Citações, Geral

” a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana”

homem caminhando“Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional. Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão direita.

Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal daquelas costas vestidas.

Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes pensamentos.”

(Bernardo Soares, semiheterônimo de Fernando Pessoa, em O livro do desassossego, pág. 101, Companhia das Letras, 2006, São Paulo – SP)

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2 thoughts on “” a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana””

  1. Olá! Gostaria de saber se este desenho, do homem caminhando sozinho, também é de sua autoria, pois gostaria de utilizá-lo em uma obra literária. Desde já agradeço a atenção! Um grande abraço!

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