Cotidiano, Crônicas, Geral

Cachorrada II

Representante legítima da geração que foi educada na base do “as caretas vão te pegar” ou cuidado com o “velho do saco”. Criada em meio a lendas urbanas como as que circulavam na periferia e bairros populares de Salvador nos idos dos anos 80 – uma delas era a do mítico bandido “Peixe Frito”, que sequestrava meninas e meninos incautos lá para os lados do Cabula -, não consigo ver um adulto amedrontando uma criança sem sentir um grande buraco se abrindo no estômago. Medos antigos, diria o terapeuta, se eu tivesse um terapeuta. Mas tenho um blog.

Tive muita vontade de dar uns sopapos na baiana de acarajé aqui da rua dia desses. Uma senhora daquela idade, venerável na sua roupa branca, rendada e engomada, torço e pano da costa, contas e balangandãs, uma baiana típica, daquelas que me dá um gosto enorme de ver, mas tive vontade de sentar a mão na mulher.

O garotinho devia ter seus três anos. A mãe, amiga da baiana, batia papo com ela no ponto de ônibus, onde o tabuleiro é armado diariamente no final da tarde. Os moradores antigos do bairro batem ponto por ali, comem um acarajé, um abará, compram cocadas (nham, nham, adoro cocada!). O guri, até quieto para a idade, segurava a mão da mãe enquanto ela botava a conversa em dia. Não prestei atenção na conversa das duas.

Eis que surgiu uma cadela que, embora não seja de ninguém, é da rua toda. Os moradores, os mesmos que batem ponto na baiana, sempre dão comida e água, coçam atrás das orelhas do animal. A cadela, que não tem nome, caminhava pela calçada do ponto de ônibus em passo lento, pesada de tão prenha. Desconfio que ela tenha complexo de gato, ou algum espírito felino encarnado, porque tem mania de passar roçando nas pernas de quem estiver no ponto de ônibus. Talvez seja carência e ela queira um afago e quase sempre tem alguém disposto a acarinhar sua cabeçorra.

O guri mal avistou a cachorra e encolheu-se todo, enfiou a cara na barriga da mãe, como quem procura uma porta de volta ao útero. A baiana, ao ver o medo da criança, começou o perverso jogo do “vou chamar o cachorro para te pegar. Venha cachorro pegue ele, venha!”. A criança entrou em pânico e largou a chorar, um choro sentido, profundo, de grande sofrimento, que imediatamente me lembrou outros choros do tempo das caretas.

O menino quase gritava, esticava os braços para cima, pulava para a mãe o colocar no colo, tirando-o da mira do tal cachorro que vinha pegá-lo. A baiana, ainda sem perceber o tamanho do estrago, ria às gargalhadas, as contas farfalhando sobre a bata branca. A mãe carregou o menino e começou a consolá-lo dando tapinhas nas costas. A cadela, dócil, indiferente ao choro da criança, passou pela cena e seguiu seu caminho em direção à porta do mercadinho, onde sempre tem alguma sobrinha boa para beliscar.

A mãe explicou à baiana que o menininho morre de medo de cachorros, mesmo os mais mansos. Basta ver um cachorro, até mesmo um poodle, e o menino se descontrola. O garoto ainda choramingava com a cabeça encostada no ombro dela e a baiana, já séria, tentou se justificar diante  da cara feia de quem assistia ao espetáculo no ponto de ônibus. “Era brincadeira, pronto, pronto, já passou viu tio, o cachorro já foi embora. Você me desculpa?” A criança tirou a cabeça do ombro da mãe, olhou para ela, o rosto todo manchado de lágrimas, os olhinhos pretos brilhando feito pedras de ônix, havia mágoa naqueles olhos, e balançou a cabeça negativamente. Depois, virou a cabeça para o outro lado…

Eu, sendo o guri, também não desculpava.

>>Mais cachorradas que presencio por aí…

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