Lugar de gente não é na prateleira

Sábado passo pela sala enquanto minha mãe assiste a novela Avenida Brasil. Paro para ver uma cena entre Jorginho e Débora. Ela diz que precisa se afastar dele, para poder esquecê-lo e seguir adiante com a vida. Ele, mesmo enrolado com um amor de infância, diz que não quer se afastar da ex-noiva, que precisa tê-la por perto. Volto para o quarto e para minhas leituras, mas fico matutando na cena da novela, lembro de alguns papos com amigas. Conclusão óbvia: Jorginho está mantendo Débora na prateleira!

Lembro do caso de uma amiga. Apaixonadíssima por um conhecido. Mas o rapaz só quer a amizade dela. No entanto, mesmo sabendo que a menina é louca por ele, não desfaz a esperança da moça em definitivo. Fica uma coisa mais ou menos assim: quando ela demonstra muito interesse por ele, o rapaz foge. Ela então se afasta, começa a se convencer de que ele não vai querer nada com ela (nós amigas ajudamos a reforçar a decisão), mas daí quando ela está quase conseguindo, o carinha volta a curtir seus status na rede social, a puxar papo via internet. A esperança volta ao coração dela e nós, amigas, ficamos naquela de esperar a próxima decepção, para consolar. Esse carinha também está mantendo minha amiga na prateleira!

Me pergunto o que faz as pessoas agirem assim? Digo pessoas porque também já vi mulheres colocando pretendentes na prateleira, como numa espécie de reserva de mercado para os tempos de escassez. Não gosto dessa atitude, que convenhamos, é mais comum entre os homens. Uma boa parte deles adora colocar as mulheres na prateleira. Deve ter relação com o ego masculino. Quanto mais mulheres interessadas, mais ele se sente o tal. Lamentável, não é mesmo? Acredito que os homens de verdade, no sentido de humanidade, hombridade, não agem dessa forma. Mulheres de verdade também não.

Devia existir algum tipo de lei (que para variar fosse seguida), que impedisse as pessoas de usarem e abusarem dos sentimentos umas das outras. Alguém aí vai dizer que isso é questão da consciência de cada um, mas infelizmente, cada vez menos gente tem consciência; ou, quando tem, empurra a coitada para algum sótão da mente. Sem a consciência para atrapalhar e envergonhar, a desculpa é que a natureza humana é a de um predador. Deve ser mais fácil para quem sai por aí “predando” os outros, botar a culpa na biologia. No entanto, não vivemos mais na época das cavernas, já devíamos ter evoluído.

Em todo caso, para cada um que coloca alguém na prateleira, existe um alguém que se acomoda com a posição, numa tentativa infantil de vencer o outro pela resistência. O ideal é não fazer uma coisa dessas consigo mesmo (a). Fuja das prateleiras alheias como o diabo foge da cruz, porque você é boa (bom) demais para ficar no banco de reservas sem nenhuma perspectiva de ser chamada (o) para o jogo.

Não digo que logo de cara evite persistir, também não é para jogar a toalha assim tão depressa, muitas vezes o outro só está com medo de arriscar e o timing dele (a) pode ser diferente do seu. Mas fiquem atentos aos sinais, não tentem dar sentido ao que não existe. Em alguns casos, aquela curtida no Facebook foi só por amizade mesmo, sem segundas ou terceiras intenções.

Uma amiga outro dia me lembrou em uma conversa sobre chances de crescimento no emprego, que a frustração acontece quando criamos expectativas onde não existem possibilidades. Creio que o conselho também serve para as expectativas em geral da vida, incluindo as afetivas.

Viver sem esperar, sem idealizar um mundo perfeito, é impossível para a alma humana, que é feita de sonhos, como bem dizem os poetas. Mas existe um limite entre ter expectativas positivas sobre algo ou alguém, batalhando para realizá-las se de fato são realizáveis; ou viver de ilusão, entregando ao outro a tarefa de nos fazer feliz.

A tarefa, já bati nessa tecla outras vezes, é só nossa e sair da prateleira, uma questão apenas de alcançar a escada mais próxima e descer de lá.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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Uma resposta a Lugar de gente não é na prateleira

  1. Fernando diz:

    Manter as pessoas em prateleiras nos dá um certo conforto de imaginar que sempre poderemos recorrer a alguém em tempos de baixa. Para este e para muitos outros casos, é importante repensar o próprio ego… Já sair da prateleira nem sempre é fácil, mas é um ato de coragem e de amor a sí mesmo. Não dá pra ficar a vida toda à espera de alguém, que talvez nunca esteja lá. Na verdade ,acho que na vida podemos atravessar diversas fases: colocamos na prateleira, somos colocados lá, ficamos nela ou saímos definitivamente.

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