Geral, Literatura, Resenhas

Resenha: O livro do amor (Kathleen McGowan)

A fórmula “O Código Da Vinci” já esgotou faz tempo

Livros que viram referência, seja por qualidade literária inquestionável ou porque caíram no gosto do público leitor médio, trazem na esteira do seu sucesso diversas outras obras correlatas ou “inspiradas”. É assim com a Terra Média de Tolkien ou a Nárnia de C.S.Lewis, mães pródigas de um sem-número de obras que também pegam carona na mitologia e na magia das lendas antigas. Não estou dizendo com isso que todas as histórias derivadas de outras que já foram contadas sejam ruins. Ao contrário, existem ótimas leituras nesse nicho. Mas existe também o outro lado da moeda, que é a imitação da fórmula pela fórmula, que de tanto ser usada, esgota-se.

Sensação de fórmula esgotada, ao menos para mim – porque tem quem não canse nunca -, é a leitura de O livro do amor, da escritora Kathleen McGowan. Trata-se de mais um derivado de O Código Da Vinci, o livro de Dan Brown que é um entretenimento muito bom, mas que por mexer em velhos tabus da Igreja Católica acabou sendo bem mais levado a sério do que de fato merecia. Se fosse encarado como uma ficção muito bem construída, não teria gerado uma onda de “inspirações” bem menos competentes no quesito entretenimento e igualmente pífias quando o assunto é a velha teoria da conspiração.

Em O livro do amor, autora cria uma trama que mistura o antigo hierosgamos dos celtas com a história de amor entre Madalena e Jesus, habilmente camuflada pela igreja durante dois mil anos. Nem assim ela é original, porque o hierosgamos como cerimônia de elevação espiritual a partir do sexo também é explorada por Dan Brown em O Código Da Vinci

O livro do amor baseia-se na descoberta de um evangelho escrito pelo próprio Jesus e nas bases do que teria sido a “verdadeira religião que ele tentou fundar, mas que foi distorcida pelo catolicismo”. Lógico que toca no tema preferido dos teóricos da conspiração, a união entre Jesus e Maria Madalena. O romance dos dois não teria problema nenhum, seria até muito justo com Jesus, que tinha direito oras, de viver sua historinha de amor (why not?), mas é que tanta gente já falou disso que enjoou.

O livro do amor é apenas mediano no que se refere à condução de uma trama de mistério com todos os elementos para prender o leitor do começo ao fim. E fracassa totalmente quando a intenção é “revelar” esses supostos segredos escondidos nos labirintos do Vaticano.

Honestamente, acredito que esse tipo de obsessão pelo catolicismo só contribui para alimentar a mítica construída nos últimos dois mil anos e que no fim das contas, impede que a igreja, plantada em alicerces de barro, desabe de vez.

Na praça de São Pedro, no Vaticano, há um monumento em honra da condessa guerreira Matilda de Canossa.  A estátua da condessa, segurando as insígnias papais, é um mistério para os historiadores e possibilita todo tipo de teoria, inclusive a de que ela e o papa Gregório VII eram amantes

Julieta, da dinamarquesa Anne Fortier, um exemplo de boa inspiração no “universo browniano” (ou seja, essa literatura que bebe na fonte da teoria da conspiração), é infinitamente superior e consegue nos envolver na trama baseada em “fatos reais” sobre os personagens de carne e osso que inspiraram Shakespeare a escrever o clássico Romeu e Julieta. Sem falar que, ao inserir uma boa e gostosa comédia romântica contemporânea com dois supostos descendentes dessa Julieta e desse Romeu históricos, o livro abre margem para virar um ótimo filme de amor. Já a história de McGowan nem um romance decente consegue emplacar! Se for parar no cinema é só a indústria forçando a barra.

McGowan, ao contrário de Fortier, é cansativa em diversas passagens, principalmente quando abandona a narrativa ficcional para se dedicar à pregação de uma “forma pura e primitiva de cristianismo”. Com todo respeito aos cátaros e ao massacre que sofreram durante a Inquisição (um dos episódios tenebrosos do cristianismo medieval, sem dúvida), a ênfase nas virtudes dos “perfeitos” é tanta que irrita. A sensação que dá não é de uma justa tentativa de fazer um resgate histórico, mostrando o outro lado daquilo que a Igreja definiu tão enfaticamente como heresia, mas apenas que a autora tenta catequizar seu leitor, chamando-o para uma espécie de nova seita, um tipo de Catarismo contemporâneo e high tech, já que a difusão “da verdadeira palavra” agora conta com os recursos da comunicação e tecnologia modernas. Pessoalmente, prefiro que ninguém tente me convencer a abraçar nenhuma crença, principalmente quando me jogo numa leitura por distração.

