Pra parar com essa mania de querer a vida dos outros

Zuenir Ventura, em toda sua sabedoria, já disse certa vez que não existe inveja boa. Concordo com o autor de Mau Secreto e fiquei esses dias pensando no escritor e jornalista. De secreta, em tempos de redes sociais, big brother e celebridades instantâneas, a inveja se torna um dos “pecados” mais declarados da atualidade e o fato dela ser tão divulgada, cada dia tem mais gente dizendo sentir inveja de alguém, não a torna um sentimento bom. “Inveja branca”, como definem alguns, não existe. O invejoso, mesmo quando diz a frase torpe – “olha, tô com inveja, mas é do tipo boa, tá?” -, na verdade sente é despeito amargo e gostaria de ter a vida ou de ser a pessoa alvo da inveja. Simples assim. Querer ter o que é do outro, querer ser a outra pessoa, querer a vida dela, não pode nunca ser um sentimento considerado bom. A inveja não é branca e nem preta, ela é abissal, profunda, tenebrosa, mesquinha e danosa. Não vamos envolver as cores nessa baixaria!

Lembrei de Zuenir e da inveja por causa de um texto que li outro dia. Um blogueiro de uma revista famosa respondia a carta de uma leitora que se sentia frustrada, deprimida e com raiva das postagens de seus amigos no Facebook. A leitora criticava os amigos e conhecidos por postarem fotos de momentos felizes de suas vidas, por mostrarem o churrasco do fim de semana, a viagem com o amor, os filhos, as conquistas profissionais. No texto, ela dizia que sabia que na “vida real” todos tinham uma existência tão medíocre, um emprego tão mais ou menos, quanto ela mesma, que se intitulava uma solitária. A moça dizia ainda que o Facebook a cansava e decepcionava por parecer um grande comercial de margarina.

Não consegui sentir pena dessa alma atormentada, que parecia mesmo sofrer com a felicidade alheia. Acredito que ela tenha um transtorno psicológico chamado Síndrome da Comparação Social, um nome pomposo e médico para explicar a inveja mórbida, aquela que adoece. E qual inveja não é assim? Essa síndrome, explicam os psicólogos, leva a pessoa a ficar o tempo inteiro medindo a própria vida pela vida dos outros. Ela compara desde a própria aparência física até empregos, casas, bairro onde o outro mora, relacionamentos… Em resumo, a criatura que sofre do tal transtorno é do tipo que sempre acha a grama do vizinho mais verde e que se sente um injustiçado por não ser ela a dona daquela grama tão reluzente. A síndrome, segundo uma reportagem que li, leva a ansiedade, depressão, agressividade e baixa estima.

Acredito, embora não seja psicóloga, que é justamente o contrário. A falta de autoconfiança, a baixa estima, a imaturidade e incapacidade de lidar com o mundo real e suas limitações, discernindo o que é ilusão do que é concreto, a incapacidade de ter ilhas de consolo (as fotos sorridentes na internet na verdade são carinhos que fazemos em nós mesmos justamente porque a vida é isso gente, uma mistura de prazer e dor, momentos lindos e outros bisonhos), é que faz surgir a Síndrome da Comparação Social, que no fundo seria mais uma das tantas paranoias que tiram o sono dos psicanalistas.

O invejoso é acima de tudo um paranoico. Não tem outra explicação para definir alguém que passa a vida monitorando a existência alheia e cobiçando aquilo que não lhe pertence de forma tão obsessiva e obstinada!

