Minha mãe é curtidora

Mãe no Facebook curte até os memes mais esquisitos que o filho posta. E tem uma quantidade enorme de mães – e pais – facebookando e vigiando a facebookada dos filhos. São os saferparents, uma geração na faixa dos 35/40, que é uma mistura inusitada de migrante digital com hard user de internet. Migrantes porque nas suas infâncias e adolescências não tinha internet e computador não era esse negócio fácil de comprar, que vende em qualquer esquina ou site “chinguilingue”. Hard users por obra e graça dos empregos, porque quem não souber mexer nessa geringonça direito perde o 747 (bonde é dose!) da história; e também por obra e graça do SMVM (Serviço de Monitoramento Virtual Materno).

Se você é um pai, troca a última letra aí da sigla e não me venha com guerra dos sexos. O termo vale também para tios, avós, dois pais, duas mães, parentes de sangue ou de coração. Qualquer adulto que seja responsável por uma criança ou adolescente é convidado a integrar a grande teia dos saferparents. Falo do lugar do mundo onde me encontro, o de mãe (coruja e babona) mas nem por isso, excluo outros lugares.

Saferparents? Ah, são os pais ideologicamente engajados em construir um mundo minimamente decente para suas crias. São também completamente traumatizados com o tanto de maldade que se esconde nos descaminhos da rede (e fora dela também, que o mundo aqui fora não é menos maldoso). Monitorar é preciso, meus caros, mas sem invadir, que tem de sobrar espaço para a cria respirar e aprender os caminhos do mundo (mesmo que virtuais) com o mínimo de desenvoltura e independência. Pais não duram para sempre, mas a internet, ao que tudo indica, tende a durar bem mais. É preciso ensinar a meninada a usar a ferramenta e não impedir o seu uso.

Dou meus baculejos diários no perfil da cria. E ele sabe disso, conversamos inclusive sobre as abordagens do SMVM e quando é preciso um papo mais sério, apelamos para o SOM (Serviço de Orientação Materna). É tipo o SOE dos tempos da escola, só que muito mais divertido. Cada mãe (troca por SOP se você é pai e continue lendo o post sem criar caso) encontra seu modo todo peculiar de falar uma língua que a cria entenda e de vigiar sem invadir.

Desobstruir os canais de recepção também é muito importante para garantir 100%, ou ao menos uns 98,5% de acerto no SOM (ou SOP, arff quanto pai ciumento!). Saber falar a língua da cria adolescente e entender o que ela diz é fundamental para um saferparent graduado. Como aprende isso? Ah, meus caros, e tem outro jeito nessa vida de ser mãe (ou pai!) se não for na base da tentativa e erro? Vão tentando, ajustando aqui e ali, apertando lá, folgando cá, que a coisa engrena. Conversar também é preciso. E perguntar. Eu pergunto muito, estou totalmente na fase dos porques da maternidade. E ele, paciente como todo virginiano, responde didaticamente, mas não sem aquela dose de ironia blasé que caracteriza os nativos do signo.

Outro dia uma mãe indagou à filha no Facebook: o que é OMG? Eu, mãe escoladinha  e metida a descoladinha nesses termos dos digifilhos, fiquei orgulhosa de saber a tradução: Oh my God! As crias adoram expressões em inglês. Lógico que atualizo meu glossário o máximo possível e constantemente. O que não sei, pergunto ao Google, ou ao são matheus da paciência filial eterna. Me gabo: meu filho tem uma paciência enorme comigo.

As crias adoram interagir entre elas mesmas. Vivem permanentemente em rede. Quando não estão no PC, estão nos smartphones ou assemelhados. A geração deles é a da hiper conectividade, não tem para onde correr. O negócio é aprender como funciona e entrar na onda também. Até hoje não consigo entender como a cria consegue estudar, assistir tv, bater papo no msn via celular e ainda baixar um capítulo da série favorita no PC, tudo ao mesmíssimo tempo. E, pelo amor de deus, nem pense em dar remédio contra hiperatividade para a sua criança se ela faz o mesmo, só aproveite o fato dela ser multiuso e torne-se, você também, mãe (ou pai) para toda obra.

Engana-se também quem acha que as crias não interagem fora da rede. E a escola? Haja fotos – tiradas com o celular, claro – de poses, caras e bocas na hora do intervalo.  E o que revelam esses instantâneos? Meninas e meninos conversando, gesticulando, sentados no chão, rindo a não mais poder. Qualquer semelhança com os seus próprios recreios lá para os idos de mil novecentos e bolinhas não é mera coincidência. A conexão virtual é só a extensão daquilo que não deu tempo de continuar no intervalo das aulas. Marcam cinema, de estudar nas casas uns dos outros. Se veem e se tocam para além das telas de LED. Nossas crias são humanas e tem necessidade de contato físico. Cabe a nós mantermos neles esse desejo de vida pulsante, nem que seja dando-lhes uma bitoca no alto do cocuruto, assim inesperadamente, enquanto eles estão lá expandindo a metrópole de Citte Ville ou fazendo a colheita do milho na Farm Ville. Minha cria se derrete nesses momentos. Já gosta de ganhar um dengo. E quem não gosta?

Com meu filho, aprendi a trabalhar com trocentas abas da internet abertas ao mesmo tempo, fazendo várias coisas de uma vez, sem perder o foco de nenhuma. Ledo engano dos que acham que a geração atual sofre da tal síndrome de atenção parcial continua e não foca em nada. Há casos e casos, lógico, mas não vamos generalizar. Boa parte deles já desenvolveu o talento natural para ser e fazer de tudo ao mesmo tempo, sem deixar os malabares caírem.

Mas, como eu ia dizendo, mãe migrante digital é babona e curte tudo – ou quase tudo – que os filhos postam. Algumas piadas a gente não entende, porque por mais que você atualize o glossário, o repertório muda numa velocidade entontecedora. E nem sempre a recíproca é verdadeira. Aliás, quase nunca. Nem fique aí achando que o seu perfil no Face, tão bacanoso e curtido pelos amigos velhotes como você, é avidamente lido pela sua cria. Raramente filhos dão baculejo na vida dos pais. É a tal da hierarquia, ou do respeito, sabem como é? E sabem também de uma coisa, não é para ser mesmo essa promiscuidade de um ficar fuçando a página do outro o tempo inteiro, feito personagem ciumento obsessivo de novela do Manoel Carlos.

Monitorar é preciso, orientar é preciso, incentivar a independência e o uso responsável não só da internet, mas da própria vida é mais que preciso… Só que, cada geração tem sua turma, sua linguagem e suas necessidades de o mínimo de liberdade para evoluir.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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