E mais essa agora, um ranking para medir a autoestima feminina!

Uma mulher que sabe se arrumar, tem decisões firmes na vida ou no ambiente corporativo, sabe correr atrás para realizar seus desejos, é ativa no jogo da conquista, é ou busca tornar-se independente financeiramente e assume as rédeas da própria vida, muito provavelmente vai ser julgada com “excesso de autoestima” por parte da nossa ainda machista sociedade, nesse caminhar de século XXI. Só me pergunto é por que? E também o que exatamente é um “excesso de autoestima”? Ou ainda, desde quando existe ranking para medir o quanto alguém sente-se bem consigo mesmo?!

Fiquei matutando sobre o tema após ler um texto de um colunista, dia desses, no site de uma revista feminina. O tema da coluna eram as mulheres com “excesso de autoestima” e o autor desfiava um rosário do quanto os homens – e outras mulheres –  acham chatas aquelas que tem autoestima elevadíssima. Havia um coro de leitoras concordando. Me entristeço quando vejo mulheres sem senso crítico aplaudindo discursos enviesados, sem analisar direito o contexto e as entrelinhas. São essas, infelizmente, que permitem a sobrevida do machismo e de todos os outros preconceitos associados a ele. Lamentável!

Após ler a coluna e os comentários, cheguei à conclusão de que o autor não falava de autoestima, mas a confundia com arrogância, falta de educação e indelicadeza, induzindo suas leitoras ao mesmo engano. Para botar os pingos nos is, já que resolvi meter minha colher no assunto, vale explicar a diferença entre uma pessoa – tanto faz se mulher ou homem – com autoestima elevada e uma pessoa metida a besta, arrogante, grosseira e intratável.

As pessoas metidas a besta, mal-educadas, arrogantes, grosseiras e intratáveis, embora tenham “o rei na barriga” e deem a impressão de ter autoestima elevada, na verdade carecem de autoestima. São fracas, conhecem as próprias fraquezas e fabricam um personagem, para que ninguém descubra que no fundo, no fundo, a autoimagem delas anda abaixo de zero. O carinha pegador ou a garota descolada que imita a mulherzinha de papel das revistas não possuem autoestima elevada, só querem fazer os outros acreditarem que possuem. O (a) chefe intratável, que pisa e humilha a equipe, não possui autoestima e, muitas vezes, também não possui talento para o cargo que exerce, mas esconde essas fraquezas sob a máscara da tirania ou da arrogância.

Autoestima é outra coisa. Autoestima é um querer bem a si mesmo que se reflete em querer bem aos outros. Quem tem autoestima elevada é firme, mas educado; seguro, mas gentil; sabe ser romântico quando necessário, mas não se permite virar ou transformar o outro em refém; tem vaidade por saber ou buscar aprender a cuidar de sua autoimagem, mas não é pedante ou narcisista. Para nos amarmos não é preciso desprezar quem está ao redor, isso é egoísmo e egoísmo não é sinônimo de autoestima elevada.

É perigoso confundir os metidos a besta com aqueles que cultivam uma autoestima elevada porque corre-se o risco de botar mais lenha na fogueira do preconceito. Custou muito para as mulheres retomarem seu lugar de direito na estrutura social, nem acima e muito menos abaixo dos homens, mas em equilíbrio de oportunidades. É um grande desserviço um discurso que coloca no mesmo balaio as mulheres de autoestima elevada e as “descoladas” metidas à besta – na verdade, as velhas amélias/objeto de antigamente em roupagem fashion – vendidas por certas revistas.

A mensagem subliminar passada por discursos assim apenas contribui para que aquelas mulheres ainda sem o senso crítico desenvolvido e influenciáveis em excesso pela mídia, abram mão da construção de uma autoestima sadia, para perpetuarem o ciclo das amélias/objeto repaginadas. Pior, um discurso assim, lido pelos homens ainda educados na cartilha do machismo e da desvalorização de tudo que é feminino, só contribui para acirrar a ultrapassada guerra dos sexos e permitir que eles apontem o dedo e digam: “tão vendo aí, mulher para ser apreciada, para arrumar marido, precisa ser um tanto submissa, se for poderosa demais ninguém quer!”

É inaceitável que ainda hoje haja quem pense dessa forma, sejam homens ou mulheres. Inadmissível que uma mulher seja julgada pelo número de relacionamentos afetivos ou sexuais que teve ou deixou de ter. Impraticável gerir com eficiência e justiça, uma sociedade que na sombra ainda despreza a liderança feminina.

É preciso sim, manter a autoestima, tanto a pessoal quanto aquela que pertence ao coletivo, ao princípio feminino da humanidade, elevadíssima, em níveis estratosféricos. E é preciso, acima de tudo, tomar partido contra discursos que embora aparentemente inocentes, querem nos fazer desconfortáveis – e até culpadas – com as nossas conquistas legítimas. Vamos educar a sociedade para não confundir arrogância com autoestima.

Uma mulher poderosa de verdade, tanto faz se equilibrada num scarpin salto 15 ou usando os surrados tênis de corrida, é acima de tudo um ser humano que tendo a luz dentro de si, sabe compartilha-la com quem está ao seu redor. Pensem nisso!

***

*A coluna a que me refiro é a do João Antonio, autor do blog Fale com Ele, da revista Marie Claire. Gosto muito do blog de João e vivo compartilhando seus textos inspirados, divertidos e lúcidos nas minhas redes sociais, mas em uma de suas últimas colunas, a título de criticar o comportamento de uma norte-americana desprovida de autoestima e dotada de arrogância em excesso, ele nivelou a coisa por baixo e pisou na bola.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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