Geral, Literatura, Resenhas

Resenha: Talvez não tenha criança no céu

Requiém para uma adolescência perdida

Talvez não tenha criança no céu, livro de estreia do jornalista e escritor baiano Davi Boaventura, lembra Charles Bukowski e sua forma árida de extrair poesia do desalento. Lembra ainda Requiém para um sonho, emblemático filme de Darren Aronofsky, na mesma medida em que narra os últimos dias de um grupinho miserável e autodestrutivo. Não significa que seja a mesma história dos dois exemplos citados. O autor tem estilo próprio e costura sua narrativa com o talento de um contador de histórias promissor, mas não nega que bebeu na fonte da cultura de sua geração.

O livro conta a história de um quarteto de adolescentes situados entre a classe média e a alta, moradores da região metropolitana de Salvador. O narrador é um desses jovens, sem nome, que através de uma visão desinteressada e ao mesmo tempo desesperada da vida (talvez um dos personagens de Ao sul de lugar nenhum na flor da idade), conta para o leitor os últimos dias das férias de meio de semestre desse quarteto improvável, errando sem eira nem beira entre bebedeiras, festas, violência e idas à praia.

Gil, o melhor amigo, é o que parece ter o futuro “mais promissor”. Vai viver os últimos anos de porralouquice entre o fim do ensino médio e da faculdade, ter uma profissão, casar, ter filhos, acomodar e envelhecer com um sorriso beatífico nos lábios. A juventude de excessos deixada para trás numa das gavetas da memória. Os irmãos Paloma e Cássio, os outros amigos, são o estereótipo de pobres meninos ricos e devem cumprir uma sina de entradas e saídas de clínicas de reabilitação, morrendo cedo, de overdose. Já o narrador caminha para o limbo e uma cirrose hepática.

A voz desse narrador quase menino, sem perspectiva, sem ideologia, sem nem mesmo um interesse na vida ou no que está ao seu redor, é uma missa fúnebre para uma juventude desesperançada, mal preparada para a vida por seus pais ocupados demais, ou afundados demais na própria miséria, para prestar atenção neles. O vazio existencial do narrador, seu ar blasé e o desprezo por qualquer tentativa de ajuda, um resquício de rebeldia em não aceitar subjugar-se ao sistema, combina uma apatia profunda para tentar um caminho alternativo. O jovem acomoda-se na posição de um zero à esquerda, deixando a fase de baixa estima típica da adolescência transformar-se em ritmo galopante em depressão.

O autor não faz concessões a finais felizes e nem busca a redenção de seus personagens. Todos são seres medianos, descartáveis em um mundo que fabrica felicidade seja em forma do consumo de bens materiais ou de psicotrópicos. O livro é pessimista em seu panorama de uma sociedade que adoece por dentro, cada vez mais. Parece vaticinar: a geração atual está irremediavelmente perdida. Deixa um travo amargo na boca. Não recomendo para estômagos sensíveis. Mas quem não se importa em levantar a gaze e olhar o quão feia é a ferida, está mais que recomendado.

Em tempo: Davi Boaventura participa de uma noite de autógrafos, no próximo dia 06 de julho, às 18h, na livraria Saraiva do Shopping Barra, em Salvador.

Ficha Técnica:

Talvez não tenha criança no céu

Autor: Davi Boaventura

Editora: Livros de Safra / Selo Virgiliae

128 páginas

Preço: 29,90

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