Literatura, Resenhas

Resenha: O menino que via demônios

O pai de todos os males

Escritora irlandesa se inspira em clássico de C. S. Lewis para falar de demônios, esquizofrenia e traumas de infância

Não se engane com a capinha lúdica. Essa não é uma obra infanto-juvenil. O livro faz referências a suicídio, automutilação, possessão demoníaca, depressão e loucura

Em 1942, no auge da II Guerra, C. S. Lewis (As crônicas de Nárnia) escreveu um livro soturno e irônico sobre a condição humana, em homenagem ao velho amigo J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis). Cartas de um diabo a seu aprendiz conta a história do diabo Fitafuso, que escreve missivas ao sobrinho Vermebile para orientá-lo sobre os melhores truques para desencaminhar as almas humanas.

Inspirada no clássico de C. S. Lewis, a irlandesa Carolyn Jess-Cooke pensou em criar um roteiro de cinema, mas concebeu O menino que via demônios, unindo a ideia de um diabo que faz de tudo para tentar um garoto de boa índole, com o drama da esquizofrenia precoce.

O cenário da história é a cidade de Belfast, capital da Irlanda do Norte. E o contexto, os dramas familiares nascidos na esteira dos conflitos políticos e religiosos – e os consequentes ataques terroristas -, no país, nas últimas décadas do século XX. Dramas que permanecem pintados nos muros da cidade, como lembrete. Alex, o protagonista, tem dez anos, é precocemente amadurecido e vive em um lar instável. Responsável por tomar conta da mãe, em depressão desde que o pai, integrante de um grupo terrorista, desapareceu; usa a imaginação como válvula de escape da violência.

Alex é bom desenhista, gosta de atuar, e tem muito afeto pela mãe depressiva e por um cão de estimação. Mas carrega segredos e dores acumuladas em uma vida de privação material e solidão. A psiquiatra infantil Anya Molokova, que possui um histórico familiar de loucura, é designada para avaliar o menino e está convencida de que ele sofre de esquizofrenia. Alex diz que seu melhor amigo é o demônio Ruen, de mais de nove mil anos, e que tem a missão de estudar e tentar os humanos.

O menino participa de um grupo de teatro que fará uma montagem moderna de Hamlet, de William Shakespeare. Outras crianças com famílias desajustadas e que vivem da assistência do governo integram o elenco. Ao longo dos ensaios, quanto mais se envolve com a história do príncipe dinamarquês em busca de vingança para apaziguar a alma do pai assassinado, mais coisas estranhas ocorrem ao redor de Alex.

O grande trunfo do livro é a dualidade entre realidade e fantasia, lucidez e loucura, mas sem maniqueísmos, fórmulas definidas ou soluções óbvias. A narrativa é rica em metáforas inteligentes, envolta em atmosfera aterrorizante e ao mesmo tempo dramática. Anya e Alex se revezam para contar a história a partir de seus diários pessoais.

O pragmatismo da psiquiatra não é destituído de humanidade. Por mais que tente, Anya não consegue o distanciamento profissional do caso. Já Alex, embora tenha momentos de grande credulidade, não deixa de ter autocrítica e questionar o mundo e as atitudes tanto dos adultos quanto de Ruen, que faz às vezes de alter-ego ou do lado obscuro do menino.

O leitor nunca tem certeza se Alex possui mesmo um demônio de estimação ou se precisa de ajuda médica. O personagem equilibra-se em linha tênue prestes a se romper e vive em meio a adultos que ao invés de dar-lhe suporte, projetam nele as próprias fragilidades.

Descobrir se Ruen é ou não fruto da imaginação de Alex é o de menos e cada leitor tirará suas conclusões. Uma coisa no entanto, é consenso, o roteiro que virou romance daria um bom filme de suspense.

Ficha Técnica:

O menino que via demônios

Autora: Carolyn Jess-Cooke

Tradução: Geni Hirata

Editora: Rocco

384 páginas

Preço: 49,50

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s