É o fim do amor romântico. Será?!

Leio e ouço muita gente apregoando o fim do amor romântico e das relações monogâmicas em livros, revistas, na internet… Vejo muita gente vivendo na pele a teoria do “ninguém é de ninguém” (e alguns saindo bem feridos da brincadeira). Percebo ainda, cada dia, mais e mais gente defendendo uma forma de invidualismo que não tem necessariamente relação com individualidade e identidade própria. E nunca percebi o mundo tão solitário, tão doente de falta de carinho, as pessoas tão desesperadas por encontrar uma alma gêmea. Fiquei pensando nessas questões ao ler a entrevista da psicanalista e escritora Regina Navarro Lins no site da revista Marie Claire (para ler na íntegra, acesse aqui).

Quando uso um “ismo” no parágrafo acima é com o intuito de marcar uma forma de doença. Acredito que vivemos a doença do “eu”. Individualismo, para mim, é a forma egoísta de viver a individualidade. É a afirmação da própria identidade sem respeito à identidade do outro. Estamos doentes de egoísmo e a entrevista da especialista me deu essa certeza. O mundo caminha para uma frieza desoladora. Gente virou artigo descartável. “Ninguém é de ninguém” não é, ao meu ver, sinônimo de liberdade, mas apenas sintoma de que a doença do individualismo, do egoísmo, transforma alguns em caçadores e outros, por oposição, em caça. Lavou, tá novo! Usou, joga fora! E seguimos devorando uns aos outros. “Mas é da natureza selvagem do homem”, dirão. E somos apenas natureza selvagem? Sempre me debato com essa questão.

Regina Lins diz que o amor romântico já era, que fidelidade já era, que ter um parceiro (a) único (a) é cafona, e cita as teorias sobre o patriarcalismo (aliás, sem dar o crédito aos estudiosos que antes dela fundaram as bases dessa e de outras teorias). A sensação que tenho é de que a especialista, tão estudada no assunto, não sabe o que é o amor, na prática. Ou o confunde apenas com o seu aspecto físico, esquecendo que além do corpo, existe uma sensibilidade, um espírito, uma ânima, a alma dos envolvidos na questão, os sentimentos. A fidelidade ou a infidelidade tem muitas nuances, muitas variáveis, muitos motivos, não acredito que possa ser reduzida a uma única palavra (cafonice pra uma e promiscuidade pra outra). No entanto, ou a edição da entrevista foi maldosa ou a pesquisadora realmente radicaliza e muito na sua defesa do “ninguém é de ninguém”.

A entrevista me causou mal-estar, mas não por eu ser conservadora. Defendo a individualidade dentro de uma relação. Sei que um mais um somam dois, mas sei também que é preciso ter a consciência de si, sempre. Amar não significa anular-se, ceder a ponto da submissão. O toma lá dá cá do jogo do amor exige consciência, diplomacia, boa vontade para negociar e honestidade de dizer e para ouvir. Sou contrária a anulações, não gosto de quem subjuga o outro, quem tenta transformar uma parceria em jogo de dominação.

Meu mal-estar também não é por questões de corpo, do transar ou não transar com mais de uma pessoa. Apontar o dedinho, rotular de ‘é vadia’ ou ‘é santinha’ não é do meu feitio. Meu incômodo é pela falta de sentido numa vida vivida em puro instinto. Acredito no instinto, sou bem passional, mas acredito também que algo além dele nos move. Me incomoda é a falta de amor-próprio que muitas vezes resulta de um uso equivocado da liberdade de ser de ninguém. A sensação que tenho é que deixa-se inclusive de ser de si mesmo. Meu mal-estar vem da compreensão errada da expressão “ninguém é de ninguém”.

De fato, ninguém é propriedade de ninguém. Mas não ser propriedade dos outros significa também ser dono de si; significa ter consciência dos próprios atos, das consequências de cada um desses atos, estar pronto para administrar essas consequências, inclusive; e não jogar-se num vórtice, expor-se na bancada da delicatessen. Nunca permiti que me tratassem como delivery e creio que nunca vivi a experiência de ser o lanchinho reserva de quem quer que fosse. Tampouco tratei as pessoas com quem me relacionei como fast food para emergências.

Podem existir dez nomes na agenda de uma pessoa, todos para serem acionados e estarem devidamente excitados numa hora de solidão ou necessidade (e o corpo tem suas vontades também); mas o vazio do depois sempre virá se a motivação por não ser de ninguém for apenas pelo não ser,  apenas porque é descolado, é moderno. Esse rótulo de super mulher bem resolvida, mas que na real não tá resolvida coisa nenhuma, dona Regina, eu dispenso!

Sempre tive como premissa básica uma coisa simples: se o que eu faço me faz seguir em frente sem dor, ou com o mínimo de machucados possíveis; se o que faço me faz seguir em frente sem causar dor no outro, ao menos sem aquela dor de “ter sido usado (a)”, sem a intenção deliberada de usar e jogar fora; e se o que faço me faz não ter vergonha do que vejo no espelho todos os dias de manhã, estou no caminho certo. Do contrário, é só ilusão, é mais uma dose de ópio, uma necessidade puramente do ego que, uma vez satisfeita, deixa de fazer sentido, até que se encontre nova presa, nova droga, e o ciclo recomece.

