Geral, Literatura, Resenhas

Resenha: O prisioneiro do céu (Carlos Ruiz Zafon)

Um livro para fazer justiça a don Fermín

Carlos Ruiz Zafon devia aos fãs de sua saga do Cemitério dos Livros Esquecidos, iniciada com o belíssimo A sombra do vento, uma história que revelasse o misterioso passado de um dos coadjuvantes mais interessantes criados nos últimos tempos pela literatura. E ele preenche essa lacuna, revelando-nos um pouco mais sobre a vida do carismático e quixotesco Fermín Romero de Torres em O prisioneiro do céu.

As fotos são do castelo de Montjuic, em Barcelona. Durante a ditadura de Franco, o local serviu de prisão política para os considerados “inimigos do regime”. Fermín e David Martín se conhecem nessa prisão

O pretexto é entrecruzar os destinos de Daniel Sempere, protagonista de A sombra do vento, com o de David Martín, personagem principal de O jogo do anjo (leia a resenha dos dois livros). E o pano de fundo, os preparativos para o casamento de don Fermín com a doce Bernarda. Mais do que esclarecer fatos, como revelar a verdadeira identidade de Fermín, que aliás ele não revela, Zafon envolve o leitor em uma trama que mistura O Conde de Monte Cristo (não à toa citado em passagens importantes de O prisioneiro do céu) com os bastidores da ditadura franquista, mais especificamente, os tenebrosos porões de tortura, morte e desaparecimentos.

O cenário agora é a Barcelona de 1957 e a cidade, assim como nos dois livros anteriores, mais que o palco onde o drama acontece, é personagem também, e de importância vital para a trama. Mais da metade da força dessa história dividida em três atos está na cidade. Fora da dramática Barcelona da primeira metade do século XX, a saga não seduziria com a mesma intensidade.

A ação começa com a necessidade de Fermín assinar os papeis de seu casamento, algo corriqueiro, mas que tem um complicador no passado nebuloso do noivo. De origem misteriosa e, segundo ele mesmo contou em A sombra do vento, envolvido com espionagem e contra-espionagem no período do entre-guerras, Fermín Romero de Torres foi prisioneiro durante a ditadura, traz no corpo as marcas de inúmeras sessões de tortura, e foi dado como morto pelo regime, o que inviabiliza que tenha documentos oficiais.

A partir daí, acontece toda uma conspiração para que o personagem saia finalmente da clandestinidade e possa reconstruir a vida ao lado da mulher que ama. Ao mesmo tempo em que tenta “renascer dos mortos”, Fermín revela ao amigo Daniel Sempere sobre os tempos na prisão e a amizade que fez lá dentro com um escritor genial e atormentado, diagnosticado como esquizofrênico, chamado David Martín. As implicações dessa amizade para a vida de Daniel deixo para vocês mesmos descobrirem, que não quero tirar o doce da boca de ninguém.

Embora a editora e o próprio autor enfatizem que a saga do Cemitério dos Livros Esquecidos pode ser lida em qualquer ordem, acho pouco provável que um leitor que não tenha passado antes por A sombra do vento e O jogo do anjo consiga fruir O prisioneiro do céu em sua totalidade. Impossível não é, porque Zafon é habilidoso em construir histórias diferentes, mas o livro é sim uma continuação dos dois anteriores e está situado, inclusive, em um tempo histórico posterior. Para apreender a beleza e o significado completo da obra do autor catalão, recomendo a leitura dos três, pois os livros se entrecruzam. Ler apenas um deles sem conhecer os demais, impede a visão do quadro completo.

Acredito ainda que Zafon, após nos dar de presente um romance sobre don Fermín, suas aventuras e desventuras até o encontro dele com a família Sempere, ainda nos deve um livro revelando mais sobre o Cemitério dos Livros Esquecidos, esse lugar-personagem situado fora do tempo, envolvido em uma atmosfera mítica, onde segredos deste e de outro mundo se escondem em corredores intermináveis, forrados do chão ao teto de livros que podem levar à salvação ou à condenação.

