“se você acha que sexo é mecânico, é porque não está fazendo direito” (Sophie Fontanel)

“Meus amigos arranjavam vários encontros para mim. Lembro bem, porque alguns pretendentes eram horrorosos. Como eu recusava todos esses encontros, eles tentaram achar outra explicação para minha solidão voluntária. Começaram a pensar que talvez eu fosse gay e armaram encontros com mulheres. Não funcionou, porque não sinto atração por mulheres. Meus amigos continuaram a insistir que eu tinha de fazer sexo com homens, mesmo que fosse só para praticar. Argumentava que seria algo estritamente mecânico. E eles diziam: “É claro que é mecânico, Sophie!”. Foi quando me dei conta de que as pessoas fingem que são felizes sexualmente. Porque, me desculpe, se você acha que sexo é mecânico, é porque não está fazendo direito.”

solidao a dois

O trecho acima tirei do depoimento que a francesa Sophie Fontanel, editora da Elle, deu para a revista Época (edição 797, de 02 de setembro de 2013). O texto, já disponível no site da revista (acesse aqui) é daqueles que faz pensar. Sophie é autora de um livro, ainda inédito no Brasil, com título bastante sugestivo: The art of sleeping alone (A arte de dormir sozinha, em tradução livre). Na publicação, ela detalha o seu período de celibato voluntário. A julgar pelos comentários de péssimo gosto dos leitores de Época, que chegam e definir de forma rasa e preconceituosa a autora como frígida e neurótica, vê-se que o assunto é polêmico e causa desconforto em um número grande de pessoas.

O depoimento de Sophie levanta várias questões interessantes. Mas gostei especialmente da autora botar o dedo na ferida da sociedade atual, que banaliza e transforma o sexo, esse momento tão íntimo de duas pessoas, em competição olímpica, ou em fotos de “acordei agora e estou com cara de quem acabou de transar”, comuns em redes sociais como Instagram e Facebook, tanto no mundo das celebridades quanto dos anônimos.

Acredito ser muito estranho, mesmo entre amigos de longa data, as pessoas compartilharem suas vidas sexuais numa rede social. Só que muitas perderam a noção do ridículo e desaprenderam o significado de intimidade e privacidade nesse mundo hiper conectado em que a transa de ontem à noite vale uma curtida. E tem gente que curte!

Voltando ao depoimento de Sophie e ao trecho que destaquei acima, me intriga essa curiosidade mórbida que as pessoas tem pela vida íntima dos outros e mais ainda essa necessidade em bancar o cupido para quem aparentemente está muito bem sozinha (o). Não falo dos casos, lógico, em que a falta de sexo ou de uma companhia, de um relacionamento, de um grande amor, um parceiro (a), de fato entristece a pessoa, deprime e até afeta a saúde, porque sim, os médicos são unânimes em dizer que amar e praticar sexo faz bem ao coração, no sentido literal. Para quem sente essa necessidade e encontra-se sozinho (a) pela força das circunstâncias, seja lá quais forem elas, deve ser dolorido.

Mas existem sim os celibatários voluntários como Sophie Fontanel, gente que leva ao pé da letra o ditado “antes só do que mal acompanhada”. E honestamente, não acho que essas pessoas sejam frígidas ou neuróticas. É muito reducionismo encarar qualquer pessoa que esteja sozinha como uma coitada em potencial. Estar só não significa necessariamente estar solitário (a). Muitos conseguem viver em harmonia consigo mesmos e eu admiro essas pessoas, porque geralmente são também capazes de viver em harmonia com os outros. Acredito que gente como Sophie apenas não quer viver histórias fugazes, talvez sejam pessoas que buscam algo profundo, significativo e acham que só vale a pena se envolver com alguém que também esteja em busca de mais do que uma noite, ou mais do que um relacionamento pautado em meras convenções sociais.

Que tipo de convenções? Essas que dizem que as mulheres precisam de um homem para legitimar-lhes a identidade, que pregam que toda moça sonha em casar e ter filhos, que rotula homens (ou mulheres) maduros e solteiros de gays enrustidos, que pregam que a irmã solteira ficou para a tia, que incentivam as garotas a buscarem desesperadas um príncipe encantado com tanta obstinação que elas acabam aceitando até mesmo sapos travestidos só para não ficaram para tia; aquelas antigas, do tempo das avós, que dizia que mulher separada era mal falada e mal afamada e que por isso elas precisavam viver casamentos infelizes, “até que a morte os separe”, em eterna solidão acompanhada…

São tantos exemplos de convenções que só servem para limitar as pessoas, categorizar seus afetos, aprisionar e transformar em aberração uma mulher bem sucedida e consciente do próprio corpo, que teve a audácia de contar para o mundo que viveu 12 anos sem sexo e que isso, do ponto de vista dela, não leva ninguém ao hospício ou ao suicídio, desde que isso seja uma escolha e não uma imposição, como acontecia antigamente, quando as moças mais “assanhadas” eram confinadas em conventos ou em sanatórios.

