“Meus heróis morreram de overdose”. Ou, apenas envelheceram e deixaram o campo para outros

Li no blog Mulheres do Mundo, que é hospedado no site da revista feminina Marie Claire, um post sobre o desconsolo dos fãs quando seus ídolos diminuem a importância das lutas ou das obras de suas juventudes; ou mesmo quando eles renegam o passado de glórias (leia o post aqui).  Fiquei pensando com os meus botões nervosos nessa coisa de ter ídolos. A música do amado Cazuza, Ideologia, me veio logo à memória quando terminei de ler a postagem, por isso coloquei um trecho do refrão como título do post.

Minha intenção ao meter a colher enxerida no assunto não é criticar o texto no site da Marie Claire. Opinião, cada um tem direito de ter a sua. A autora do post emitiu a dela e eu uso aqui esse pedaço de web que me cabe para postar a minha sobre o mesmo tema.

O assunto ídolos, militância, engajamento, tem chamado minha atenção ultimamente. Talvez pela natureza da profissão, espera-se de um jornalista sempre que ele seja adepto de alguma causa ou bandeira (costumo defender várias, inclusive, mas sem radicalismo, pelo amor de Deus). Talvez por conta do Facebook, rede onde sou bastante ativa…

O Face é marcado com um estigma de espaço para campanhas on line que inspiram e revelam a nova cidadania do século 21. Digo estigma porque de vez em quando a pressão da militância ultra engajada é tanta que a rede se torna sisuda, incapaz de absorver sem apontar o dedinho o tanto de leveza que há na vida. “Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás”.E olha que a frase é atribuída a um guerrilheiro.

Ontem, antes de ler a postagem do Mulheres do  Mundo, escrevi lá no meu perfil do Face, a seguinte frase: “Militância ingênua não me convence. Se vai defender uma causa até a morte, tenha os argumentos certos e necessários para convencer seus oponentes. Do contrário, é só demagogia”.

Ninguém curtiu esse status. Ou porque não repararam ou porque o nível de engajamento é tão intenso que não permite dissidências e tampouco pensamento dissonante, ou questionamento. A verdade é que o papel de advogado do diabo é árduo. Há ainda a hipótese mais provável, a de que meus amigos não ficam necessariamente esperando curtir tudo o que eu escrevo ou compartilho no Face. E nem eu ficaria satisfeita se eles perdessem o senso crítico.

O que inspirou minha frase foi que notei que algumas campanhas nas redes sociais são vazias, da internet para fora, parafraseando o dito popular “da boca para fora”. Outras campanhas, ao contrário, são realmente eficazes, levadas a sério, inspiradoras, conseguem extrapolar o ambiente virtual e promover mudanças significativas, mesmo quando pequenas. Nessas, aposto com toda a fé! Não sou contrária à militância e nem ao engajamento (cidadania não é só uma palavra no dicionário para mim). Mas, sou totalmente contra grupos radicais (de qualquer natureza), militantes cegos que perdem o senso crítico, intolerância e, principalmente, me irrita demais a incapacidade que boa parte das pessoas tem de aceitar que existem opiniões, ideias, modos de ser e de fazer diferentes do seu e do seu grupinho. Diversidade também não é só uma palavra nas páginas do Aurélio e definitivamente, devia fazer rima com cidadania.

E aqui eu dou o laço no argumento e volto a falar dos ídolos. Alguém já parou para se perguntar se a pessoa escolhida para ser seu ídolo (seja uma celebridade, parente ou vizinho) se sente satisfeita com o posto? Alguém já deixou de lamber o umbiguinho carente e parou para constatar o óbvio, que ninguém tem a obrigação de ser o ídolo, o salvador, a redenção dos pecados de ninguém?  Tá, existe uma coisa importantíssima chamada responsabilidade social, que as figuras públicas precisam estar atentas, afinal, o que uma figura pública diz ou faz tem impacto para centenas, milhares de pessoas. Pessoalmente, acredito que responsabilidade social, ética, respeito ao outro, tem de fazer parte da essência de cada ser humano, só assim para termos um mundo minimamente justo. Mas lembrem, nem por isso deixa de ser um fardo. Suprir as expectativas alheias o tempo inteiro é um fardo enorme. Agir reflexivamente o tempo inteiro é estressante, exige uma queima de energia visceral e uma autocensura que beira a paranoia, credo!

