo anda lendo demais a Nova…

Me deprime a existência de mulheres que se deixam contaminar por crenças machistas. E sei que é graças a elas que o machismo não morre. Por causa do que ensinam aos filhos; porque se deixam enganar (ou não) pelo discurso do “faça política com as coxas e conquiste seu espaço na sociedade, de preferência usando cinta liga e pós-graduada em boquete”; porque são elas que reforçam a ideia de que existem as moças certas e as moças erradas; porque são essas que hipocritamente incorporam a lady na rua; porque são essas também que não percebem que amor e sexo precisam de reciprocidade, mas que ninguém ouve falar em curso de streap-tease e pole dance para os homens fazerem uma performance quente para suas parceiras, “animando a transa com a gata”; ou curso de sexo oral para os rapazes se especializarem em satisfazer suas parceiras, levando-as à loucura; ou, o mais necessário de todos: curso de boas maneiras e não violência física, moral, psíquica ou verbal, já que tem muito machinho precisando aprender a tratar as mulheres, todas elas, incluindo as que se definem periguetes porque gostam e acham divertido, com respeito.

Respeito que independe sim do tamanho da saia, da idade, da cor da pele, do grau de instrução, da classe econômica, da profissão (prostituta merece respeito), da orientação sexual, de ter mudado de ideia na hora agá e não querer mais a transa (afinal as pessoas se arrependem de tanta coisa de última hora, porque não se arrepender de transar com um cara e desistir? Ah, mas é que a natureza do cara não aguenta esse tipo de coisa. E estamos vivendo in natura? No tempo das cavernas?) Respeito por outro ser humano e não pelo “sexo frágil”, até porque aguentar séculos de machismo, fogueiras da inquisição e pedras que voam sobre Geni de todos os lados, e ainda assim sobreviver, não é para gente fraca!

Respeito ao direito de andar na rua sem ser molestada por frases de baixo calão, por passadas de mão seja no cabelo, entre as pernas, nos seios ou até no dedo mindinho. Meu corpo, o corpo de todas as mulheres a elas pertence, e só elas tem o direito de dizer quem pode ou não passar a mão. Ficou claro ou é para desenhar?

Leia também:

>>Resultado da pesquisa sobre a campanha Chega de Fiu-Fiu, em que as mulheres revelam ter medo de andar na rua por conta das cantadas recebidas

*Crédito da foto: Site Movimentos Juvenis Brasileiros

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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2 respostas a (Im)paciente Crônica: respeito é bom e as mulheres gostam!

  1. Priscilla diz:

    SENSACIONAL O TEXTO!

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