Bala no Alvo, Cotidiano, Crônicas, Geral

É volante ou joystick?

O nome é Naná para os íntimos. Os íntimos são os coitados que moram na Vila Laura e dependem da linha Narandiba-Hospital Geral para chegar ao trabalho. Como sou unha e carne, batizei de Naná. É o único ônibus, dos raros que  transitam pelo bairro, que serve a quem precisa chegar à região do Iguatemi e adjacências, incluindo aí a Av. Tancredo Neves, onde trabalho. Tem um outro, linha Luis Anselmo-Pituba, mas esse faz uma viagem longa de uma hora e meia, nos dias bons. Literalmente, “Lupi” dá a volta na cidade toda. Não vale a pena viajar de Lupi, a menos que seja um dia sem pressa, sem horário e sem compromisso, em que o usuário quer aproveitar o balancinho do veículo para cochilar ou pensar na vida. A Vila Laura (macro-região de Brotas), como já expliquei, é um bairro central. Faz ligação com a Rótula do Abacaxi, que por sua vez está distante cinco minutinhos dessa mesma região do Iguatemi (o centro “novo” – o velho é o bairro do Comércio –  financeiro, de compras e nervoso de Salvador. Cada dia mais nervoso, diga-se de passagem). Também já disse por aqui que Vila Laura é Avalon, só existe para os que podem vê-la. Felizmente, sou uma das felizardas, senão corria o risco de sair para trabalhar e não conseguir encontrar minha casa no retorno. Voltando a falar de Naná, ele é um ingrato. Sim, Naná é menino (igual ao Vasconcelos, que espero seja menos ingrato, ao menos é músico divino, ou divino músico). Esse meu Naná é menino malvado, daqueles que faz a amada esperar horas por ele, ficar p. da vida, xingá-lo de todos os nomes feios não dicionarizados, alardear aos quatro ventos que nunca mais o espera; mas, basta ele apontar na esquina, e o sorrisão se abre de orelha a orelha. Naná, sabendo-se único, massacra sem pena. Na tabelinha de horários da prefeitura tá lá determinado que tem de haver um Naná de 30 em 30 minutos. Não caia nesse truque. Nos dias bons, o tempo de espera beira os 45 minutos. Nos ruins, multiplique essa conta por três e some mais dois minutinhos extras (o tempo dele virar a citada esquina). Vira e mexe, os motoristas do Naná do horário, atrasados por conta do trânsito engarrafado de Salvador – dão o bolo (zignow em baianês) e ao invés de entrar na Vila Laura, decidem se mandar para o Iguatemi direto do Matatu (o bairro anterior). Quando não “queimam” um bairro – se você já sofreu com motoristas que “queimam pontos”, sorry, periferia, os meus queimam o bairro logo todo de vez –, decidem que vão mudar de carreira e já começam a treinar para o novo ofício ao volante. As duas (novas carreiras) preferidas: piloto de Fórmula 1 e “jogador de videogame humano profissional”. Há ainda a modalidade que combina as duas atividades em um único motorista. O de hoje era desses. O volante, nas mãos desse condutor, transmutou-se em joystick. Segure-se quem puder. Nos seguramos. Eu e os demais passageiros. “Costurar no trânsito?” A expressão, graças a esse motorista, ganhou ares de alto estilismo. O homem seria um Yves Saint-Laurent, se o papa da moda jogasse videogame com a vida alheia. Juro que as manobras eram dignas de Matrix, os três filmes da série. Ele desviava das caçambas cheias de material das obras na Rótula do Abacaxi (A Via Expressa em construção) com a habilidade de um dançarino de salão. Nem Carlinhos de Jesus rodopia melhor. Meu filho, jogando no PC, os dedos quase invisíveis pulando em nanossegundos de uma tecla para a outra (coitado do meu teclado), não é tão ágil. O Yves da Vila não atropelou ninguém, graças aos anjos da guarda dos pedestres, todos fazendo hora extra nesta véspera de feriado. Confesso que fiquei procurando aquele placarzinho que pisca no alto da tela e mostra os pontos ganhos, os bônus e as vidas do jogador, rezando para o game over se resumir ao Naná frear sem maiores danos no ponto do Shopping Sumaré. E em todos os pontos seguintes, claro…

E para finalizar a crônica de uma passageira sobrevivente, só me resta fazer um agradecimento formal e oficial ao anjo: Thanks, Ierathel!

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3 thoughts on “É volante ou joystick?”

    1. Obrigada, Clarissa! É que Naná demora quase uma hora para passar, mas em cinco minutos me deixa no jornal, daí que vivo aquela típica relação de amor e ódio com ele. Beijos

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