Bala no Alvo, Cidadania, Geral

Sobre falta de solidariedade

Vi uma cena nesta terça-feira que me deixou triste. No trajeto entre o ponto de ônibus e o trabalho, passo diariamente em frente ao prédio onde tem uma agência da Caixa Econômica, numa das ruas transversais à Av. Tancredo Neves. Para chegar ao banco, localizado logo na entrada do prédio, é preciso subir uma escada com cerca de dez degraus. Uma senhora aparentando seus 60 e poucos anos tropeçou em um dos degraus bem na hora em que eu estava passando. Ajudei a socorrê-la. Uma moça que saia da agência bancária no mesmo instante, também correu para ajudá-la. Juntas, levantamos a senhora. Ela não se machucou gravemente, foi ágil o suficiente para colocar as mãos espalmadas no chão, evitando bater o rosto em outro degrau. Levou um susto, apenas, e para acalmá-la, a moça que ajudou no socorro a levou até seu quiosque de lanches, no shopping em frente.

A cena que me entristeceu porém, não foi a queda da senhora, embora eu não quisesse que uma pessoa daquele idade – ou de qualquer idade – levasse um tombo na rua. Foi o riso de escárnio de uma das testemunhas da queda da senhora desconhecida que me chateou. Havia quatro homens na entrada da citada agência bancária. Dois seguranças, que fizeram cara de paisagem e não moveram um músculo para ajudar. E mais dois rapazes encostados em uma amurada que circunda o rol do edifício empresarial, talvez funcionários de um dos escritórios que ficam nos andares superiores ao do banco. Foi um deles que julgou estar assistindo uma videocassetada do Faustão e que, ao invés de estender a mão, preferiu a cômoda – e mesquinha – posição de rir da miséria alheia.

Já levei quedas na rua, em duas ocasiões, alguns anos atrás, e sei o quanto é humilhante ficar no chão, machucada e, ao invés de receber um apoio, ver o riso de escárnio e muitas vezes perverso dos transeuntes. “Quem mandou ser lerda”! Nas duas vezes, o que me jogou na lona (ou melhor, no asfalto) foi a pressa descuidada dos motoristas de ônibus de Salvador. Da primeira vez, ao descer de um coletivo na entrada do Imbuí, o motorista não esperou, arrastou o carro e eu caí. Ralei os joelhos e as mãos. Na segunda vez, na Estação de Transbordo Iguatemi, o ônibus parou muito afastado do terminal de desembarque e, quando a porta se abriu, caí no vazio entre a plataforma e a pista da via exclusiva. Os hematomas foram maiores e demoraram mais de sarar. Nas duas ocasiões, tive de me levantar sozinha. Sorte minha não ter 60 e poucos anos.

A falta de solidariedade me ofende profundamente. E é bom saber que, apesar da existência de pessoas insensíveis como esses quatro pedaços de pau que assistiram uma senhora cair na rua sem mover um dedo, ainda existe gente capaz de entregar alguns minutos do seu dia para socorrer um semelhante. A moça do quiosque no shopping é um exemplo de que talvez nem toda a humanidade tenha jeito, mas algumas almas ainda se salvam. Conheço outros amigos que se ressentem bastante de falta de gentileza, civilidade e educação que povoam o mundo. E esses amigos, com certeza, fazem a diferença (mesmo que pequena) em uma sociedade cada dia mais árdua e egoísta. Uma dessas amigas até comentou sobre isso no Facebook, por coincidência ontem, e parecia bem magoada na sua queixa sobre a má educação que é a grande epidemia contemporânea.

Não consigo entender a falta de solidariedade, embora a veja crescer e engordar cada vez mais. As pessoas estão sempre tão apressadas, atrasadas, voltadas para dentro de si mesmas que mal percebem os outros ao redor, que dirá parar e estender uma mão a quem levou um tombo. E há, infelizmente, gente perversa o suficiente para rir da desgraça alheia. Me pergunto que tipo de ser humano é capaz de rir de uma idosa (ou de qualquer pessoa) caindo na rua? Será que uma criatura dessas tem ou teve mãe, avó, irmãos, filhos? Que grau de embrutecimento, de insensibilidade, de frieza, faz um segurança virar o rosto para o outro lado, fingindo que não viu que ali na sua frente alguém caiu de uma escada?

Lamento profundamente por gente assim, tão vazia, oca e insensível. Lamento, mas tenho também raiva. Tive muita vontade de perguntar ao cara que riu, se ele acharia graça se fosse a mãe dele se estatelando no chão. Mas preferi me calar. Bater boca com uma criatura dessas não ajudaria a diminuir a dor que a senhora sentia nos joelhos, que bateram com força nos degraus da escada e embora não tenham sangrado, imagino que vão ficar roxos por um bom tempo. Discutir com o pedaço de pau tampouco me ajudaria a sentir melhor ou conscientizar o asno. Quem não tem sentimentos não se comove com palavras. Ainda corria o risco de ouvir desaforos impublicáveis. Além disso, brigar com um desconhecido debochado só aumentaria minha raiva. E raiva, embora sirva para jogar um pouco de adrenalina no sangue e nos tirar do torpor e da inércia, em excesso faz mal ao coração. Preservei meu coração e uso este espaço aqui para deixar meu desabafo. O asno não vai ler, lógico, mas faço minha catarse…

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3 thoughts on “Sobre falta de solidariedade”

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