Ficha Técnica:

O Prisioneiro do Céu

Autor: Carlos Ruiz Zafón

Tradução: Eliana Aguiar

Editora Suma de Letras

248 páginas / Preço: R$ 26,70 no site da Saraiva (consultado em 7/09/2012)

*Leia um trecho de O prisioneiro do céu

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6 thoughts on “Resenha: O prisioneiro do céu (Carlos Ruiz Zafon)”

  1. Sou mais uma fã do Zafón, os livos dele conseguem me transportar para o mundo descrito em suas páginas, com cada calafrio e mistério envolvidos, e também fiquei bem decepcionada com O Prisioneiro do Céu. Está infinitamente aquém dos demais, parece que foi escrito às pressas, sem muito comprometimento. É interessante, satisfaz a curiosidade sobre a vida do Fermín e nos esclarece quem é Davi, mas quase chego a dizer que é desnecessário.
    Jamais recomendaria alguém a começar a leitura do Zafón por Prisioneiro, ele não desperta paixão pelo autor, não forma fãs. Para os mais jovens e menos afeitos à leitura recomendo começar por Marina, aos demais, certamente A Sombra do Vento.

    1. Também não recomendo que ninguém inicie uma trilogia justamente pelo último livro, Ana Paula, porque perde o sentido de continuidade da história, foi o que eu quis dizer na minha resenha, que embora a editora e o autor digam que a trilogia do cemitério dos livros esquecidos pode ser lida em qualquer ordem, eu sinceramente acredito que a melhor forma de fruir a história como um todo, contínuo e dotado de sentido, é começar com A sombra do vento, passar para O jogo do anjo e finalizar com O prisioneiro do céu. Tampouco recomendo Marina apenas para leitores mais jovens, a história tem força e beleza para cativar adultos também. Abraços!

  2. Legal a resenha Andreia. Pra quem gosta do Zafón e curte os personagens de A Sombra e O Jogo, é legal. Mas o livro é o mais fraco do autor, aliás, parece que Zafón não foi tão Zafón no livro. Aliás, eu diria que Zafón fez Marina e A Sombra num crescendo. Em O Jogo começa a cair (eu não vi tudo isso em O Jogo do Anjo – acho que ele não dividiu claramente a realidade da esquizofrenia de David e não deixou ao leitor base para saber bem o que era o real e o que não era – muitíssimo aquém de A Sombra) e em Prisioneiro bate no fundo. Mas é o fundo de Zafón, claro, que é mais alto que a média. Eu vou comprar o quarto livro quando sair porque sou dos que gostam de Zafón e porisso curti ler Prisioneiro. Mas nunca recomendaria ele ou O Jogo para quem não conhece Zafón. Recomendaria A Sombra e Marina, para serem lidos nessa ordem. Depois sim, seguir com O Jogo e Prisioneiro. Ler Marina antes de A Sombra, pra quem não conhece o Zafón, tira um pouco do impacto que a prosa dele causa à primeira vista.

    1. Oi João, cada leitor percebe os livros que lê de uma forma, percebe o trabalho de autor que gosta de uma forma. A resenha postada aqui no blog é minha leitura dessa trilogia. Acabei de ler Marina e em breve devo resenhar também, mas sempre vai existir quem concorde com o que eu digo e vai existir quem discorde. O bacana no mundo é que essa diversidade de opiniões contribui para o crescimento tanto de quem emitiu a opinião quanto a de quem se permitiu respeitar a visão do outro, mesmo que essa seja diferente da nossa. Abraços e obrigada por comentar no meu blog, com certeza é um privilégio ser lida e mais ainda despertar interesse a tal ponto de gerar comentários :)

  3. Sou fã número 1 dos livros do Zafón: “A Sombra do Vento” é incrível, “O Jogo do Anjo” é muito bom e “Marina” é maravilhoso…

    Mas o “Prisioneiro do Céu” me decepcionou… Foi intensificada a relação entre os livros “A Sombra do Vento” e “O Jogo do Anjo”… O problema é que essa relação (que havia sido muito bem explorada nos livros anteriores) foi muito forçada neste romance, em meu ponto de vista.

    Para mim, a história dos personagens Daniel e Fermin haviam sido encerradas de maneira dignas em “A Sombra do Vento” e a história de David Martin teve um final incrível em “O Jogo do Anjo”… Eu acredito que não havia necessidade de escrever mais sobre esses personagens.

    Fora isso, e apesar da tradução conter alguns erros (nada que comprometa), é um livro que vale a pena ler… Existem momentos muito legais (principalmente do Fermin). Mas o Zafón me acostumou com livros espetaculares, por isso eu não esperava menos do que isso dele. E dessa vez, foi muito menos.

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