Mentiras sinceras (não) me interessam

No contexto de Maior Abandonado (Cazuza) a frase (mentiras sinceras me interessam) soa até poética, mas a verdade é que, independente de gostar muito dessa canção, as mentiras sinceras (ou falsas como uma cédula de três reais) não me interessam. Mentir socialmente também não me convence, é artifício de gente dissimulada. Muito menos cola a conversa de que certas mentiras precisam ser contadas para preservar o ouvinte da dor da verdade. Pode passar para cá minha cota de dor. Mil vezes uivar por uma verdade inconveniente e necessária, do que permanecer na ignorância.

Tenho pena dos mentirosos porque geralmente são ingênuos. Mas não é aquela ingenuidade da candura, da inexperiência. É a ingenuidade de achar que realmente conseguem enganar alguém. Por um tempo até vai, mas para sempre não funciona. As pessoas tendem a se tornar mais espertas com o passar dos anos e das porradas recebidas vida afora. Gato escaldado, sabem como é? Alguém mente para você uma vez, duas, e você ali, levando fé na criatura. Mas a ficha cai e a terceira mentira já levanta suspeitas e a quarta simplesmente não convence. Há menos claro, que por conveniência, se tome a decisão de manter os olhos e os ouvidos fechados. Detesto conveniências!

Tem gente que defende que a mentira é só uma questão de ponto de vista. Quintana tem uma frase que diz que a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. Nas entrelinhas, o poeta afirma com clareza cristalina que, se ela esqueceu de acontecer como verdade, azar da amnésia (ou do amnésico), simplesmente continua sendo uma mentira.

Há quem goste de viver de ilusão, daí fechar os olhos à mentira alheia. É o joguinho do faz de conta que acreditei, ou “pode me engabelar que eu gosto”.  Há também quem viva de fabricar ilusões para ludibriar os outros. O fato é não existe mentira inocente, assim como não existe crime perfeito. O mentiroso está sempre mal-intencionado. De alguma forma, ao mentir, quer levar vantagem sobre os demais, e em alguns casos, pelo histórico da pessoa, dá até para traçar o plano completo de como aquela mentira, aparentemente perfeita, foi concebida. O gato sempre deixa uma pontinha do rabo à mostra.

Já menti, na infância. Naqueles momentos de travessura e medo da punição que vem sempre depois de uma boa pintança. Mas lembro perfeitamente da minha mãe me dando broncas e castigos dez vezes maiores ao descobrir a verdade. Ainda muito nova, me ensinou a perder o medo de assumir as consequências pelos meus atos.

O mentiroso, além de ingênuo, é imaturo. É alguém digno de pena, porque nunca superou a fase do medo infantil de levar uma chinelada por ter feito uma travessura.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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6 respostas a Mentiras sinceras (não) me interessam

  1. Arlete Ferreeira diz:

    A Mentira corroí a Alma e Sorriso!!

  2. Lene diz:

    Mentira é sempre Mentira,nao existe mentirinha ou mentirona ,quem mente uma vez mente sempre, Odeiooo mentirassssss

  3. Ricardo diz:

    Parece haver um equívoco na música, Exagerado.Não seria Maior Abandonado ? Mas ao contexto perfeito.

  4. Michel diz:

    Mentiras infelizmente ainda fazem parte de um meio social. E acredite, Andreia: tem gente que prefere a mentira salvadora. POrtanto, nesse meio horroroso ainda minto sim… O que posso te garantir, e que vale muito á pena, é deixar de mentir para nossa companheira(o). Desde meu último relacionamento, prometi que nunca mais mentiria, e que eu seria eu mesmo, sempre, gostem ou não… No começo foi bem dificíl, principalmente por conta do medo “ilusório” que temos da rejeição por mostrarmos quem somos. Mas logo notei que era mesmo tudo ilusão, e que a aceitação é o que, de fato surge como recompensa. Estou casado á 4 anos e meio, e posso afirmar que minha esposa é a unica pessoa no mundo, que de fato sabe quem sou…
    Por falar em mentir, já leu o livro Sincero, do alemão Jurden Schmieder?? O autor narra algumas encrencas em que se meteu por ser sincero, muito legal…
    Bjs, Andreia… Parabéns pelo ótimo texto!!

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