Literatura, Resenhas

Resenha: A livraria 24 horas do Mr. Penumbra

Entre livros raros, códigos secretos e bites

Ficção de estreia do americano Rob Sloan mistura bibliófilos e conhecimento high tech em trama divertida sobre amor, amizade e desejo pela imortalidade

Em uma entrevista, Bob Stein, presidente do Instituto para o Futuro do Livro, com sede nos Estados Unidos, profetizou o fim das livrarias como conhecemos estes espaços atualmente e a sua transformação em ambientes que antes de vender livros, precisam oferecer outros atrativos aos frequentadores habituados a ler em tablets e e-Readers.

Com essa mesma filosofia, a de uma livraria como centro de fomento intelectual, onde gravitam bibliófilos (amantes de livros) em pleno século XXI dos e-Books, o escritor Robin Sloan, conterrâneo de Stein, criou uma história cativante sobre o conflito entre o culto à leitura e a capacidade dos livros moldarem mentes críticas, e o imediatismo da cultura digital.

Robin Sloan

A livraria 24 horas do Mr. Penumbra (Editora Novo Conceito, 2013) usa amor e amizade, e a antítese entre tradição e modernidade, mas sem tomar partido entre uma coisa e outra, como pretexto para filosofar sobre uma das questões mais importantes da humanidade: o mistério da vida.

O autor pensou na história de Mr. Penumbra e seus exóticos amigos após conhecer o Clube Grolier, um reduto de colecionadores de livros raros, localizado em Nova York. Encantado por essa biblioteca e sua atmosfera de mistério, Robin Sloan concebeu um alter-ego, o designer desempregado Clay Jannon. Personagem não muito dado aos livros, Clay tem fascínio pela coleção fictícia As crônicas da balada do dragão, uma referência de Sloan ao boom das histórias de fantasia que conquistam a adesão de uma juventude pouco afeita à literatura, mas acostumada aos jogos de realidade virtual.

Clay Jannon tem menos de 30 anos e vive em São Francisco, na Califórnia, em um contexto atual de crise e forte recessão na economia norte-americana. Em busca de uma forma de pagar o aluguel, ele responde ao anúncio de uma livraria 24 horas que precisa de atendente. Mesmo sem entender nada de livros, já que o negócio dele é criar sites, o rapaz cai nas graças do excêntrico dono da livraria, um carismático octogenário chamado Mr. Penumbra.

Aldus Manutius, tipógrafo italiano que viveu na Idade Média, em Veneza

O turno do novo atendente é o da noite, das 22h às 6h, período em que ocasionalmente aparece um cliente notívago comum, como a bailarina do clube vizinho de streap que gosta de ler biografias de gênios como Einstein ou Steve Jobs. Esse horário em que “os gatos se tornam pardos” é também aquele preferido por um seleto grupo de frequentadores, todos entre a meia e a terceira idade, ansiosos, cheios de cochichos e segredos e muito interessados em uma coleção de obras encadernadas em couro e com cara de bem velhas, que ficam guardadas nos fundos da loja, no “Arquivo Pré-Histórico”.

Paralelo ao trabalho em um lugar com aparência tão retrô, Clay namora Kat Potente, hacker que é engenheira do Google, adepta de exercícios e comida saudável e que não se conforma com o pouco tempo de duração da vida humana. Ao escanear um dos livros antigos da livraria, Clay e Kat se deparam com uma trama que envolve códigos criptografados e uma sociedade secreta com origem na Idade Média e na tipografia de Aldus Manutius, personagem histórico real que viveu entre os séculos XV e XVI, em Veneza – Itália, nas origens da imprensa.

A referência bem humorada do autor às teorias da conspiração que bebem na fonte medieval fica ainda mais divertida quando ele envolve dois outros amigos, um artista que cria efeitos especiais para o cinema e que prefere usar sucata e cola ao invés de computação gráfica, e um ex-colega de escola, nerd, que se transformou em um rico empresário investindo em startups.

Liderados pelo incansável Mr. Penumbra, esse time tão inusitado quer desvendar o codex vitae (livro da vida) supostamente escrito por Manutius, acreditando que o segredo para a imortalidade está em suas páginas. Usando aparatos tecnológicos e invenções de fundo de quintal, o grupo enfrenta a oposição da tal sociedade secreta, que quer guardar o segredo da vida eterna longe de olhos comuns.

Com uma linguagem ágil típica dos nativos digitais, aliada a uma capacidade de amarrar as pontas da história com a habilidade de um griô (contador de histórias que ensina as lendas e costumes dos povos antigos às novas gerações), Robin Sloan se sai bem em promover um casamento aparentemente impossível entre a história das origens do livro e um futuro cada vez mais tecnológico.

A despeito das diferenças ideológicas entre bibliófilos tradicionais e adeptos das mídias e meios digitais, a mistura dá liga. O livro de estreia de Sloan foi disputado em leilão pelas principais editoras norte-americanas e publicado, na versão em papel, em 22 países. Obteve ainda destaque como um dos mais vendidos do San Francisco Chronicle e como o melhor livro de estreia na Amazon e no Programa Novos Escritores da Barnes and Nobles Discover.

Nada mal para um jovem escritor que já admitiu em público nunca ter sido um leitor lá muito assíduo de obras impressas.

Ficha Técnica:

A livraria 24 horas do Mr. Penumbra

Autor: Robin Sloan

Editora: Novo Conceito (www.editoranovoconceito.com.br)

288 páginas

Preço: R$ 29,90

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