Três mulheres idosas

Jéssica Tandy em cena de Conduzindo Miss Daisy

Tenho uma curiosidade enorme em observar mulheres idosas. Me deixo seduzir completamente pelo cheiro de patchouli que lembra colo de avó e pela vaidade digna de algumas damas que tem o dom de saber envelhecer. Ainda nos primórdios da carreira jornalística, uma ex-chefe de reportagem me colocou o apelido de “colecionadora de velhinhos”. Mas embora eu goste de conversar com idosos, sejam homens ou mulheres, porque bebo com a sede de um sedento no deserto as memórias deles, de um passado que não conheci mas que me dá enorme nostalgia, são as velhinhas que de fato me encantam.

Hoje vi três. Viajavam no ônibus que tomei para ir ao trabalho. Entraram praticamente juntas, com a diferença de dois pontos de ônibus.

A primeira me inspirou independência. Aparentava quase 80 anos, a carapinha totalmente branca em contraste com os brincos dourados, daqueles tipo argola, pequenos e discretos. Vestia uma blusa rosa (em tom pastel) e uma calça preta. Os sapatos eram baixos. O guarda-chuva combinava com a bolsa e embora as estampas fossem diferentes, havia harmonia ali. Ela me lembrou uma velha matriarca ancestral e tenho certeza de que uma entidade poderosa estava no comando. Plácida, mas firme, viajava discreta e atenta, mas com tanta suavidade no semblante que me deu vontade de chorar só de olhar para ela. Abriu a bolsa depois de um tempo e tirou um frasquinho de colírio, pingou duas gotinhas em cada olho e tornou a guardar o vidrinho na bolsa. Um ato tão prosaico, mas eu observava como se fosse algum tipo de mágica.

A segunda me inspirou autoestima. Usava óculos escuros enormes, no estilo Jackie Kennedy. O cabelo, tingido de castanho escuro, estava penteado no mesmo estilo das antigas fotos dessa diva trágica. As mãos ossudas e tatuadas pela natureza, com as veias aparentes da idade, se moviam como as de uma dançarina de flamenco, quando ela falava. Estava acompanhada de uma mulher mais jovem, talvez uma filha ou neta. Vestia um vestido estampado de flores, manga 3/4. Tinha um perfil lindo!

A terceira usava um enorme chapéu de palha, desses de ir à praia, tênis de corrida, calças de ginástica e camiseta branca. Exibia os braços pelancudos sem constrangimento. Me inspirou vitalidade. Estava sentada alguns bancos à frente e não pude observá-la com tantos detalhes como às outras duas, que sentavam mais próximas. Ainda assim, me pareceu a mais jovem das três (beirando os 65). O motorista a conhecia, perguntou por pessoas que imagino fossem parentes. Ela respondia de modo curto e preciso, mas gentil, no intervalo do folhear de uma revista de ofertas de uma rede de supermercado. Talvez essa não cheirasse a patchouli como as avós clássicas, mas a protetor solar e suor.

Observando essas três senhoras, apenas adivinhando suas biografias a partir das roupas que usavam, me dei conta do quanto envelhecer é ao mesmo tempo terno, triste e inevitável. Ainda assim, fiquei em paz com a ideia de ser uma velha observada por alguma cronista em um futuro nem tão distante assim…

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