(Im)paciente Crônica: Cuidado com os tímpanos!

fonesO motorista ligou o rádio, cuidado com os tímpanos! Desde a minha mais tenra infância utilizo o sistema de transporte coletivo de Salvador e desde essa época remota, motoristas de ônibus e radinhos de pilha são inseparáveis.

Lembro de pegar o coletivo para ir à escola, lá pelos meus 14 anos, no ingrato horário das 6h10. Morava em um bairro periférico e a escola, embora pública, ficava em uma área nobre da capital. Tinha de sair de casa bem cedo se quisesse chegar na aula no horário (7h30). Justamente pela localização geográfica e por ter “filhos de barão” estudando nela, muitas vezes porque os pais desistiam de gastar dinheiro nas caras escolas particulares com adolescentes que não eram lá muito dados ao estudo, o ensino dessa escola pública era considerado de excelência, em comparação ao ensino da maioria, naquela época já sucateado e relegado ao descaso por sucessivos governos e incontáveis greves. Uma madrugada na fila da matrícula garantiu vaga para a garota pobre que tirava boas notas.

O caminho para a escola, mais de uma hora sacolejando em um ônibus lotado, pois no meu bairro só passava aquela linha de hora em hora, era pontuado por uma trilha sonora pitoresca em que mesclavam-se as canções de amor de Odair José, Amado Batista e cia, com as intervenções jornalísticas das emissoras de AM que os motoristas adoravam acompanhar. Minha infância e parte da adolescência foram passadas na companhia dos locutores da rádio Sociedade da Bahia e dos cantores da música romântica brasileira, naqueles tempos chamados sem cerimônia de cantores de música brega. FM foi uma novidade que só conheci na outra metade da adolescência, quando aprendi a cantar na base do “embromation” os sucessos internacionais das novelas.

Hoje, anos e anos depois de impaciência cuidadosamente cultivada por engarrafamentos cada vez mais frequentes, e eternamente chocada pela má educação dos meus conterrâneos, cuja cordialidade deteriorou absurdamente desde que eu era adolescente, já não tenho mais a mesma capacidade de suportar a trilha sonora dos motoristas e nem dos DJs de buzu. Até porque a qualidade da música romântica brasileira, para o meu gosto, diminuiu na mesma proporção em que os moradores de Salvador perderam a gentileza.

As canções que os motoristas escutavam há 25 anos eram as lamúrias de amor e dor de cotovelo de uma geração passional, anterior à minha, mas que tinha um traço de poesia nas suas narrativas de damas lascivas, pérfidas e levianas que levavam incautos apaixonados ao desespero e ao boteco mais próximo. Hoje, os cantores do gênero romântico perderam a criatividade e adotaram onomatopeias impronunciáveis – ao menos para mim – e cansativas, irritantes de ouvir. Além disso, uma parte considerável prefere pagodes e funks de letras duvidosas e em volumes inaceitáveis para a saúde mental e física.

Acho graça de se fazer tanta campanha para que os DJs de buzu usem fones de ouvido e pouco se falar nos motoristas e seus históricos radinhos, cada vez mais potentes. Se na época da minha adolescência já era um desrespeito aquele som martelando hora e meia o juízo dos pobres passageiros, hoje a coisa ganha contornos de crueldade e vil tortura.

Não satisfeitos em impor seu gosto musical aos passageiros, esses mesmos motoristas, bonzinhos com o mercado do trabalho informal cada vez mais aquecido em Salvador (uma cidade litorânea e turística que, no fim das contas, vive com o pires na mão e gera poucas oportunidades de emprego com carteira assinada), permitem que vendedores de música pirata, baixada ilegalmente na internet, invadam “o sossego da viagem” dos passageiros, para apregoar, devidamente munidos de aparelhos sonoros turbinados e pen drives, as novas pérolas do cancioneiro nacional.

Exercício inaciano de estoicismo aguarda o passageiro que decide enfrentar a barulheira e a cacofonia provocadas pela mercadoria do ambulante em disputa com o radinho do condutor. A verdade é que não há como fugir da situação, já que é preciso se deslocar de um lugar para o outro e a epidemia de música alta nos ônibus não dá sinais de passar, com ou sem lei.

Diversas vezes já usei os fones de ouvido, desligados, apenas como tampões, para amenizar o desastre e, assim, adiar a surdez iminente, que com certeza será minha companheira de velhice. Não só minha, mas de uma sociedade inteira em um futuro nem tão distante.

Já nem consigo sentir saudades do Odair José. E tudo o que gostaria, principalmente nos dias de maior estresse no trabalho, era de uma interferência cósmica, algum cometa ou meteoro que passasse pela atmosfera da Terra, causasse interferência em todos os sinais de rádio e satélite e, por um único dia, silenciasse o mundo.

*(Im)paciente Crônica é uma nova tag de crônicas do Mar de Histórias

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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