Acho engraçado como a sociedade atual prega a liberação feminina, muitas vezes de uma forma bem equivocada, apenas transformando o corpo e a libido das mulheres em objetos de prazer masculino, mas ainda assim, como essa mesma sociedade que defende o direito das mulheres transarem com quem quiserem e quantas vezes quiserem, o que de fato elas têm direito, se quiserem; aponta o dedo para uma mulher celibatária e já tece mil teorias e até sente pena: “oh coitada, não achou ninguém que a quisesse”, “nossa, deve ser frígida”, “é lésbica”, “é neurótica”, “é porque é feia” …

A verdade, que para mim fica muito clara em alguns dos comentários no site de Época, é que os homens (e as mulheres machistas também) não sabem lidar com mulheres que dizem não, porque foram ensinados desde pequenos que elas têm “obrigação” de dizer sim toda vez que eles quiserem. E a ficar quietinhas e engolir o próprio desejo toda vez que elas quiserem e eles não estiverem a fim! Se fosse tão simples a sociedade entender a questão, aquelas moças que têm o comando pleno de suas vidas sexuais, que só vão com quem elas querem, quando querem e quantas vezes querem, não seriam chamadas de vadias. Para essa sociedade normatizada e (aí sim) neurótica com a cama alheia, é ofensivo o fato de uma mulher ter tanto poder sobre o próprio corpo que se recusa a ceder apenas porque sim. Ao se negar a participar do vórtice de prazer instantâneo, ilimitado e muitas vezes vazio dos tempos atuais, Sophie chega a cometer um ato de desobediência civil!

Sophie Fontanel

Sophie Fontanel

Sophie Fontanel teve uma iniciação sexual precoce e traumática, como ela mesma narra, e como muitas mulheres, já viveu histórias insatisfatórias apenas para não ficar sozinha. No entanto, aos 27 anos, ela resolveu se reinventar e fechou para balanço tanto o corpo quanto o coração. Só voltou a se envolver com alguém de novo aos 39 anos. Nesse meio tempo viveu dois amores platônicos (quem nunca?). Hoje ela tem 50 e diz que ainda pratica o sexo com parcimônia e que passa longos períodos sem transar. Mas não me parece que faça isso por não gostar, acredito que é por gostar demais tanto de sexo (bem feito e com mais motivações que apenas a satisfação imediata) e de si  mesma.

Sophie descreve o namorado da época em que decidiu tornar-se celibatária como um insaciável que não a deixava nem tomar banho sem querer transar e que a acordava no meio da noite para fazer mais sexo, mesmo se ela estivesse cansada. A primeira vista, para qualquer namorada, parece uma delícia ter alguém assim tão inflamado de desejo por ela, mas olhando a questão com calma, dá para perceber que esse fogo todo, com o passar do tempo, torna a coisa toda um imenso vazio preenchido unicamente por ais e uis eternos. Sem nenhum outro incentivo na relação além de transar o dia todo, como ter cumplicidade, afinidade intelectual, momentos só de contemplação e aconchego, projetos em comum, conversas legais, não tem relação que resista.

Pode ser que para a maioria, a história de Sophie seja considerada radical em excesso e que para homens e mulheres que rezam pela cartilha machista, ela não passe de uma frígida traumatizada por uma iniciação sexual tumultuada e um namorado tarado. Sendo que vale ressaltar que a primeira vez de conto de fadas não passa de uma idealização de folhetim e que nem todas (e todos) tem uma iniciação cheia de doçura como uma cena do filme A Lagoa Azul. Além disso, mesmo para quem gosta de transar mais do que a média da população, sempre tem aquele dia em que a pessoa não quer e isso não é o fim do mundo!

Para mim, ao ler esse texto, ficou o exemplo de uma mulher que não teve medo de no auge da juventude parar tudo e dizer: “não é isso que eu quero para a minha vida, eu quero e mereço mais do que solidão acompanhada ou do que servir de adorno e de brinquedo sexual para um namorado que não me completa e que nem tem a sensibilidade de perceber que esse sexo todo só é bom para ele e não para mim”.

Admiro a coragem de Sophie e embora não pretenda sair por aí pregando que as pessoas a imitem, até porque gostar mais ou menos de sexo ou mesmo precisar de companhia com mais ou menos frequência é algo totalmente particular, ao menos espero que a história dela sirva para fazer muita gente pensar um pouco sobre de que forma está conduzindo sua vida afetiva e sexual. Que as pessoas, homens e mulheres, em especial, aprendam a escutar seus corpos e corações e a seguir o ritmo ditado por eles, o ritmo interno de sua intuição.

A medicina está certa quando diz que o amor e o sexo fazem bem para a saúde física e até mesmo, em muitos casos, para a  psíquica. Mas sexo banal ad infinitum, acredito, não faz bem para o espírito…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
Esta entrada foi publicada em Crônicas, Geral, Reflexões com as etiquetas , , , , . ligação permanente.

4 respostas a “se você acha que sexo é mecânico, é porque não está fazendo direito” (Sophie Fontanel)

  1. Tânia diz:

    Cara Andreia,
    Encontrei o seu texto fazendo uma pesquisa pelo título do livro, e ainda bem, porque é um bom texto sobre um belo livro de Sophie Fontanel. Aproveito para lhe dizer que o livro será lançado em Portugal este mês. Parabéns pelo post!

  2. Vanice Schizzi diz:

    Que bom se o mundo entendesse que para se feliz é necessário poder dizer: sim ou não de acordo com a situação e receber o devido respeito pela atitude tomada.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s