Invejosos são, acredito, também compulsivos. Eles sempre buscam um alvo e, tal qual os ciumentos, colocam lentes de aumento em cada pequena conquista desse alvo. Exemplo: Uma pessoa vai viajar a trabalho para alguma cidade que é ponto turístico famoso. Provavelmente, não terá tempo de se divertir, pois é uma viagem bate e volta, mas, pode no trajeto entre o aeroporto e o hotel, fazer umas fotos bacanas para registrar o fato de que esteve naquele lugar bonito, de repente para mostrar aos familiares. Eu faria isso, lógico, todos precisamos de recordações para viver, todos temos de ter nossa reserva de bons momentos para lembrarmos deles nos dias ruins. Mas, um invejoso iria olhar as fotos com o despeito característico e obviamente teceria um filminho na sua imaginação doente de que aquela pessoa se divertiu à beça na viagem, que era uma sortuda pelo chefe tê-la levado, que ele (o invejoso) nunca tinha essa sorte e etc. Num segundo estágio, o invejoso começaria a dizer que o colega que viajou deve ter prestado algum favor escuso para o chefe (se for uma colega então, vocês imaginam como estará a reputação dessa pobre alma na empresa, alvo de todo tipo de comentário despeitado e maledicente); que a pessoa é na verdade uma incompetente, que quem merecia ter ido na tal viagem não era essa pessoa e que sim, ele, o invejoso, é que devia ter viajado, porque tem mais qualidades e blá blá blá…

É coisa de alguém que precisa de ajuda, não é? Psicoterapia talvez ajude esse invejoso de carteirinha a descobrir porque a vida dos outros é tão mais interessante a ponto dele não querer a sua própria, mas a do outro, sempre. Por que será que o invejoso não enxerga que todas as pessoas, independente de mostrarem seu perfil mais bonito na rede social, tem seus momentos bons e também os ruins? Por que ele obsessivamente persegue cada sucesso alheio e os toma como uma ofensa pessoal? O problema está mesmo nas pessoas que compartilham fotos, sorrisos (algumas compartilham mágoas e chateações também, que o invejoso, claro, não enxerga) e ideias numa rede social? Ou o problema está em quem não sabe dividir, não entende o que é compartilhar, não sabe o que é curtir a felicidade alheia de forma desinteressada, principalmente quando se trata de amigos? Fico impressionada como vejo pessoas se ressentindo do sucesso daqueles que elas dizem ser amigas! Dá nojo e isso sim é que deprime.

Não digo que não existam pessoas que usem as redes sociais para se exibir e assim se sentirem superiores aos outros. Claro que existem! Mas será que todo mundo que posta as fotos dos seus momentos de felicidade na internet é um exibido em potencial, um Narciso high tech? Será que todo mundo que envia um link para os amigos de uma descoberta bacana feita na web está só querendo demonstrar o quanto é cool e inteligente? Será que todo  mundo que comenta um livro ou um filme tá querendo só que os outros babem e digam “oh, como fulano é culto?” Imagina se cada pessoa que tem algo de bom para passar aos seus semelhantes, se calar? Se as discussões acadêmicas pararem porque alguém sempre vai achar que o outro está querendo posar de gênio da raça? Voltemos todos então ao tempo das cavernas e ao uga-uga, porque pelo visto, invejosos acreditam que conhecimento é algo ofensivo!

A verdade é que todos sempre queremos ser amados, admirados e respeitados, é da natureza humana buscar aceitação e também unir-se por afinidades. E para isso mostramos nosso lado mais bacana, mais cordial, mais elegante aos outros. Pior seria se o Facebook, ou qualquer outra rede social, servisse apenas para mostrar as inseguranças, incertezas, egoísmos, fragilidades, birras e calundus que de uma forma ou de outra todo mundo comete, ou sente, nem que seja uma vez na vida.

Mostrar o tanto de beleza que há nesse vasto mundo, seja na própria  vida ou na dos outros, no cosmos, na matéria sobre aquele resort que não temos grana para ir, mas nem por isso deixa de ser bonito, fotografando a cena do ângulo mais simpático, não é hipocrisia e nem polianismo. Curtir ou deixar que os outros curtam o que há de melhor em nós não é fugir da realidade ou querer enganar os outros posando de “última coca cola do deserto”. Hipócrita é o invejoso que vai lá e curte o status alto astral dos outros e depois resmunga pelos cantos: “que falso (a), tem uma vida tão merda quanto a minha e fica de pose no Facebook”. E por acaso, ao mostrar uma cena bonita no Face, no álbum de casamento ou na vitrine do shopping, alguém está dizendo que a sua vida não tem lá seus dias de penico cheio, que o trabalho não está tão interessante quanto gostaríamos ou que o namorado gostoso da imagem não tem  um chulé insuportável? Uma coisa não exclui a outra, só que geralmente, a dor a gente só divide com aqueles amigos e familiares mais íntimos. Querer discrição nas derrotas é perfeitamente compreensível.

