Área de Segurança Máxima

Sempre fiquei intrigada com as pessoas que, diante das situações mais graves, dos problemas mais insolúveis, mantém a rotina diária organizada. Minha primeira reação sempre foi pensar: “nossa, que insensível!” ou “que alienada, o mundo se acabando e ela aí preocupada com o que vai cozinhar para o almoço!”

Com o tempo, e a maturidade, percebi que seria muito raso tachar pessoas assim de covardes, alienadas e insensíveis; ou ainda simplificar a questão afirmando que elas se agarram à rotina miúda para fugir das coisas realmente sérias e importantes. Como se cuidar da casa e dos afazeres diários fosse um tipo de tábua de salvação, um anestésico para não encarar a crueza da vida. Não digo que não existam pessoas que usem esse recurso ou mecanismo de autopreservação. Mas não é só isso. Nunca é só isso.

O problema é que nesse mundo cada vez mais louco e corrido, somos levados a acreditar que tudo tem de ser feito para ontem ou que a demora na solução de uma questão é sinônimo de ineficiência. Também não é nada disso. Há situações, lógico, em que se precisa agir rápido. Mas a vida não precisa ser levada a 180km por hora o tempo inteiro, o coração não aguenta.

Manter a ordem mínima talvez seja a zona de silêncio no meio do furacão para muita gente, mas não por acomodação ou imaturidade. É que elas precisam pensar, mastigar o tal problema insolúvel, digeri-lo, esgotá-lo, observar a questão por todos os lados e ao mesmo tempo continuar vivendo independente do problema ser grande ou pequeno. A solução, de uma forma ou de outra, existe e na hora certa será encontrada.

Ao contrário dos que se martirizam em busca da chave mestra que abrirá todas as portas em um piscar de olhos, garantindo a eficiência, as pessoas que mantém sua rotina em um ritmo humano, apenas dão tempo ao tempo, seguem com a vida, começam a desatar o novelo pela ponta menos embaraçada. Quando menos esperam, ou talvez por ter certeza disso, confiam e avançam, a lã já está toda esticada, sem um único nó.

O cotidiano, essa rotina miúda, em alguns momentos da vida, é uma área de segurança máxima. É o que permite o reequilíbrio das forças, o que distrai da expectativa febril e da angustia de que aquilo que tanto incomoda se resolva logo. Nem tudo se resolve com a brevidade de tempo que desejamos e nem por isso a vida precisa estagnar. Engana-se quem acha que a rotina e as tarefas genéricas do cotidiano significam estagnação. É que tem coisas que precisam maturar, simples assim!

Demorou algum tempo, mas acredito que finalmente entendi que a rotina é como uma entressafra, uma fase de descanso do terreno e do lavrador. Não significa que o campo foi abandonado, mas apenas que não é a hora certa de semeá-lo…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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