A responsabilidade das mulheres e a omissão dos homens

Símbolos masculino e feminino

As muitas combinações dos símbolos de masculino e feminino para um mundo  que clama por respeito à diversidade

A reportagem de capa da revista Época desta semana, a de nº 774, é sobre relações de gênero, mais especificamente a relação entre homens e mulheres heterossexuais. Com o sugestivo título “O que as mulheres querem dos homens”, a série de matérias que compõem o especial trata do quanto as mulheres têm expectativas demais e do quanto os homens estão perdidos e sem saber como atender tantas exigências femininas.

Um amigo, que sabe do meu interesse pelos estudos sobre as relações humanas, as identidades masculinas e femininas (não necessariamente as identidades hetero) e a sexualidade e suas muitas formas de expressão, me perguntou o que achei da reportagem:

O raciocínio que conduz a série especial é o seguinte: “as mulheres são responsáveis pelo comportamento masculino”. E o pensamento está correto, em termos. Inclusive concordo em parte com essa afirmação e até reproduzi uma fala da historiadora Stephanie Coontz, no post abaixo. Uma das partes que compõem o especial de capa da Época é uma entrevista muito interessante com Coontz, que segue a linha do neo feminismo, ou seja, da preocupação com a formação de pessoas, respeitando sua diversidade e identidades. Discutir gênero de forma binarista e estereotipada, machos de um lado, fêmeas do outro, se torna cada vez menos eficiente para explicar um mundo tão múltiplo quanto o nosso.

Por que considero a reportagem correta em termos? Porque ela só mostra um dos aspectos de uma questão que tem inúmeros fatores. Se está correto dizer que as mulheres tem responsabilidade na sobrevida do machismo, porque infelizmente existem muitas mulheres que reproduzem discursos machistas e que educam seus filhos – meninos ou meninas – dentro das premissas do machismo; por outro, senti falta na reportagem de uma abordagem sobre a questão da omissão masculina. E convenhamos, não deixa de ser uma forma de omissão esconder-se atrás da imagem do macho em crise por conta da conquista de autonomia por parte das mulheres. Não que de fato deixe de existir uma crise aí, ela existe, tanto para homens, quanto para mulheres. Mas definir toda a discussão ao jogo “se elas se submetem nós dominamos e se elas dominam ficamos perdidos”, é deveras reducionista.

Assim como o machismo não é só coisa de homem, feminismo também não é inerente apenas às mulheres. Lógico que, homens que apoiam o feminismo geralmente herdaram isso da educação recebida de suas mães, o que não impede que tenha sido também graças a atuação de pais mais sensíveis. E, ainda, não impede que mesmo aqueles que tiveram educações tradicionais e heteronormativas, com pais e mães seguidores da cartilha do machismo, estejam impedidos de evoluir. Todo mundo cresce e um dia sai do ninho. A vida ensina tão bem quanto os pais, seja pelo amor ou pela dor, ou ainda por doses cavalares de leitura, observação das transformações do mundo e a prática do livre pensamento.

Capa da Época 774

Capa da Época 774

Nem todo filho, ou filha, reprimido (a) na infância por uma educação equivocada precisa reproduzir isso com os próprios filhos na vida adulta. O ideal, inclusive, é que não reproduza. E para alcançar essa libertação, alguns com menos esforço e outros com mais, basta o mínimo de boa vontade em aceitar e compreender as diferenças. Bem sei que há aqueles para quem a venda nos olhos nunca será retirada, seja por pressão das alas conservadoras da sociedade (religiões intolerantes e etc), ou por dificuldade própria de evoluir, teimosia e radicalismo. E é por causa da cegueira desses indivíduos que ainda é necessário para as mulheres cis ou trans, ou ainda para os homossexuais em geral, lutarem por respeito e igualdade de direitos.

A sensação que tive ao concluir a leitura da reportagem é que um ponto importante foi tocado, o do quanto as mulheres perderam em poder, auto referência e identidade ao longo dos milênios ao se submeterem e abrirem mão da própria soberania. Não que isso tenha sido feito de forma pacífica, vide a inquisição e tantas outras formas subliminares ou óbvias de aniquilar mulheres e não só elas, o espírito feminino da humanidade, ao longo da história. Recentemente, com a divulgação de tantos casos de violência contra a mulher e homofobia, vemos que a tática do extermínio permanece.

Mas, por outro lado, faltou à discussão lançar luz sobre o quanto foi conveniente para os homens, e isso não deixa de ser uma estratégia de dominação, colocar-se na postura de omissos ou indiferentes aos clamores femininos. E essa omissão e/ou indiferença vai desde os velhos pais do início do século XX, que reinavam na casa apenas como provedores e quase nunca participavam da educação dos filhos e filhas; até os homens de agora, que se escondem por trás da máscara de ‘perdidos e confusos com as altas exigências femininas’.

E para tentar explicar essa “fragilidade” do macho em crise não faltam teorias que vão da psicanálise ao determinismo biológico, como se, para além dos corpos de machos e fêmeas e dos seus hormônios, não existisse também um espírito capaz de educar-se e evoluir.

Um mérito da reportagem, apesar da abordagem incompleta, é mostrar que essas ‘altas doses de exigência feminina’, inclusive com ranking para as qualidades necessárias e essenciais ao “homem perfeito” nada mais são do que um pedido para que eles assumam o protagonismo da relação não acima, mas ao nosso lado.

Se os homens tiverem a boa vontade de abrir as ‘portas da percepção’ de suas mentes para a sutileza desse discurso, vão entender que estamos sim dispostas a negociar as suas – e nossas – inaptidões devido a uma educação falha herdada do passado patriarcal que se reproduz em eterno ciclo vicioso, de homem para homem, de mães para filhos e filhas.

Assim, poderemos, em um futuro não tão distante, enterrar o machismo e todos os males que derivam dele.

Mais sobre o assunto:

>>A coluna de Ruth de Aquino na Época 775, que estará nas bancas neste sábado, também reflete sobre a reportagem que mencionei no texto acima. Vale a leitura!

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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