O Golpe dos R$ 10 ou A Crônica de um Cobrador Esquecidinho

Quem inventou o ditado de que um raio não cai no mesmo lugar três vezes seguida não conhecia o cobrador do horário das 16h45 de Naná (Narandiba-Hospital Geral), velho conhecido de vocês, coletivo que diariamente eu tomo na Vila Laura para ir trabalhar na Av. Tancredo Neves. É, mais uma das minhas crônicas, experiências extra-sensoriais, nos buzus de Salvador. Se acabou a paciência com o tema, pule o post. Mas aviso que perderá a chance de aprender a se defender de um golpe useiro e vezeiro de alguns cobradores  da soterópolis (não serei injusta com a categoria, há cobradores e cobradores).

Devo ter cara de rica, embora me considere uma pessoa bem genérica. Mas só uma cara de #ricah do iate explica ser uma quase vítima, três vezes seguidas (ó o raio), do Golpe dos R$ 10. Rica que vai trabalhar de buzu? Chova ou faça sol?! É minha gente, Jarbas está em férias (eternas). Ou é isso, ou o cobrador do horário das 16h45 de Naná sofre de perda de memória recente (aquela doença da peixinha Dori, de Procurando Nemo). Como sou uma boa pessoa, uma alma angelical, como diz mamãe, acredito (piamente) na amnésia do cobrador. Vocês, depois que eu contar a minha triste história, se virem aí com a própria consciência. Mas não garanto imparcialidade na narrativa. Mexeu no meu bolso, a coisa muda de figura, radicalmente.

Três vezes seguidas, em intervalos de uma, duas semanas no máximo, tempo suficiente para botar em dúvida a teoria da mera coincidência, saquei da carteira R$ 10 pra pagar a passagem, que em Salvador, atualmente, custa R$ 2,50. Não precisa ser um gênio da matemática formado no M.I.T (Massachusetts Institute of Technology) para saber que, 10 – 2,50 = 7,50. Três vezes seguidas, o tio cobrador me diz: “a senhora aguarde um pouco o troco, porque estou sem dinheiro”. Eu, – alma angelical, lembram? – respondo pro moço, tudo bem, eu aguardo. E ele faz a clássica pergunta: “a senhora desce onde?” E eu, prontamente, “no ponto do Sumaré”. Beleza, sento em um banco por ali pelas imediações da cadeira do cobrador, imagina esquecer R$ 7,50 na mão do tio!

Dois pontos antes de descer, nada do cobrador lembrar do meu troco, mas eu, que não achei no lixo e dou um duro da zorra pra conseguir meus reaizinhos, levanto e faço a cobrança: “Moço, vou descer no próximo, já tem troco?” Três vezes seguidas, o amnésico me olha como se visse uma aparição do além e pergunta: “Fiquei devendo troco pra senhora, foi?” E eu, candidamente, dou aquele sorrisinho complacente (de tsc tsc) e balanço a cabeça, afirmativamente. “Te devo quanto?” “7,50”, novo sorrisinho.

É de se pensar que o cobrador está (em bom baianês) “procurando frete”. Mas não é isso. É golpe…ou amnésia, tadinho! Do contrário, nada justificaria que na viagem de ontem (segunda-feira, 5 de dezembro de 2011), ele tivesse tentado aplicar o mesmo golpe em quatro passageiros (eu e outros três desavisados que também estavam com notas inteiras de R$ 10 e R$ 20 para pagar a passagem).

A primeira quase vítima entrou no ônibus no mesmo ponto que eu e entregou a ele uma nota de R$ 20, na sequência, entreguei uma de R$ 10. Vamo lá pessoal do M.I.T, calculem aí que o moço devia 17,50 pra passageira e 7,50 pra mim.Em outra parada, subiu mais uma pessoa, que também deu dinheiro inteiro e, mais uma quarta subiu na parada seguinte, já na Rótula do Abacaxi.

Desconfio que aquele cobrador ontem desejou minha morte. A passageira dos R$ 20,00 desceria na Estação Iguatemi. Um ponto antes, na passarela do Detran, ela se levantou e foi chegando para a frente do veículo, estava pronta para tocar a sineta quando eu, do meu lugar ali nas imediações do banco do cobrador, gritei: “moça, a senhora não pegou o troco!”. Sentindo o doce sabor de frustrar o brinquedo (ou o golpe) alheio, virei-me para o cobrador e emendei: “Você não vai dar os R$ 17,50 da senhora? Aproveita também e me dá o meu troco, que eu desço logo no ponto seguinte ao dela, o meu total é R$ 7,50”.

Ódio. Foi ódio que eu vi naqueles olhos. O cobrador, com certeza, deve ter me xingado (mentalmente, claro!) de todos os nomes “bonitos” que ele sabe. Mas eu, aí sim, incorporada na #ricah do iate e ainda metida a besta, empinei meu narizinho, peguei meu troco e desci no ponto de todo dia, para mais uma jornada de trabalho duro minha gente, e ser editora é comer o pão que a reportagem amassa, portanto, cada real vale muito.

Não sei dizer se os outros dois passageiros conseguiram seus trocos. Só sei que hoje tem Naná de novo, às 16h45. Mas já separei aqui vinte e cinco moedinhas de R$ 0,10 para o meu cobrador preferido!

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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6 respostas a O Golpe dos R$ 10 ou A Crônica de um Cobrador Esquecidinho

  1. Pois eu deixava umas moedinhas de cinco centavos, pra dar muuuito trabalho pro esquecidinho… E deixava cair algumas por todo lado!!!
    Andréia, vc é ótima!!!
    Bj
    Lele

  2. Nayara diz:

    Simmmmm, o golpe da amnésia do troco! Sei bem o que é isso pq certa vez só lembrei depois que desci e vi o ônibus indo embora…..aff…que raiva! Hoje prefiro usar aquele cartão e não ter que aguentar essas coisas..passo meu cartãozinho e sigo fresca (not! Quem segue fresca em Salvador, com esse calor do Sahara?) e bela procurando um lugar pra sentar.

    Bj!

    * Adoro suas histórias do buzu, super me identifico. Eu até postava lá no blog, mas depois fui esquecendo.

  3. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk!! Vinte e cinco moedinhas de R$ 0,10, adooooooooooooroo!!!

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