Resenha: A sombra do vento e O Jogo do Anjo

Barcelona de romance, tragédia e fantasia

As imagens são de Barcelona na primeira metade do século XX

A narrativa veloz, com cortes precisos, rica em imagens e econômica em palavras, derivada da experiência como roteirista, faz do catalão Carlos Ruiz Zafon uma febre mundial com milhares de exemplares vendidos. Mas, para além do delírio provocado pelo estado febril, as duas obras do autor já lançadas no Brasil (A sombra do Vento e O jogo do anjoO príncipe da névoa por enquanto só é encontrado em versão e-book) comprovam que embora utilize recursos contemporâneos como a linguagem cinematográfica, o escritor sabe prender a atenção e deleitar seus leitores tanto quanto um bom clássico faria.

O cenário dos dois romances é a Barcelona da primeira metade do século XX, precisamente entre as ocorrências da primeira e segunda guerras mundiais, que para os espanhóis teve significado diferente daquele do resto do mundo. Enquanto Hitler assombrava todo o ocidente, na Espanha, a guerra civil e Franco legaram fantasmas que dormem na alma dos habitantes e nas paredes dos antigos casarões da cidade velha.

Comparando os dois romances, A sombra do Vento é mais lírico, com uma perda de inocência gradual, que conduz o leitor ao amadurecimento de Daniel Sempere, o protagonista dessa história; O jogo do Anjo é mais cáustico, corrosivo. O herói, David Martín, é mais falho, suscetível, traz a semente da revolta na alma e torna-se presa fácil para o mal. O jogo do anjo, embora não chegue ao extremo do maniqueísmo, demarca com mais precisão fronteiras para o certo e o errado. Enquanto A sombra do vento revela-se humanista e condescendente com a multiplicidade da condição humana.

Cronologicamente, a história de O jogo do Anjo se passa antes daquela de A sombra do vento e alguns personagens em comum passeiam pelas duas tramas. Unindo os dois, não importa em que ordem de leitura (por aqui A sombra do vento foi lançado antes), tem-se um rico panorama da Barcelona do entre-guerras, mas que transcende a questão política. A ditadura franquista e a guerra civil são o pano de fundo, mas o autor está mais interessado no humano.

As dificuldades do cotidiano em uma cidade sitiada e as tragédias pessoais, na visão de Zafon e da nova historiografia, dão uma dimensão muito mais real das profundas transformações sócio-político-econômicas do início do século XX, não à toa batizado por Eric Hobsbawn de “era dos extremos”.

Misturando metáforas, metonímia (os dois livros são declarações de amor incondicionais à literatura e, principalmente, ao ato de ler), com romance tradicional – pontuado de amores impossíveis e reviravoltas novelescas – e pitadinhas de realismo fantástico e tradição gótica (a velha Barcelona, convenhamos, é o cenário perfeito), Zafon guia o leitor por uma miríade de sensações que vai da empatia ao puro pavor, numa vertigem de embriaguez.

No entanto, não se trata de bebedeira pura e simples, com amnésia e ressaca moral residuais. Tanto A sombra do vento, quanto O jogo do anjo, passado o efeito hipnótico das palavras do autor, permanecem na memória em forma de trechos de diálogos, cenários e seus personagens carismáticos. Como não amar o velho zelador do cemitério dos livros esquecidos? Os dois romances são sinestésicos na essência e marcam tanto a alma quanto os sentidos.

Uma sinopse de cada obra:

A sombra do vento – O livro trata do amor incondicional, seja do bibliófilo pelos livros, do pai por seu único filho, de um homem por uma mulher. O cenário é a Barcelona do final da II Guerra, sitiada pela ditadura, assombrada pela polícia política. São duas histórias paralelas que num dado momento se cruzam e que contam a história de amor do escritor Julián Carax e sua Penélope, e a saga do jovem Daniel Sempere, o herói da história, filho e neto de livreiros. Daniel tenta desvendar os segredos em torno de um livro chamado A sombra do vento, escrito por Carax, que ele encontrou no mítico Cemitério dos Livros Esquecidos, uma espécie de depósito para obras raras e também esconderijo para livros que precisam ser salvos. Investigando sobre o desaparecido Carax e as tragédias que cercam sua bibliografia maldita (todos os romances desse autor foram queimados), Daniel acaba encontrando o sinistro Lain Colbert, um homem que usa o mesmo nome de um personagem de A sombra do vento. Ou será que o personagem saiu do livro para assombrar a “realidade”?

>>“o negócio dos livros é miséria e companhia” (trecho de A sombra do Vento)

O jogo do anjo – O livro é ambientado nas décadas de 20 e 30, antes da II Guerra e com a sombra da guerra civil adensando-se sobre Barcelona. Conta a história de David Martín, um jovem escritor de raro talento, mas que para sobreviver, vende barato sua arte, aceitando escrever ficção policial descartável. David, que foi abandonado pela mãe e viu o pai ser assassinado quando ainda era criança, sendo criado como uma espécie de mascote pelos funcionários de um jornal barcelonês onde ele, de faz tudo esfomeado se transforma  no repórter mais famoso, conhece o excêntrico e sombrio Andreas Corelli, editor que o contrata para escrever um romance de tal impacto que poderá trazer o verdadeiro apocalipse. Ao iniciar o romance e na medida em que vai escrevendo o fatídico livro, a escuridão se fecha sobre David e sobre aqueles que ama.

Fichas Técnicas:

A sombra do Vento

Autor: Carlos Ruiz Zafon

Tradutor: Marcia Ribas

Editora: Suma de Letras / 400 páginas / Preço: R$ 46,90 (site da livraria Cultura)

O Jogo do Anjo

Autor: Carlos Ruiz Zafon

Tradutor: Eliana Aguiar

Editora: Suma de Letras / 416 páginas / Preço: R$ 39,90 (site da livraria Cultura)

3 pensamentos sobre “Resenha: A sombra do vento e O Jogo do Anjo

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