Baú de Histórias, Crônicas, Geral

Desliga essa p…orcaria!

Fim de um dia cheio de trabalho. Hora do rush. Dona E.C. entra no buzú, já lotado, que irá levá-la para casa, para o merecido descanso depois de horas de labuta. Dois pontos adiante, entra um cidadão, que se aloja no fundão do veículo, com uma cara de poucos amigos. Um minuto depois, o cidadão liga o rádio (ou seria o celular?) em um pagode altíssimo. A letra compara as mulheres às latas e dona E.C não gosta nem um pouco da comparação. Ofendida e irritada com a altura da música, pergunta para a colega do lado, mas em alto e bom som: “Sabe de onde está vindo essa música altíssima e baixo-astral?” A colega não sabe, ou finge que não. Cada qual na sua função, motorista e cobrador se eximem de responder. Os demais passageiros olham para um lado, para o outro, e também preferem não meter a colher no angu. Dona E.C, pequena e aguerrida, chama o sujeito no fundo do ônibus (vou chamá-lo aqui pelo apelido mais comum dado a essa categoria de passageiro: D.J. de buzú), e os dois começam a discussão:

Dona E.C – “Oh, você aí, dá para desligar esse celular por favor, tá muito alto e as pessoas estão incomodadas”.

D.J do buzú – “Os incomodados que se mudem. Se quiser conforto pegue um táxi”.

Dona E.C. – “Quem não gosta de ouvir reclamação porque está com som alto dentro do ônibus que se mude. Se está incomodado com a reclamação, pegue um táxi. E vamo (sic) desligando logo essa porcaria, que eu já falei que essa música é baixo-astral e ninguém aqui tem obrigação de ficar ouvindo esse lixo!”

O D.J de buzú, espantando com a ousadia da miúda E.C, já que a maioria das pessoas se cala e aguenta o martírio, bate no visor do aparelho e diz:

D.J. de buzú – “Tá vendo isso aqui? É meu, só desligo se eu quiser!”

Dona E.C. – “Meu irmão, o celular pode ser seu, mas o ônibus não é. Desliga essa porcaria, rapaiz (sic), que eu já mandei!”

Ao perceber a coragem da pequena passageira em enfrentar o D.J. (importante dizer que ele é marombado e tem duas vezes o tamanho dela), os outros passageiros tomam partido e começam a reclamar em coro, exigindo que o som seja desligado. O D.J. sentindo na pele o que significa ser minoria diante de uma maioria enfurecida, abaixa o volume, mas dona E.C e companheiros fincam pé e exigem que o aparelho seja desligado. Seu D.J., rabinho entre as pernas, desliga e, em bom baianês, ‘fica pianinho’ o resto da viagem, que transcorre na mais santa paz, quebrada apenas pelos solavancos do buzú, cada vez que o motorista contraria a lei da inércia e arrasta o veículo pelas ruas esburacadas e engarrafadas de Salvador.

P.S.: Essa história não presenciei, mas é verídica e foi baseada no comentário maravilhoso deixado por uma leitora de iniciais E.C, em um site de notícias de Salvador. Ela teve a coragem de enfrentar um dos D.Js de buzú que proliferam nos coletivos da cidade e acabou liderando um “motim” de passageiros para “educar” essa gente que quer exercer sua liberdade sem respeitar a dos demais. Não sei se E.C é jovem ou idosa, mas a imaginei como uma dessas senhorinhas miúdas e valentes, qua andam com o guarda-chuva à postos e que não levam desaforo para casa. Dona E.C virou meu ídolo!

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