Mais um eco da infância

Porque dizem que quanto mais a gente amadurece, mais a infância torna-se saborosa…

*A dália

A menina e sua mãe sempre visitavam aquela parenta. A irmãnzinha mais nova também ía. Quando não estava com as duas, a menina era levada pela avó postiça (madrasta de sua mãe), só para fazer companhia à idosa. Nesse dia, estava com a avó. O motivo da visita: cortar o cabelo. Mas isso ela só ficou sabendo depois. A parenta, uma prima distante léguas nas relações de consanguinidade, mantinha um salão em casa. A menina tinha cabelos compridíssimos, no meio das costas. Contava talvez sete ou oito anos, gordinha, pernas roliças, mãos pequenas de dedinhos esquisitos, que eram rechonchudos na base e iam afinando até a ponta. Dedinhos curiosos. Única explicação para o que aconteceu é que os dedos infantis são sempre mais curiosos que seus donos. Ou talvez, despertem a curiosidade mais cedo que o resto do corpo, incluindo aí a mente. Se bem que, uma criança de sete para oito anos, daqueles tempos, não sabia muito bem o que era mente. Vá lá que soubesse vagamente o que era juízo. Sempre tinha alguém mais velho dizendo que faltava juízo e sobrava traquinagem nas crianças. “Criança vê com os dedos”, os adultos também afirmavam com tanta certeza que a menina se pegava a investigar com certa frequência as pontas dos seus, para ver se tinha realmente algum olho ali. Nunca encontrou nenhum. Uma pena! Naquele dia da visita com a avó postiça, a menina e seus dedinhos esquisitos, grossos na base, com pontas em forma de agulha, perdeu metade da cabeleira. A mãe mandou cortar. Dava trabalho demais pentear para a escola. E essa mãe, que trabalhava fora, fazia tudo em dobro. Duas filhas, duas cabeleiras para trançar, duas bocas com quatro pares de dentes para escovar, quatro pés para calçar meias e sapatos, dois corpos para vestir fardas, dois cafés da manhã, duas lancheiras… Na matemática miúda do cotidiano, com cálculos ditados pela pressa, a sobra da soma eram os cabelos compridos e cheios. Nada que uma boa tesourada não resolvesse. Mas teve vingança pelos cachos perdidos. Não intencional, um mero acidente com a dália do jardim da parenta. Uma dália com vasta cabeleira de petálas, meio rosadas. Uma dália que devia achar-se girassol, pois vivia de cara empinada para o céu. Esplêndida, daquelas que em jardim britânico daria uma medalha à dona do jardim…e tão vulnerável ao sol, aos insetos, à chuva e às visitantes pequenas que haviam acabado de perder seus cachos que também pareciam pétalas. Dálias e dedinhos grossos na base, finos nas pontas, ainda por cima com olhos de ver, extremamente curiosos, como diziam os adultos, não costumam travar relações de amizade lá muito amistosas. Principalmente se a dona dos dedinhos estava ressentida de um corte de cabelo surpresa. No começo, a menina aproximou-se com certa cautela, apenas com a intenção de espiar mais de perto, com os olhos da cabeça, aquela flor tão grande e bonita. Mas os olhos dos dedos estavam roxos de tanta curiosidade, também queriam ver a dália de mais perto e a menina esticou a mão direita. A esquerda protestou e ela esticou esta também, segurou o caule verde e tenro com as duas mãos e ficou intrigada como uma tripinha daquelas sustentava uma flor tão cabeçuda. Começou a conversar com a dália, contar para ela a judiação de perder os cachos. Conversa vai, conversa vem, um puxão inocente, ou uma vingança inconsciente (invejinha de menina) resultaram em um galho quebrado e um susto. Dor no peito da menina, sentimento de culpa (quando dá em criança é terrível, perverso), choro sentido e arrependimento. Depois da primeira avalanche de emoções, a frieza do raciocínio lógico de quem sabe que não pode ser surpreendida em falta, seja leve ou grave como o homicídio de uma dália. Com cara de inocente. “Não vi, não sei”. Dália? Quem é essa? Voltou a menina para a sala, deixando pendente do galho uma flor que mais parecia uma dama desmaiada. A avó já preparava a partida. Bolsa em punho, esticou a mão para a menina. Despedidas, beija a parenta de um lado, beija do outro. Já na rua, a respiração presa tanto tempo pela expectativa da descoberta do crime, liberta-se com um arfar e um suspiro profundos. Só faltou um bom e sonoro ufa! Tinha saído ilesa da casa, sem que nenhum adulto tivesse visto o estrago no jardim. Passaram-se os dias, ainda expectativa. Depois semanas, a culpa e o medo diluindo-se. Meses que trazem a segurança da impunidade. Relaxou finalmente. Sucederam-se anos e mais anos. Nenhuma bronca. E daquela dália, só restou a recordação…

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