Baú de Histórias, Crônicas, Geral

O crucifixo

Tinha dez anos e cursava a quarta série do ensino fundamental, na turma A do colégio Adroaldo Ribeiro Costa, no Cabula. A outra menina, que não lembro mais como se chamava, era uns dois ou três anos mais velha, um palmo mais alta e já peituda. Desde muito pequena, eu tinha mania, junto com minha irmã, de futucar a caixa de bijuterias de minha mãe, cheia de relíquias dos anos 50/60 que para nós eram preciosidades. Tirávamos tudo da caixa e experimentávamos infinitas vezes. Um dia, pedi à minha mãe para me deixar usar um colar fino, de bolinhas metálicas, com um crucifixo de marcassita. Quando eu tinha dez anos, 1984, Madonna e o seu visual de ninfeta dark era o ideal de moda de todas as meninas. Eu queria usar um crucifixo menos por fé e mais por desejo de imitar a material girl. Fui para a escola me sentindo a própria cantora pop, com o colarzinho e o crucifixo no pescoço. Escola pública, naquela época, não era a barra pesada de agora, com jovens traficantes entrando disfarçados com fardas compradas clandestinamente ou alunos armados ameaçando apagar o professor que lhes reprovar. Mesmo no turno noturno daquela época (eu estudava de manhã, não tinha idade para frequentar escola noturna e tampouco trabalhava para justificar), as coisas eram infinitamente mais tranquilas. Ainda assim, fosse de dia, de tarde ou à noite, sempre havia uma turminha mais encrenqueira. A menina peituda da quarta B fazia parte de uma turma de encrenqueiras que adorava infernizar a vida das menores. Eu não era tão pequena para a idade, sempre fui crescida e além do mais, por ser gordinha, a impressão era de que era forte (pulmões asmáticos não dão na vista). Não mexiam comigo. Mas o crucifixo de Madonna foi demais para a peituda aguentar. Um dia, no intervalo, me parou na escadaria que dava acesso à quadra de esportes. “Você vai me dar esse colar agora!” – berrou. Respondi calmamente que não podia, que era emprestado, pertencia à minha mãe, e segui para o jogo de baleado. No dia seguinte, de novo, me parou perto do bebedouro e disse que eu tinha de entregar o colar, ou ía me arrepender muito. Não entreguei. No terceiro dia, tirei o colar do pescoço, enrolei no braço como uma pulseira de bolinhas, deixei o crucifixo em casa. Aos dez anos, era esperta o suficiente para saber que o que os olhos não veem, o coração não cobiça. A peituda caiu no truque. Passou a fazer chacota e dizer que eu tinha deixado o colar em casa, com medo. Sentia-se poderosa ao achar que me metia medo. Ignorei a provocação. Sempre fiz isso, mesmo que escondida no banheiro chorasse feito uma bezerra desmamada (e sempre fui meio manteiga derretida), ou que o coração só faltasse sair pela boca de tanta apreensão, na frente do opositor nunca demonstrava fragilidade. Deixei a menina mais velha descarregar todo o azedume e frustração por não ter sido obedecida. Ela não ganhou o que queria e lançava piadinhas para descontar. Eu revirava os olhos para cima, fingia não ter escutado, não respondia. Minha mãe sempre me ensinou que em certos casos, a melhor resposta é ficar calado e tratar o outro com indiferença. Um dia, a garota cansou, viu que no meu silêncio, a vontade era tão forte quanto a dela. Por mim, o cabo de guerra se sustentaria até o fim do ano letivo, mas ela não teve paciência e a coisa ficou por isso mesmo, caiu no esquecimento. O colar de bolinhas de mamãe ficou sempre ali, enrolado no meu braço até que um dia ele quebrou. Era frágil e não aguentou o tira e bota, enrola, desenrola do pulso.  O crucifixo, usei até a vida adulta, sempre mudando-o de correntinha cada vez que uma partia. Quando ficou imprestável para uso, ainda o guardei na caixinha de bijuterias por muitos anos, uma relíquia da minha primeira prova de resistência…

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4 thoughts on “O crucifixo”

  1. Essa época de escola tem muito disso, né? Embates, espasmos deles, rivalidade, desafios, garotões tirados a alguma coisa, meninas que tiram sarro das outras… Bela crônica, Andreia!

  2. Pensei que esse tipo de rivalidade e provocação só existisse entre os meninos. Nos meus tempos de escola tb passei muitos apuros por conta de alguns valentões. Quanto á mim, sempre fui um cagão de merda, então não me restava outra coisa á fazer, senão sair correndo assim que escutava o toque da saída, horário em que as brigas geralmente aconteciam…rsrs.
    Parabéns pela fantastica cronica, Andreia…
    Eu demoro, mas sempre volto ao teu espaço.

    Abraços!!

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