Geral, História, Resenhas

A história do degredo… para quase iniciados

Amantes de História – meu caso – vão se deleitar com Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas – Os degredados no Brasil Colônia. Mas amantes de histórias – meu caso também -, podem se decepcionar se a expectativa for uma narrativa quase mítica em torno da epopéia dos expatriados que, a contragosto, ajudaram a colonizar o Brasil.

Se a referência do leitor é o texto leve e irônico de um Eduardo Bueno da vida, melhor esquecer. Geraldo Pieroni é um historiador e o livro deriva de sua tese de doutorado. Embora com linguagem simplificada, e de fácil assimilação – sem academicismo metido a besta -, é leitura no mínimo, para quem curtiu muito as aulas de História no ensino médio. Sendo que alguns trechos realmente falam mais ao coração dos pesquisadores profissionais. Quem não gosta dessa perspectiva científica e prefere as anedotas históricas, melhor ficar com o estilo de Bueno, autor de quem também gosto, dentro do seu nicho, vale ressaltar.

Pieroni escreve com fluidez e boa cadência narrativa, mas não consegue deixar de ser didático e nesse sentido o livro é maravilhoso e serve tanto como recurso complementar na escola como para historiadores amadores ou profissionais. Mas, o leitor em busca de aventura não se sente seduzido a também singrar os mares na companhia dos homens e mulheres que foram condenados ao desterro desse lado do Atlântico. Em alguns momentos, o texto torna-se enfadonho pela necessidade de descrições mais acadêmicas. Mesmo quando narra trechos das vidas de alguns degredados, o autor não avança além do relato dos fatos, como um professor faria em sala de aula, sem aquela pincelada romanesca que o tema sugere.

Diogo Alvares, Caramuru, que supostamente teria sido um degredado. A lenda do “pau de fogo” que teria submetido a vontade dos tupinambás, tem seu charme, apesar da crueldade da situação: homem branco, mesmo desterrado, como dominador

Lógico que, não se trata de romance, e sim de um livro sobre um aspecto ainda pouco explorado da História do Brasil e que rende bastante pano para a manga. Outro trunfo da obra é justamente esse, o autor resgatou todo um grupo de indivíduos que ao longo da história do país foi mal compreendido e pior ainda descrito. Nesse sentido, o livro é importantíssimo para desmentir velhos tabus que atribuem toda sorte de desgraças sociais do Brasil de agora aos degredados enviados para cá por crimes muitas vezes ridículos e que atualmente não renderiam nem uma multa de trânsito, que dirá uma punição tão severa quanto o degredo.

Bacana também que ele mostra os conchavos e interesses políticos e econômicos da coroa portuguesa por trás da imposição das penas de degredo, principalmente para certas famílias mais abastadas, como as de cristãos novos (judeus convertidos ao catolicismo) e que eram desterrados sob acusação de manter as antigas práticas. Os bens das famílias, claro, não cruzavam o oceano com elas.

Mas, depois de ler O português que nos pariu, de Angela Dutra de Menezes, igualmente sério no seu teor histórico documental, mas deliciosamente leve na forma, Vadios e Ciganos decepciona um pouco pela irregularidade: quando a leitura embala, lá vem uma certa sisudez cortar o barato. Isso fica claro logo na Introdução, quando o autor começa a descrever o processo no Santo Ofício de uma degredada chamada Maria Seixas, acusada de bruxaria e invocação ao demônio. O leitor automaticamente se transporta para o Portugal medieval, mas quando começa a entrar na pele de Maria Seixas, a magia se dilui.

Pessoalmente, prefiro que a História seja contada com toda a seriedade documental e de pesquisa que Pieroni dá ao seu livro, mas que esse conhecimento me seja transmitido quase que como num conto saído das Mil e Uma Noites, ou como num sarau ao pé da fogueira. Mas aí, é questão de preferência pessoal, mesmo.

Ficha Técnica:
Vadios e Ciganos, Heréticos e Bruxas

Autor: Geraldo Pieroni

Editora: Bertrand do Brasil

144 páginas / R$ 29,90

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4 thoughts on “A história do degredo… para quase iniciados”

  1. Olá Andreia. Gostei muito da sua resenha sobre o meu livro. Realmente a pesquisa nasceu na universidade, no meio de documentos e teorias históricas. Tentei o máximo amenizar a linguaguem acadêmica quando publiquei Vadios e Ciganos…. Acho que a história tem que sair da academia mas sem perder seus métodos e rigor na pesquisa sobretudo nas fontes primárias. O meu outro livro que é minha tese de doutoramento, “Os excluídos do Reino” aprofunda bem mais o tema, no entanto, como vc escreveu, “a sisudez corta o barato” de quem prefere viajar com os degredados. Muito legal mesmo o que vc escreveu. Obrigado pelos elogios e críticas, foi muito bom ter lido e estou passando o seu site pra muita gente inteligente como você. Abraço.
    Geraldo Pieroni

    1. Oi Geraldo,
      Agradeço imensamente o comentário deixado aqui no blog e a indicação. Uma vez fiz uma entrevista com o professor Leandro Karnal e ele citou Os excluídos do Reino, que está na minha fila de leitura. O tema que você pesquisa é fascinante! Abraços

  2. Me pareceu ser um livro bem interessante. Como você, também aprecio muito a História e gosto muito da forma que essa ciência vem crescendo – de certa forma – no ramo literário. Muitas vezes os livros grandes e metódicos do Ensino Médio são penosos para um educando, portanto, ele descobrindo pedaços da mesma de forma mais “acabada“ torna-se um prazer. É o caso do livro 1808, de Laurentino Gomes, em que a leitura é prazerosa e informativa. Povos como os que citou, que participam de forma marginalizada da sociedade sempre me despertou atenção.

    Muito boa sua resenha e sua visão sobre o tema :D

    1. Oi Daiane, também já li 1808. Mas Laurentino Gomes, assim como Eduardo Bueno, citado no meu texto, não são historiadores, são jornalistas que pesquisam a história e por isso a contam de forma mais romanceada. O que senti falta no livro de Geraldo Pieroni, que é historiador acadêmico, doutor na matéria, foi justamente essa leveza de traduzir a história como num romance. Embora Vadios e Ciganos seja muito boa leitura, o livro não seduz quem não for realmente apaixonado por história, porque ele é mais didático do que divertido. Minha análise vai nessa linha. Abraços e obrigada pelo comentário!

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