Só os invejosos enxergam um lado único da moeda, de preferência o lado que sempre os desmerece em detrimento dos méritos de outra pessoa. De minha parte, se encontro gente assim, corro léguas!

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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13 respostas a Pra parar com essa mania de querer a vida dos outros

  1. anónimo diz:

    Tenho 16 anos e depois de ler isso tenho certeza que sofro da Síndrome da Comparação Social, ah um certo tempo comecei a acompanhar a vida de uma pessoa numa rede social e comecei a achar fantástico o quanto às pessoas o amavam e o admiravam, e eu passava o tempo inteiro imaginando como seria se eu fosse essa pessoa, cheguei até a criar perfis falsos em redes sócias me passando por essa pessoa, e não sei pq mais eu me sentia bem vivendo uma vida que não era minha, fiz vários amigos na internet com esse perfil, coisa que nunca conseguir fazer na minha vida “real”, as meninas me elogiavam muito, eu amava, até perceber que aquilo tava me machucando muito, eu estava vivendo uma vida que não era minha, depois disso apaguei o perfil, e minhas crises de baixa Alto estima voltaram e estão bem piores, as vezes penso até em me matar… peço a Deus todos os dias pra tirar isso de mim, mas só piora, não sei mais o que faço

    • Olá,
      Não sou psicóloga e sim jornalista. Esse texto é fruto de uma reflexão pessoal, é sobre o que eu penso. Não tenho como diagnosticar se você tem Síndrome de Comparação Social ou se está vivendo ps dilemas da adolescência. Então, o correto é você buscar um psicólogo e se possível, iniciar uma terapia. O que eu sei é que na adolescência é comum ser mais tímido ao vivo do que na internet e que o fato da internet permitir “anonimato” abre espaço para muita gente se iludir e idealizar uma forma de fugir da própria realidade. Não se auto diagnostique com um problema antes de ouvir um especialista e de buscar uma ajuda profissional. Psicologia é uma forma bacana de autoconhecimento e na idade em que você está, é importante ter um suporte emocional. A adolescência é uma fase de mudanças intensas e da construção da identidade. Muitas vezes, é só uma fase e se você tiver o suporte adequado, consegue sair desse ciclo que te causa sofrimento. Boa sorte!

  2. Lucas diz:

    Olha, sou feio,pobre e frustrado socialmente e profissionalmente. Tenho um relacionamento em que não amo a namorada mas que continuo pq nao vou achar coisa melhor. Tenho varias cicatrizes da vida e todos os meus amigos possuem um padrão de renda que nem sonho mais em alcançar. Sou o cara do cartao azulzinho do Banco do Brasil contra os Amex Platinum e Visas infinites….Depois de muito lutar para ser alguem, estudar prestar concurso e de repente se ver sem nada e sem rumo na vida prpximo dos 40 anos passei a invejar. O que mais posso fazer. Minha vida é tao chata e parada que desejar o que o outro tem é a unica coisa que me resta já aue minhas esperanças e fe na vida acabaram la pelos 32 anos. De la pra ca so me arrasto mesmo. Comheci alguém mais jovem por quem me apaixonei e cogitei largar tudo e dar um novo rumo para minha vida. Mas foi so coisa da minha cabeça. Como ganhar o coração de uma beleza que ten entre os pretendentes jovens muito mais bonitos, ricos e estaveis do que eu. O que eu posso oferecer a essa pessoa q foi tão especial? Apenas atenção e carinho, mas isso não foi suficiente. Então realmente eu invejo e onveno muito já que nao vejo muita solução para o meu caso. É triste. Ps: fiz terapia mas nao ajudou muito…

