Literatura, Resenhas

Resenha: Trio de Vênus

O olhar feminino sobre a vida, a morte e as relações

Trio de Vênus é um típico romance escrito para mulheres, por uma mulher, sobre a vida de três outras mulheres de gerações diferentes de uma mesma família vivendo um luto. Mas, não digo isso para desmerecer a obra, ao contrário, se virasse filme, daria uma daquelas produções delicadas, como o belíssimo Ao entardecer (Lajos Koltai, 2008), que enfatizam o olhar feminino sobre a vida, a morte e as relações afetivas.

O livro conta a história de Carrie, uma viúva de 42 anos, ainda na flor da idade, mas cheia de culpa e recalques, que se martiriza pela morte do homem com quem foi casada por 18 anos, mais por acomodação do que por amor. Ela é a mãe de outra protagonista, Ruth, uma garota de 15 anos, que serve de amparo a essa mãe imatura emocionalmente; e a única filha da terceira vértice do triângulo, Dana, uma senhora que, aos 70 anos, mantém uma personalidade tão forte e dominadora que sufoca as outras mulheres da família.

Trio de Vênus não é um livro para quem busca emoções fortes ou grandes revelações, não tem rebuscamento narrativo e tampouco é dotado de grande erudição. Mas Patrícia Gaffney, embora retrate o cotidiano singelo de uma viúva, sua filha e sua mãe em uma cidadezinha caipira norte-americana, consegue prender a atenção ao longo das mais de 500 páginas da obra apenas apelando à narrativa simples e direta e ao que mais mobiliza as mulheres: os sentimentos e as dificuldades – ou não – em expressá-los.

O filme Ao entardecer, dirigido por Lajos Koltai, também mostra as mulheres de uma mesma família em busca de reconciliação com o passado

O livro é narrado em primeira pessoa pelas três protagonistas e dessa forma o leitor tem a chance de perceber a história sob três pontos de vista totalmente diferentes e complementares. Como pano de fundo para esse pequeno drama familiar, Patricia Gaffney insere a história de um homem que, à beira da morte, pretende construir uma réplica da Arca de Noé para reconciliar-se com Deus. No geral, embora traga um rico mosaico de personagens masculinos, a força da história está mesmo no trio de vênus.

Carrie, artista plástica frustrada por ter desistido da carreira em prol da família, é contratada para executar os casais de animais que irão embarcar na arca fictícia. Enquanto constrói as réplicas, contrariando as vontades da mãe e da filha, busca ela mesma reconciliar-se com a memória do marido e com os fracassos de sua vida, todos atribuídos à criação repressora que recebeu de Dana.

Ruth, uma das protagonistas de Trio de Vênus, quer tatuar um ank (anak), o símbolo egípcio da vida

O tema principal da obra não é a dor da perda de um ente querido em si, mas mostrar como é possível sobreviver às várias perdas – várias mortes – que nos acompanham ao longo da existência: seja de pessoas próximas, ou dos sonhos e da juventude. O luto na história antecede um ciclo de renascimento.

Cada uma das personagens, a seu modo, busca um recomeço individual e uma reconciliação com as demais. Mas apesar do tema denso, não faltam a Trio de Vênus pitadas sutis de romance, com direito a beijos e suspiros, como convém ao gênero, e um senso de humor crítico, irônico e questionador: até que ponto as mulheres podem – ou devem – culpar suas mães pelas escolhas que fizeram ou deixaram de fazer na vida?

Ficha técnica:
Trio de Vênus
Autora: Patricia Gaffney
Tradução: Beth Leal
Editora: Bertrand do Brasil
504 páginas
Preço: R$ 52,00

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