Baú de Histórias, Crônicas, Geral

Banho de susto

Eu tinha oito anos quando contraí coqueluche, logo na sequência do meu segundo sarampo. Muita coisa acontecia comigo aos oito anos… Bem fez Casemiro, que transformou os dele em verso. Diz a ciência, que ninguém tem sarampo duas vezes. Mas ou a ciência está errada ou errados estavam os médicos que diagnosticaram a doença nas duas vezes, ou em uma delas, ao menos. No fim das contas, crescemos, minha irmã e eu, com o status de duplamente ensarampadas. Não morremos, não tivemos sequelas. A sorte sempre favoreceu essa família e as filhas de dona “Ararinha” são meio Hylander. A bem da verdade é importante que se diga que quem começou a segunda epidemia entre a parentada foi justamente minha irmã. Felizmente, ninguém morreu. Em uma viagem de férias para a casa de tios, em São Paulo, nos idos do Natal de 1982, ela adoeceu e na sequência, fomos caindo eu, cinco primos e a babá de uma das primas menorzinhas. No começo da doença, minha irmã molenga pelos cantos (logo ela, que sempre foi a espoleta da família), pensou-se na possibilidade de uma intoxicação por uvas. É que nós duas e os primos, incluindo a menorzinha, tivemos nossa Festa da Uva particular na garagem da casa de um dos tios. Detonamos praticamente o caixote inteiro e com isso provocamos uma baixa considerável no arranjo natalino da ceia. Na volta da viagem, na despedida do sarampo, chegou-me de visita essa tal de coqueluche. Pensem que beleza, para uma criança asmática, ter crises de tosse convulsa que duravam minutos intermináveis e me deixavam prostrada, sem ar, com a pele arroxeada, inerte feito uma boneca de pano de onde retiraram o enchimento. Sobrevivi. É sina! O tratamento para a coqueluche, no meu tempo de menina, nos idos da década de 80 (me senti agora uma mistura de Zélia Gattai com Marina Colasanti), consistia em garrafadas vindas do interior (vocês não me perguntem o que tinha dentro das garrafas. Me davam para beber, eu, criança obediente, bebia) e em “banhos de susto”. Se você tem menos de 30 e carece de parentes velhos como o tempo, uma mistureba de tias de diversas origens étnicas (bem no espírito da brasilidade de Ari Barroso), explico-me: o banho de susto era quando a avó de uma criança encoqueluchada (eu, nesse caso, e a minha avó, lógico), pegava a dita criança, no auge de uma tosse de arrancar os pulmões e tascava-lhe, com tosse e tudo, embaixo do chuveiro frio. Quer dizer, eu ia para o chuveiro, porque bom mesmo, segundo vovó, era se tivesse um tanque daqueles grandes, “iguais aos da fazenda”, para enfiar a criança lá dentro, numa espécie de batismo que servia, literalmente, para assustar e com isso espantar a tosse e na sequência uma provável morte por asfixia. Dona Morte não gosta de banho, acho eu. Toda vez que entro em um chuveiro frio, e gosto mesmo é dele frio, não deixo de lembrar dos banhos de susto da época da coqueluche e de minha avó me segurando pelo braço, com tanta força (o que tinha de miúda, tinha de forte), que marcava a pele com as marcas de seus dedos. Era o medo de perder a neta. Anos depois, já com quase 30, quando me vi novamente cara a cara com a morte, numa outra história que fica para outro dia, pensei que por duas vezes ganhei da Ceifadora, “ha ha ha, você não me pegaaa”. Na primeira, pela força dos banhos de susto de dona Da Paz, e na segunda, um golpe de sorte que me garantiu a vitória por nocaute técnico, na prorrogação.

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