A personagem mais instigante de O livro do amor não é a protagonista Maureen, mas a personagem que ela investiga na trama: a condessa Matilda de Canossa, uma mulher que de fato existiu e que no pontificado de Gregório VII apoiou o papa na Questão das Investiduras. Grosso modo, essa questão política envolvia definir quem era mais poderoso, o papa ou os reis que eram vassalos da igreja. Gregório VII e Henrique IV (Sacro Império Romano), que chegou a ser excomungado, levaram a querela às vias de fato, em intermináveis batalhas que arrasaram a Europa. Matilda era uma condessa guerreira, uma mulher que pegava em armas e liderava soldados em pleno século XII, e isso é a história quem diz sobre ela. Por ter traços obscuros e polêmicos em sua biografia, ela sozinha renderia um romance histórico dos bons e de fato, só quando romanceia a vida cheia de aventuras da condessa é que Kathleen McGowan se sai razoavelmente bem.

Kathleen McGowan, a autora

O livro do amor vai agradar em cheio aos mais crédulos e admiradores dessas tramas que buscam mostrar a corrupção de padres e bispos (como se os noticiários já não bastassem para tanto). Mas leitores críticos ficarão frustrados com os buracos da trama e o tom meloso que extrapola até a pieguice romântica gostosinha de “dia dos namorados”, descambando para uma choradeira que eleva os níveis de glicose ao coma diabético.

Ah, sim! Vale citar que este é o segundo romance de uma trilogia batizada com o título de O legado de Maria Madalena. O primeiro livro chama-se O segredo do anel e o terceiro ainda não saiu do forno, ao menos não no Brasil.

Ficha Técnica:

O livro do amor

Autora: Kathleen McGowan

Tradução: Alyda Sauer

Editora Rocco

432 páginas

Preço: R$ 39,90

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17 thoughts on “Resenha: O livro do amor (Kathleen McGowan)”

  1. Bom.. eu não li este livro, mas pelos trechos que li da sua resenha este livro é tão enfadonho como o segredo do anel. Realmente, o tema Maria Madalena está esgotado e a maneira como esta autora (que meio se intitula a “Pastora” da profecia) é irritante. Compreendo o seu desgosto e compartilho.

    1. E que ao ouvir, Cris, não deixem de exercitar outra faculdade valiosa do ser humano. Ouvir apenas e aceitar, sem refletir criticamente, é abrir mão de um dos maiores dons que recebemos ao nascer: a capacidade de pensar!

      1. Concordo plenamente …. temos que ler e saber, não somente ouvir e aceitar …

  2. Olá, sua resenha está bem posta, li o primeiro livro “O segredo do anel” e amei, porém nunca li o Código da Vinci, talvez por isso fiquei empolgada com a leitura. Estou lendo no momento “O livro do amor” , este tema sobre Maria Madalena me enlouquece de curiosidade, tanto é, que anotei os dois livros que você cita para lê-los também, inclusive os de Dan Brown estão na lista, e só depois farei meus comentários. Por enquando, me sinto até uma escolhida por ter essas obras em minhas mãos. beijos.

  3. Estou bastante atrasada na história, mas quero dar meu palpite. Achei a resenha muito boa, bem argumentada e bem estruturada. Eu gostei muito do primeiro livro da série, O Segredo do Anel. O Livro do Amor foi uma decepção. Achei exatamente o que você diz. Meloso, estilo romance para mulheres e ainda com este tom de catequese. Já li O Evangelho Segundo Jesus Cristo de Saramago e acho maravilhoso. Com certeza vou ler o outro que você indicou.

  4. Não sei se vc leu o primeiro livro dessa trilogia, e se não tiver lido talvez seja por isso que vc não tenha gostado do segundo, pois um complementa o outro concordo com Michel sobre a sensibilidade da autora, os sentimentos dos personagens pra mim foram quase palpaveis gostei bastante da estória, como não havia lido nenhuma obra ficcional sobre o assunto não criei muitas expectativas e nem pontos de comparações.

