Tá chovendo sacola!

Amanheci o dia com uma intimação via Facebook para ler a  mais nova crônica de uma das minhas filhas jornalísticas e que, de vez em sempre, vive seus apuros nos ônibus de Salvador. Não esperava fechar o dia tendo o que contar sobre o mesmo tema, mas Naná estava quieto demais nos últimos tempos, logo vi que aí tinha coisa…

Final de tarde de quarta-feira, faltavam 15 minutos para o começo do meu turno de trabalho e o prédio do jornal já era visível da janela de Naná….

Um parêntese – Esqueci de comentar das outras vezes, que tenho a sorte de viajar sempre sentadinha. A Vila Laura (ou Avalon para os iniciados) não é um bairro populoso e também não é o que se chama de “popular” (tem de saber dispersar as brumas, para encontrá-lo, lembram?), seus ônibus trafegam relativamente vazios (em comparação às latas de sardinha de outros bairros da cidade). Nos primórdios, a Vila era aquele lugarzinho aprazível, com chácaras, casas com quintal, depois prédios pequenos, de três andares, playground e pracinha para os guris, uma fofura! Com a especulação imobiliária, a região vai se sofisticando na mesma proporção em que sobem os andares das novas torres de 17, 2o pavimentos.  A fauna da Vila é diversificada, tem a chamada classe trabalhadora, tem “barão”, e tem também uns remediados cara de pau – eu no pacote – que moram por lá. Boa parte deles, coleguinhas jornalistas. Um dos motivos de não sobejar (roubei essa palavra de Saramago) ônibus no bairro é justamente o mito de que é morada de “rico”. Corre a lenda na vizinhança de que ao tentar conseguir mais linhas, o representante da associação de moradores local teria ouvido da antiga Secretaria de Transportes que na Vila Laura ninguém precisa de ônibus, porque todo mundo que mora no bairro tem carro. Só para constar, moro lá há 14 anos e não tenho carro. Como vocês bem sabem, viajo de Naná.

De volta à aventura do dia – … pois então, como ia dizendo (escrevendo), o prédio do jornal já era visível, em todo o seu cinza, da janela de Naná. Eu, sentadinha, desceria no segundo ponto após o viaduto da Av. Tancredo Neves. Uma senhora que estava acomodada no banco de trás, desacomodou-se para pedir o seu ponto, um antes do meu, logo na descida do viaduto. Puxou a cordinha que dispara o alerta de parada. Sinal sonoro e letreiro luminoso para o motorista devidamente acionados, chegou para perto do meu banco. Segurava uma sacola e, com a mesma mão, segurava também a barra de ferro que passa rente ao teto do ônibus, aquela vertical que é usada geralmente por quem viaja de pé. A outra mão, sem sacola, segurava o encosto do banco da frente, para dar mais firmeza.

Firmeza foi justamente o que faltou à passageira. Deu xabu na Lei da Inércia. Aprendi ainda na escola, nas aulas de Física, que quando viajamos em um veículo em movimento, quando o veículo freia bruscamente, o corpo ainda repete o movimento anterior. Era péssima em Física, sempre ia para a última unidade precisando de ponto para passar, mas de tia Inércia nunca esqueci. Ou seja, é aquela chacoalhada básica, que agita o sangue e os neurônios (quem anda de buzu sabe do que estou falando). A técnica para escapar de virar uma coqueteleira ambulante e ficar sacudindo para frente e para trás no ônibus a cada freada, é plantar bem a base. Ou seja, além de segurar-se direitinho nos ferros de apoio, é preciso firmar o pé na prancha.

A passageira em questão não firmou. O motorista freou na subida do viaduto, bruscamente como na maioria das vezes freiam os condutores de Salvador (seja ou não caso de emergência) e a senhora projetou o tronco para a frente. No movimento, desequilibrou-se e largou o ferro de apoio. A sacola? Choveu sobre a minha cabeça. Só ouvi um POC! seco e senti uma coisa dura batendo no alto da cachola. Era uma sacola de supermercado e acredito que fui bombardeada por uma lata de leite em pó, ou achocolatado. Depois, a dor, e o susto. Num segundo (minha imaginação é uma coisa) pensei no sangue descendo testa abaixo, misturando-se ao batom. A senhora, mais assustada do que eu, recolheu a sacola, que da cabeça havia escorregado para o meu colo, e me pediu milhões de desculpas, mas como tinha de descer no seu ponto, não parou para examinar a vítima. “Deus guarde os inocentes”, murmurou antes de descer e virar a esquina ao lado do ponto. Amém!

Felizmente, não houve sangue e batom (essa mistura continuará restrita aos romances policiais noir), mas o galo, é certo, vai cantar essa madrugada…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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3 respostas a Tá chovendo sacola!

  1. Nayara diz:

    huahuahuahuahuahuah ADOREI! N a sua pancada, claro, mas o “causo”….chovendo sacolas…só se vê na Bahia!! Ri mais ainda pq pensei exatamente nessa técnica de plantar a base pois tive que ir em pé, em um ônibus mais ou menos cheio e com um motorista com síndrome de Senna! Acostumada a ir sempre sentada, fiquei cambaleante por uns min, mas aí lembrei: é preciso plantar a base!

    Sempre que digo as crônicas de buzu merecem ser escritas, publicadas e divulgadas!

    Bj!

  2. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Gente, adorei esse negócio de plantar a base! E tem outra dica: as pernas levemente afastadas, pra facilitar que a criatura dobre o joelho da frente e deixe bem firme o de trás. Aí, pra cair, só se o buzu cair junto!

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