“porque o espírito não vai a lado nenhum sem as pernas”

“Se tivesse aqui um mapa da cidade já poderia assinalar os cinco primeiros pontos de passagem averiguados, dois na rua onde a menina do retrato nasceu, outro no colégio, agora estes, o princípio de um desenho como o de todas as vidas, feito de linhas quebradas, de cruzamentos, de intersecções, mas nunca de bifurcações, porque o espírito não vai a lado nenhum sem as pernas do corpo, e o corpo não seria capaz de mover-se se lhe faltassem as asas do espírito. Tomou nota das moradas, depois apontou o que teria de comprar, um mapa grande da cidade, um cartão grosso do mesmo tamanho para fixá-lo, uma caixa de alfinetes de cabeça colorida, vermelhos para serem percebidos à distância. que as vidas são como os quadros, precisaremos sempre de olhá-las quatro passos atrás, mesmo se um dia chegamos a tocár-lhes a pele,  a sentir-lhes o cheiro, a provar-lhes o gosto. O Sr. José estava tranquilo, não o perturbava o fato de ter ficado a saber onde moravam os pais e o antigo marido da mulher desconhecida, este, curiosamente, bastante perto da Conservatória Geral, claro que mais tarde ou mais cedo, iria bater-lhes à porta, mas só quando sentisse que tinha chegado o momento, só quando o momento ordenasse, Agora.”

(José Saramago, Todos os Nomes, pp. 73 e 74, 2003. Ed. Planeta DeAgostini, Coleção Grandes Escritores da Atualidade, São Paulo – SP)

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