Au revoir beauté!

batomUma amiga me perguntou porque parei de escrever blog de moda e beleza. Me faço esse mesmo questionamento desde que resolvi sair de um projeto que ajudei a criar e tirei do ar – no finalzinho do ano passado – um outro, solo, na mesma linha “vaidades e consumos de uma pós-balsaquiana”.

Tem muitos motivos, mas o principal é que não preciso mais de blogues de moda e beleza. Não preciso no sentido de que esses projetos, durante um tempo, funcionaram como ferramentas de autodescoberta. Como já encontrei o que estava procurando, mantê-los deixou de fazer sentido, perdeu a graça. Em resumo: enjoei. Em vias de completar 39 anos, beirando quatro décadas, iniciei o ciclo do desapego.

Outro motivo, menos simpático, é que bateu um grande cansaço e um tédio profundo desse burburinho sobre lançamentos, cosméticos revolucionários, tititi de semanas de moda, tendências e etc. Ainda acompanho o noticiário sobre o assunto. Como jornalista, bem sei que moda e beleza vendem feito água e dão uma grande audiência, mas na vida pessoal, me basta – e faz mais bem ao meu coração – ser só mais uma consumidora anônima que troca dicas aqui e ali com as amigas mais chegadas, sem cumprir agenda.

Sou vaidosa e desde adolescente gosto de espelhos, de usar hidratante, de perfumes, que uso até para dormir. Aprendi com minha mãe, que é uma das pessoas mais cheirosas que conheço. Tenho fetiche por gente cheirosa! Mas não preciso mais ficar mostrando quais e quantos batons tenho, que perfumes uso ou recomendo, qual é a tendência de maquiagem para o outono-inverno. Tem gente mais competente fazendo isso com muito mais qualidade, dentro e fora da internet. Sou leitora de sites de beleza, assino revista feminina, tenho alguns blogues do coração que visito com frequência. Assim está ótimo!

Se é para formar opinião, prefiro fazer isso com temas que me são mais caros a alma: literatura, cidadania, cinema, feminismo (para entender o feminino em todas as suas identidades), filosofagens da vida, humanidades, amor…

pinceisHouve um tempo em que me vi com vontade de falar sobre amenidades e futilidades, senti curiosidade em aprender sobre maquiagem, precisei em um determinado momento da vida, adular, alimentar e acarinhar esse lado “mocinha de fino trato”. É importante dar de comer a todas as nossas entidades, e identidades, internas, mas é preciso saber manter os apetites em equilíbrio, ou nos perdemos na gula do próprio ego.

Tenho necessidade, diariamente, de refletir sobre a condição feminina na sociedade, sobre a construção do imaginário coletivo sobre o feminino. Sou do tipo que gosta de entender tudo, que tenta encontrar explicações, sentidos, significados… mas que com o passar do tempo e a chegada da maturidade, aprende a aceitar e se maravilhar com o fato de algumas coisas serem simplesmente inexplicáveis ou então, de eu não ter  a capacidade de entendê-las. Só os muito arrogantes, ou completamente ignorantes, acreditam que sabem tudo.

O primeiro projeto que ajudei a criar tinha a pretensão de abarcar o “universo feminino”, ou ao menos a parte dele que cabia àquelas meninas que inventaram de criar um blog para falar de si mesmas e de outras meninas e suas necessidades, e manias, e neuras, e conquistas, e frescurinhas… Mas o tempo passou e um dia, me despedi dessa fase.

A segunda tentativa era bem mais descompromissada. Foi o exercício extremo, criei um alter-ego, passei a escrever como outra pessoa, que no fim das contas era só uma outra eu mesma (esse negócio de blogar, no fundo, é bem egocêntrico). Me joguei na tentativa de ver o mundo pelos olhos das centenas de garotas vaidosas que blogam como se não houvesse amanhã e não param muito para pensar no que significa, simbolicamente, falar dessa ou daquela marca. Aceitei brindes (os tais kits de demonstração), mas não vendi minha capacidade crítica. Testava e se não gostava, dizia. Quando era para comentar produto pago do meu bolso, também dizia. Enganar leitor é deselegante, para não dizer imoral. Só que a pressão do mercado é grande e para não viver dilemas de consciência desnecessários, saí da cena fashion e dos seus mailings.

A verdade é que eu queria criar uma Beck Bloom (personagem da escritora britânica Sophie Kinsella) à brasileira. De repente, dessa brincadeira nascia meu primeiro chic lit! A onda era me divertir com as idiossincrasias do mundo da moda e, quem sabe, transformar tudo isso em literatura depois.

A experiência durou um ano, o chic lit ainda está em processo de maturação, junto com outras muitas histórias que talvez um dia eu escreva. Mas percebi que não quero mais brincar disso, não quero mais alimentar a peruinha em separado da CDF. Não preciso mais de um blog feminino, estou apaziguada e perfeitamente em equilibrio com meus muitos lados. Ninguém precisa ser uma coisa só e sempre gostei de inventar personagens. Era o tipo de criança, e de adolescente, que falava sozinha, encenava dramas no quintal.

Na queda de braço entre meu lado perua e o lado cabeção, nenhum dos dois ganhou a disputa, porque o caminho do meio é aquele que possibilita uma visão mais ampla e privilegiada de todos os lados da estrada. De brinde, ainda me livrei do mal-estar enorme causado pelo assédio das marcas de roupas, sapatos, acessórios e cosméticos.

Verdade seja dita, quanto mais velhos ficamos, mais de saco cheio para algumas coisas nos tornamos. Me enfadei da vaidade pela vaidade…

Au revoir beauté!

*Imagens do site batom.net

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
Esta entrada foi publicada em Geral, Querido Diário com as etiquetas , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s