Resenha: Um homem misterioso (Martin Booth)

Uma ode tediosa ao dilema de envelhecer

Cenas do filme inspirado no romance de Martin Booth

A passagem do tempo e a perspectiva da aposentadoria, com todo o anseio por dias de tranqüilidade e ao mesmo tempo o medo da anunciada inatividade que acompanham esta etapa da vida, estão por trás desse romance de Martin Booth.

Narrada em primeira pessoa, pelo próprio personagem, o Sr. Farfalla (borboleta), a obra traz passagens idílicas, como as descrições das paisagens exuberantes do sul da Itália, onde o personagem vive em retiro, enquanto termina aquele que será seu último trabalho. A paisagem é uma das poucas coisas que salvam Um homem misterioso de ser uma decepção completa.

O Sr. Farfalla passa a própria vida a limpo, mas sem sentimentos de culpa ou remorsos, apenas com a certeza de que de uma forma ou de outra, cumpriu seu dever de homem. Embora pareça, em determinados trechos, um ser amoral, é mais uma criatura, das tantas que povoam o universo literário e o mundo fora dos livros, em busca de si mesmo e de um novo sentido para a vida, quando finalmente se aposentar.

O livro, porém, é cansativo e a leitura em certos trechos se arrasta em perigoso flerte com o tédio. A tentativa do autor em filosofar sobre a perenidade da vida e a implacabilidade do tempo naufraga em lugares comuns. O fato de o personagem ser um ex-católico que abdicou da fé, mas ainda condicionado à ideia de um deus e de uma igreja, não ajudam a torná-lo mais convincente no seu discurso de “profunda decepção com a história e a humanidade”.

Confesso que desse aclamado autor de thrillers, esperava bem mais e me decepcionei não com o final da história, que devido a natureza do trabalho do Sr. Farfalla era esperado, mas com o conjunto da obra. Não emociona. Nem mesmo o fato do Sr. Farfalla ser obrigado a abrir mão daquilo que sempre desdenhou, quando finalmente decide aceitar as dádivas do destino, comove o leitor. A sensação é de que ele bem que merece permanecer preso no casulo que teceu para si mesmo, até o fim dos dias.

O anti-herói de meia-idade (vivido por George Clooney no cinema, na versão do livro para as telas), é carismático até certo ponto, mas não convence. Falta alguma coisa de substancial a esse homem metódico e em conflito com a fé. Como diz uma das personagens secundárias, o Sr. Farfalla tem medo e esse medo o torna tão hermético que frustra o leitor. A couraça impenetrável que o mantém protegido de seus inimigos dentro da trama, também impede a fruição completa da obra por quem acompanha as idas e vindas do personagem.

Os coadjuvantes mais interessantes não tem espaço nessa história de um homem só, já que a perspectiva é sempre a do olhar cansado e descrente do personagem principal. Esse olhar do Sr. Farfalha, tão indulgente consigo mesmo e tão desinteressado de quem está ao redor, é deprimente.

No final das contas, é dos tais livros que quando se termina a leitura, sente-se um alivio e pouquíssima vontade de retornar algum dia a viajar por suas páginas.

Ficha Técnica:

Um homem misterioso

Autor: Martin Booth

Tradução: Marcelo Schild Arlin

Ed. Record / 368 páginas / R$ 42,90

*Também publicada na minha página na rede Skoob.

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5 pensamentos sobre “Resenha: Um homem misterioso (Martin Booth)

  1. Estou lendo o livro, que comprei numa pechincha na Americanas por R$5,00. Comecei a ler e descobri que é um livro em que não se pode e nem se deve, ao meu ver, ler rapidamente. É uma leitura que precisa ser gradativa, conforme o Sr. Farfalla vai entendo e citando seu mundo. O personagem é apaixonante e ver gradativamente o mundo onde ele habita e tudo o que está mudando em sua forma de pensar é muito envolvente. Achei a leitura envolvente, daquelas em que você se encanta com o charme do personagem principal. Ah, não é influência do Gerge Clooney no filme, porque eu não vi e não quero ver pra não me decepcionar, porque as adaptações costumam, com raríssimas exceções ser extremamente frustrantes.

  2. esse critico aqui não entende nada de literatura,.livro sensacional,prende atenção até 1 ultima pagina,filme não chega nem perto..

    • Vicente Santelmo, não é um critico, pois a autoria do blog e do conteúdo nele publicado não é de um cara, e sim de uma mulher. O ato de escrever uma crítica é subjetivo e baseado em referências de leituras prévias, conhecimento técnico, mas, principalmente, opinião pessoal. E se é pessoal, significa que eu respeito o fato de você gostar muito desse livro, enquanto tenho todo o direito de achar o livro uma xaropada que se arrasta por páginas infinitas. Seria bacana se você também respeitasse as opiniões alheias, principalmente quando manifestadas em um blog pessoal e mais ainda quando se trata de algo tão subjetivo quanto a leitura de um livro. Duas pessoas nunca vão ler a mesma obra da mesma forma, meu caro. Acho muito deselegante, pra não dizer mal-educada, essa mania que os fãs de certas obras tem de colocar a validade da crítica à prova toda vez que o texto cumpre a sua função de analisar “criticamente” a obra em questão, e não fazer oba oba de fãzinho. Ainda assim, abraços, feliz ano novo e muito obrigada por ter lido o blog e ter tido o trabalho de comentar nele, sinal de que, mesmo não concordando com a minha opinião, ela te sensibilizou a tal ponto, que você não resistiu a comentar.

  3. Acabei de assistir ao filme. Já vi que é bem melhor…. achei um dos melhores filmes do ano. É tenso, vamos na onda do personagem e passamos a não acreditar em ninguém e, em cada cena, qualquer coisa pode acontecer. Muito bom!
    Pensei em comprar o livro antes, mas comecei a ler na livraria e me pareceu tedioso mesmo….

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