Regina Lins, na sua entrevista, afirma que no futuro todo mundo será feliz vivendo relações abertas. Se é assim uma sentença tão irrevogável, por que há tanta gente em busca de um parceiro (a) único (a) com quem dividir a vida, sonhos, frustrações, projetos? Acredito que existimos para nós mesmos (individualidade), mas que também existimos por causa e para o outro. Acredito na máxima que diz que é o outro que nos dá significado.

Concordo que é possível amar uma pessoa, estar com ela, e ao mesmo tempo sentir atração ou desejo por outra. Mais uma vez, as variáveis do desejo são incontáveis. Concordo que seja possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo (mesmo que nem todos esses amores se realizem ao mesmo tempo, mesmo que alguns nunca se realizem). Mas, faço a ressalva de que  se ama pessoas diferentes de maneiras e com intensidades diferentes. Não deixo de imaginar que, quando a gente vai em busca de realizar o desejo por uma terceira pessoa quando se vive uma relação a dois, é porque naquela relação já nos falta algo. Pode sobrar um monte de coisas boas num casamento, o parceiro (a) pode ser a pessoa mais bacana do mundo, mas algo estará com certeza faltando quando um dos dois começa a se envolver com outras pessoas sistematicamente, quase que como uma combinação, pra quebrar a rotina. Se existe uma rotina para quebrar é porque aquela união deixou de preencher, de completar, um vazio se abriu em algum lugar. Acredito muito que quando a falta é menor que aquilo que temos, não corremos o risco de jogar tudo para cima. Chuta-se pouco o pau da barraca, não por medo, mas simplesmente porque não vale a pena perder uma vida por um instantinho de nada. Quem diz que vale, é porque não tem vida, vive de instantes e não pode parar, senão cai no vácuo. O ser humano anseia as faltas e não o que já tem de sobra. E não fui eu quem inventou teoria tão bonita, foi Jung.

Também nessa entrevista, que é bem longa, a psicanalista, que se diz feminista, defende posturas que a meu ver apenas reforçam estereótipos negativos sobre as mulheres. Estereótipos que contribuem para que ainda hoje, no século XXI, sejamos agredidas, desrespeitadas e incompreendidas. Nenhuma mulher quer ser a rosa frágil entronizada no altar, mas tampouco quer ser tratada da mesma forma que se trata os companheiros do baba de domingo. Regina Lins se diz contrária ao cavalheirismo, mas o que ela chama de cavalheirismo, na verdade, é a gentileza. E é preciso diferenciar o cavalheirismo super protetor patriarcal, que anula a mulher e subestima sua inteligência e capacidade; daquele ‘cavalheirismo’ (e ‘damismo’ também, porque gentileza não tem sexo) que nasce da delicadeza que praticamos (ou deveríamos praticar) primeiro como seres humanos, de uns com os outros, e depois com aqueles que amamos. Ser gentil com quem se ama, querer o conforto da pessoa, querer a felicidade dela, honestamente, não é demodê. E quem pensa que é, só está tentando criar uma teoria que defenda o egoísmo.

Gestos de gentileza me comovem profundamente. Nunca me senti diminuída por um homem puxar a cadeira para mim e tampouco me senti explorada se quis cozinhar um jantar especial para ele, ou para alguns amigos. É uma troca. Um dia eu lavo a louça e você enxuga. Eu levo as crianças na escola, você busca. Negociação, parceria, lembram? O limite para mim é ter certeza de que a gentileza que o parceiro faz para mim, ele faria, por exemplo, para um amigo. O limite é ter certeza de que ele é gentil como pessoa e com outras pessoas, independente do gênero delas.

Regina Lins afirma categórica o fim do amor romântico. Mas eu, que não sou psicanalista, não sou estudada no assunto, digo que o amor romântico deveria era ser ressuscitado. Como bem diz Vinícius, “é impossível ser feliz sozinho”. Mas como respondi a um amigo certa vez, num diálogo desses de Facebook, viver sozinho não é impossível, impossível é viver sem companhia. E por companhia, entenda-se alguém capaz de nos compreender o mínimo que seja, de estar conosco nos dias bons e nos ruins.

Ser de ninguém é que é impossível, porque de mim mesma, em corpo e espírito, sempre serei. E só quando aprendo a ser de mim com dignidade é que tenho capacidade de ser do outro e ter o outro, numa troca não só de fluídos, mas de afeto.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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2 respostas a É o fim do amor romântico. Será?!

  1. Obrigada, Valéria. Abs!

  2. Valéria diz:

    Gostei, concordo que o amor romântico deve ser ressuscitado e que deve ser dado um basta à individualidade entendida como egoísmo.

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