Crônicas, Geral

Na companhia de Oiá

Saí para trabalhar e vi Iansã. Estava vestida com uma saia vermelha, comprida, e uma camisa também vermelha. Os cabelos presos em um coque decorado por duas rosas, vermelhas e frescas. No pescoço, uma mistura de colares de prata, uma figa enorme e um colar de contas vermelhas e brancas. Nas orelhas balançavam dois brincões de prata. As unhas estavam pintadas de dourado e os dedos cheios de anéis de prata. Não conseguia parar de olhar e achar graça, porque também saí de casa “trabalhada” no vermelho e na prata. Mas sem rosa no cabelo. Ela reparou que eu a olhava e me disse: “Você está na cor errada, não parece filha de Oiá”. Eu ri e pensei em dizer que não sabia direito de quem era filha, mas quando nasci, me trouxeram para casa, da maternidade, vestida de vermelho da touca ao sapatinho. Acho que sou filha de Marte, mas preferi não misturar as mitologias. Só olhei para ela e elogiei: “A senhora é muito linda!”. Ela deu uma gargalhada e revidou: “eu sei, sou mesmo”. Depois voltou-se para continuar a conversa, em voz altíssima, com a colega de viagem. Não reparei nessa companheira, de tanto que estava encantada com ela. Era enorme aquela Iansã, apesar de curvada pela idade, pensei que devia ter entre 70 e 75 anos, e medir no mínimo 1.80m.  Era bem mais alta que eu. Se virou para mim de novo e perguntou: “Você tem filhos?” E eu, “tenho sim, um.” Ela pareceu satisfeita com a resposta e me ignorou a partir daí, mas consciente de que eu ainda a observava. Continuava contando um caso para a conhecida. Não pesquei os detalhes da história, talvez por não conhecer os personagens envolvidos. E nem reparei direito na fisionomia de sua companheira de viagem. Ela causava muito impacto, não tinha concorrente à altura. Só sei que ela repetia a cada minuto, “não gosto de mentira, não gosto de mentir, não gosto que mintam para mim”. Numa curva, levantou-se apoiada em uma bengala. Vi que devia mesmo medir cerca de 1.80m. Era muito alta e corpulenta. “Motorista, pare ali perto do muro daquela escola!” O motorista, apesar do ônibus vazio, fora do horário de pico, respondeu: “minha tia, ali não é ponto.” E ela, impassível: “seu moço, tenho 75 anos, podia ser sua avó e não tia. Quebrei minha perna há dois meses e o médico disse para não sair de casa, mas eu não ia ficar deitada que não sou mulher de fazer manha. Já tava agoniada para sair e resolver minhas coisas. Mas também não vou subir ladeira. Você pare aí no muro da escola, que é perto de casa!”. O motorista parou e esperou pacientemente enquanto ela descia os degraus apoiada na bengala, mas com o queixo empinado. Pensei cá comigo, só se ele fosse besta de discutir com Oiá em plena quarta-feira!

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