  5. Primeiramente gostaria de dar os parabéns á Andréia Santana, que conheci por acaso enquanto fazia uma busca por notícias á cerca do 3º livro da trilogia de Katheen Mcgowan. Sua resenha está fantástica; cheia de informação, bem costruída e definitivamente muito segura. Contudo, se me permite, eu discordo de sua opinião (e cá pra nós, é isso que deixa a vida interessante: a diversidade). Desde o primeiro livro da série “O legado de Maria Madalena”, eu simplesmente me apaixonei pela forma com que Kathleen Macgowan conduz seus texto. Em sua resenha, você diz que ela usa de “um tom meloso” na trama. Eu não usaria o termo meloso; prefiro definir como “Sensibilidade”. E assim como você, Andreia, também sou meio que Traça de biblioteca (adorei essa definição), portanto, sabemos muito bem, eu e você, que sensibilidade não é caracteristica fácil de se encontrar num autor (pelo menos naqueles revelados nas últimas décadas). E mais; eu juro pra você: não sou nenhum pouco voltado para livros “melosos”.
    Pra reforçar ainda minha tese de que Mcgowan é fantástica, quero enfatizar que ela mexe com uma personagem bíblica que ao longo de anos de pesquisas e leituras (vide Margaret Starbird, James Barclay e David R. Duncan, autores que já pesquisavam sobre as distorções e censuras impostas pela igreja muito antes de Dan Brown), aprendi a admirar: Maria Madalena. Entendo que o tema de fato foi explorado á exaustão, e a maioria do que lemos por aí não passa de baboseira pra vender livro. Dos autores modernos, salvo o “criativo” Dan Brown, e a “sensível” e, por que não “apaixonada” Kathleen Mcgowan…
    Abraços!!
    PS: teu endereço na internet ta salvo. Voltarei pra ler-te em outras oportunidades…

    1. Oi Michel,
      Sensibilidade é o que você faz neste comentário, discordar sem ofender. Obrigada, fiquei comovida. Também sou admiradora das almas sensíveis, mas o que Macgowan faz na minha opinião é pieguice, algo que infelizmente, muita gente confunde com sensibilidade. Sempre admirei a figura de Madalena e já li essa história contada de forma muito mais bela e sensível. Dois exemplos: “madalena, a mulher que amou jesus”, de Margareth George (se nunca leu, recomendo); e “o evangelho segundo jesus cristo”, de josé saramago. Aí sim, há poesia. Já a segurança na crítica, talvez venha da prática profissional, ou da minha personalidade. Costumo defender com muita clareza aquilo em que acredito. Esse livro da Kathleen Mcgowan não me cativou e nem convenceu. Ela deveria ter romanceado apenas a vida de Matilda de Canossa, aí sim, seria um livro muito bom, mas ao falar de madalena e de jesus, a coisa descambou para a catequese. Abraços e obrigada por participar do debate e por salvar o link do blog, será um prazer receber sua visita mais vezes.

  6. Enjoada é você. Talvez não tenha sensibilidade para entender o que realmente foi passado. Caiu nos comentários como qualquer um.

    1. Oh Jaqueline, que coisa mais feia e enjoada é entrar em um blog pessoal, ler a resenha crítica e subjetiva escrita por uma pessoa que fez uma leitura pessoal de um livro e que portanto tem o direito de opinar sobre ele de acordo com o seu gosto pessoal; e não ter a “sensibilidade” de compreender que o mundo, anjinho, é feito de diversidade de opiniões e gostos :)

      No mais, super agradecida por você ter tido o trabalho de 1 – ler meu blog e 2 – comentar nele. Bjos

  7. Eu adorei sua resenha e sua visão sobre o tema. Realmente, nem todos os derivados das grandes obras como as de Tolkien – que estou lendo no momento – são livros dignos de serem lidos. Principalmente agora que a onda “trilogia” vem assolando o mundo literário, mas nem sempre uma saga ou qualquer tipo de “continuação“ é uma certeza da qualidade de um livro. Por isso, quase sempre, leio clássicos e apenas poucos best-seller. Sobre este que resenhou, não tinha conhecimento, mas como bem disse, tudo o que acusa valores codificados a anos – como os do cristianismos – faz muito mais barulho pela ofensa do que pela inteligência e reflexão, por isso, nunca li esse autor.

    Parabéns pela resenha e pela crítica literária! Principalmente pela crítica que, infelizmente, vem sendo realizada muito pouco na realidade literária atual.

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