Geral, Reflexões

Porque reclamar de tudo às vezes é necessário

Minhas antenas captaram a seguinte conversa no ônibus em que eu viajava para o trabalho nesta segunda:

– Você reclama demais, S*! Tudo você tem que botar defeito…

– Não é nada disso, L*. Eu reclamo das coisas que eu acho que não tão é (sic) certas. Não tenho culpa se você é uma maria-bestona que acha que tá tudo sempre ótimo.

Pronto. Vamos deixar S* e L* tendo sua DR em paz e pegar apenas esse trechinho aí da conversa/discussão das duas. Reclamar muito x acomodar-se e aceitar a vida como ela é.

Sou do tipo que reclama. Às vezes em alto e bom som, às vezes resmungo comigo mesma uma frase parecida com a de S* (“isso não está certo”), às vezes blogo ou facebooko ou #xingomuitonotwitter. Reclamar é uma forma de não me acomodar, não perder o foco nos valores que aprendi e/ou construí ao longo da vida e que acredito valem a pena ser preservados. Mas de vez em quando também acomodo. Let it be, canta Paul.

Admito: reclamar demais, além de cansativo para quem reclama, é chato demais para quem ouve. Então, L* não está totalmente errada em chamar a atenção da amiga para o que considera uma overdose de reclamação. O Mal-humorado e ranzinza da turma ninguém quer ser, embora todos nós, nem que seja uma vez na vida, acordemos lá um dia de “ovo virado”, fígado azedo, intratáveis. O negócio é descobrir se essa bronca toda com o mundo é pontual ou se a coisa está fugindo ao controle e de repente nos vemos reclamando até da própria sombra.

O contrário também vale. Não reclamar de nada, aceitar todos os sapos, calangos e lagartixas que a vida joga no nosso prato é algo pontual, de repente para recarregar as baterias ou porque de fato tem brigas que não valem a pena ser compradas? Ou é uma postura medrosa, passiva, de vítima resignada das circunstâncias? A segunda opção é tão ruim para a saúde quanto a do sujeito que mal bota o pé fora da cama e já briga até com os chinelos.

Equilíbrio. Oh troço difícil de conseguir! E no entanto, é sempre dele que tratamos, é o danado que perseguimos em todos os momentos. E a balança tem horas que ajuda, que fica ali paradinha no meio-termo, nem nos deixa virar a ranzinza, azeda e intratável e nem a “maria-bestona” citada pela amiga S* ali do começo do post. Só que, vez por outra, as condições atmosféricas favorem mais um estado de espírito do que o outro.

Que fazer? No caso da reclamação, descobrir a causa e tentar uma solução, porque bradar aos quatro ventos e continuar incomodada é que não dá. Essa solução, porém, às vezes custa a chegar, ou a ser encontrada, ou depende de um empurrãozinho de terceiros, ou de sentar, respirar fundo e repensar a vida, rever os caminhos, etc, etc. E no caso da mariabestice? Dar um basta na pasmaceira e se mexer também, oras! Mas não é fácil, você aí me dirá. Não. E quem disse que viver é fácil?

Não tenho as respostas para o grande enigma da vida, mas com o passar dos anos tento respeitar meus ciclos internos. Autocrítica é importante, nesses casos, para percebermos quando as reclamações são gritos no vazio ou quando são combustíveis para nos empurrar para a frente e fazer alguma diferença. Ou quando a acomodação é uma forma de economizar energia, de parar e repensar a estratégia (como diriam os coachers) ou se é só o medo de sair da bolha de proteção, se é um abandono à própria sorte, que nesse caso precisa ser revertido. Abandonar-se ao acaso não é produtivo, diria o especialista em RH. Mas lá um dia, numa fase da vida, acontece da gente depor as armas e deixar-se levar. Um tanto de acaso não faz mal a ninguém; mas em excesso, vira descuido e aí faz estragos.

Até porque, do céu só cai chuva (e outras intempéries tipo neve e granizo) e se é verdade que respirar e aceitar, praticando a tolerância é necessário, assim como rir de si mesmo é um remédio contra a amargura, acredito que dar nossos urros selvagens, vez por outra, também é fundamental…

Venha cá equilíbrio, comer na palma de minha mão!

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6 thoughts on “Porque reclamar de tudo às vezes é necessário”

  1. Muito lúcida sua crônica, Andreia! Navegar entre a resignação e a indiganção, o conformismo e o bater-de-frente, a passividade e o destempero é de fato um ernorme desafio. Equilíbrio, onde te escondes, afinal?

    p.s: tenho andado sumido dessas bandas, mas adoro voltar a estes mares. bjo

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