Geral, Mulher Sem Retoque, Pequenas Histórias

Mulher Sem Retoque: “amores eletrônicos”

Maria sonhou novamente com ele. No sonho, os dois se encontravam por acaso. Conversavam frivolidades. E ele tomava-lhe a mão, levava aos lábios. Beijava. Antes da despedida, uma piscadela que parecia promessa de encontros futuros…

Ela acordou na mesma cama vazia de todo dia, quentinha do próprio corpo, com o mesmo amassado apenas de um lado do colchão. No banho, lembrou de Boy George e de Amores Eletrônicos. Cantarolou os versos do tema do filme (“you don´t have to touch to know, love is everywhere that you go“…) Os dois viviam uma história parecida.

O filme era mais ou menos assim: um homem se apaixona pela vizinha, mas não tem coragem de se aproximar. Usa um programa de supercomputador para compor uma música que fale do seu sentimento. A vizinha, tocada pela música, apaixona-se por esse admirador secreto. Desencontros aqui e ali, finalmente os dois tem seu happy end.

Com Maria não existe anonimato. Se conhecem há tempo suficiente para não permitir mal-entendidos. Mas o amor parece acontecer só na internet e de uma forma tão sutil que ninguém, a não ser os dois, percebe que cada uma daquelas músicas postadas na comunidade virtual é um recado de um para o outro.

Maria suspira enquanto se veste para mais um dia de expectativa. Que música ele irá escolher hoje? Pensa que a vida seria mais fácil se fosse como nos livros e filmes. E espera que depois dos desencontros aqui e ali típicos das comédias românticas, os dois tenham também seu happy end. Começa a torturar-se. Sabe que os dois tem histórias parecidas. Viveram amores fracassados no passado. As idades tem pouca diferença, o gosto musical quase idêntico, uma predileção por dramas tocantes no cinema, leem os mesmos autores…

De pensamento em pensamento, relembra uns versos de Lulu Santos:

“Nós somos feitos um pro outro
Pode crer
Por isso é que eu estou aqui
E não há lógica que faça desandar
O que o acaso decidir”

Revolta-se. A verdade é que tudo isso é muito bonito, mas o acaso não decide nada! A vontade de Maria é gritar. Sintoma claro de frustração. Talvez, escreva uma carta à moda antiga, missiva cheia de desaforos e mágoas.

Se soubesse compor, usaria um superprograma de computador para criar uma música…

“Beije a minha mão também quando estiver acordado”, diria a letra…

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