    • Oi Lucas,
      Não sou psicóloga e nem terapeuta, então, o que direi para responder ao seu comentário aqui no blog é baseado unicamente na minha experiência de vida. Tenho 41 anos agora, mas escrevi esse texto sobre a inveja em 2012, aos 37. Continuo pensando exatamente a mesma coisa. A inveja é um sentimento ruim e envenena a alma de quem se deixa levar por ela. Prefiro viver a minha vida com todas as limitações que ela tem, do que desejar a vida dos outros. Lógico que quem bem sabe das dificuldades da sua própria vida é você, mas se posso dar uma opinião, acredito que você precisa se amar mais, enxergar-se sem tanta amargura e sem auto punição, talvez isso te deixe menos frustrado. Eu não viveria um relacionamento por “não achar coisa melhor”, pois acredito que isso não me faria bem e nem faria bem à pessoa com quem eu estivesse. Frustração é algo que qualquer pessoa pode sentir, mesmo aquelas muito ricas não possuem tudo o que desejam. Tem coisas que dinheiro não compra e apesar dessa frase ser chavão, é a mais pura verdade. A gente precisa aprender a lidar com o fato de que a vida não é quase nunca da forma como queremos que ela seja, que tem coisas e situações que fogem ao nosso controle. Mas, ainda assim, acredito que quem faz a vida acontecer somos nós, é a postura que temos diante de cada frustração ou conquista, é a forma como lidamos com problemas. Sou do tipo que segue em frente, que se uma coisa não dá certo de uma maneira, tento de outra. E se nem assim funciona, desisto disso e parto para outra, mas sem me vitimizar. Para muita gente, eu sou o que se pode chamar de uma mulher fora dos padrões estéticos da moda, aqueles padrões vendidos na mídia e nas novelas, isso porque sou gorda, o que para muita gente é um problema, mas aprendi desde adolescente que o problema era delas e não meu. Sempre fui feliz com os meus quilos a mais e prefiro isso do que ficar me lamentando por não ter a cintura da top model. Nunca fiz terapia para nada, embora saiba que terapia ajuda em muitos casos. Mas terapia só funciona se a gente também está disposto a mudar nossa visão sobre o mundo e sobre nós mesmos. Nenhum terapeuta do mundo tem fórmula mágica. Aprendi desde muito cedo a gostar das coisas que tenho e não daquelas que eu gostaria de ter mas não posso porque meu salário não dá. É uma questão de postura diante da vida, de assumir e aceitar o fato de que tem muita gente que vive diferente de mim, com mais grana, mais sucesso, mais status, por exemplo. Não se trata de acomodar-se, mas apenas de apaziguar o espírito e comemorar cada pequena coisa que tenho, seja material ou não. Acho que quando a gente olha para as pequenas belezas da nossa vidinha cotidiana e sem graça, se surpreende. Espero que um dia você se ache demais e não de menos, como agora. Abraços e obrigada por compartilhar sua experiência.

  3. simplesmente amei e compartilhei bj!

  4. marly diz:

    partilhei no facebook perfeito o texto e o pensamento,nada nos impedi de crescer lutar e conseguir todo mundo é capaz não precisa desejar o do próximo.

  5. Monique Esteves diz:

    Adorei o seu texto!!!!
    Tudo haver com o momento que estou passando, pq eu ja tenho a certeza que tem gente com inveja de mim, é muito triste isso, ao invéz de se preocupar com a própria vida, quer ter a minha!
    Só Deus mesmo!
    Bjs e um ótimo final de semana!

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  8. O que dizer deste texto? Perfeito! Sem mais. Um dia escreverei assim.
    Beijos, linda.

  9. Marcus diz:

    Gostei muito do texto. É isso mesmo.

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