É importante a gente se trabalhar? É. É bacana buscar sempre mostrar seu melhor lado? É, desde que seja algo sincero e não uma máscara que esconda uma tenebrosa alma abissal e mesquinha. Se mais gente se esforçasse para mostrar, ou desenvolver, seu lado mais cordial, não viveríamos tempos tão bárbaros. Vale a pena militar em prol das coisas que acreditamos que vão fazer do mundo um lugar melhor para nossos filhos e netos? Vale sim! Mas somos humanos, a imperfeição faz parte do pacote de ser uma criatura humana e, embora não deva ser usada levianamente como desculpa para torpeza e mau-caratismo, a imperfeição (e consequentemente a busca incessante pela perfeição) explica muitas das atitudes que tomamos na vida, a depender da circunstância. Ídolos comem, dormem, vão ao banheiro (oh santo chavão) e também tem o mesmo direito que você, ou eu, de se equivocar, voltar atrás, desacreditar um credo antigo, rever conceitos e preconceitos, tentar melhorar, avançar – ou regredir – na escala da evolução.

Não gosto de fãs, porque costumam fazer exigências descabidas que desumanizam seus ídolos. E nem gosto de ídolos, justamente porque são desumanizados. Prefiro ter fontes de inspiração. Gosto de ter musos (ou musas). Um livro pode me inspirar, mesmo que nem sempre eu concorde com tudo o que autor diz ou faz (ou fez na vida), mas aquele livro pode ter sido uma fonte de inspiração em um momento importante, pode ter me ensinado algo inesquecível. Ou uma música, ou uma frase, ou um amigo, ou um desconhecido na rua, ou um artista, um desenho, um sorriso, um quadro, um programa de tv… Mas, o fato de eu ter me inspirado, daquilo ter servido de impulso, ou de freio, num dado momento, não significa que de agora em diante, vou virar patrulheira ideológica e ficar monitorando o autor, impedindo o coitado (a) de viver a própria vida porque ele (ou ela) tem a obrigação instituída pelo fato de eu ser uma fã, de me inspirar o tempo inteiro e de andar na linha muito rígida que tracei. Arff! Isso aí é que é a tão temida censura. É coisa de psicopata, Deus nos livre! Em algum momento preciso caminhar com minhas pernas, quem sabe até, ensinar uma ou duas coisas úteis para os outros, abrir ciclos novos, arejar, mudar de direção até. Logo, largar da barra da saia do ídolo é necessário, faz parte do crescimento.

Chico coitado, causou a indignação da mãe da blogueira do Mulheres do Mundo porque numa entrevista mostrou-se blasé, ou desencantado, ou de saco cheio, de Roda Viva. Uau, Roda Viva, que inspirou milhares de pessoas, que foi trilha sonora dos anos de chumbo da ditadura! Mas como pode, mas é Chico?! Tá, mas e aí, Chico não tem direito de querer esquecer o sofrimento da época, que inspirou a canção? O coitado ficará condenado a beber do cálice amargo até o fim dos tempos? Ele não pode ter cansado da briga? Não tem direito de envelhecer, de curtir a aposentadoria (tomara que não se aposente tão cedo), de gastar a grana dos direitos autorais em paz? De compor temas mais amenos, de falar só de amor? Ai Chico, fale de amor para mim e para o mundo, pois andamos carentes demais disso! Fale de bom senso também, que faz falta.

Daí alguém citou a garota que foi fotografada em Paris, carregando a bandeira dos estudantes do emblemático Maio de 68. E aconteceu que a moça sofreu vários revezes na vida por conta daquela foto, que ela nem pediu para tirarem. E aí, não pode se revoltar? Não pode lamentar o fato da carreira dela ter naufragado? Dela ter sido deserdada? Que hipocrisia, heim! Mas não, para os fãs é preciso que o ídolo seja também um mártir. “É para você sofrer, miserável, porque eu te peguei para meu Cristo particular, viu. Mas sofra com um sorriso nos lábios, porque assim você me motiva a sair da minha inércia”.

Que doença é essa, gente?!

Sinceramente, vamos dar uma chacoalhada aí povo, levanta a bunda da cadeira e vai abrir seu caminho no mundo, criatura! Para com isso de querer que os outros façam o trabalho duro por você. Porque botar a culpa nos outros pelas próprias frustrações é fácil. Difícil meus filhos, é conviver com o ônus de ser um humano imerso em contradições.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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