Baú de Histórias, Crônicas, Geral

O dia em que salvei mamãe

Aos cinco anos salvei minha mãe. Desde que se lembra de existir, ela tem medo de aranhas. Mas não é um nojinho ou medo comum, é a manifestação mais profunda do pânico, aracnofobia. Ela não sabe exatamente quando começou, talvez venha de berço, como explicaram naquele filme, que ela nunca assistiu, claro! Mas recorda-se exatamente de um aniversário, na adolescência. Estava toda vestidinha com roupa nova, costurada para a ocasião, com lacinhos, rendas, babados, saia volante, toda coquete e cheirosa. A família ia sair, todos em roupa domingueira, os irmãos, o pai, a madrasta. Numa roça, ela morava em fazenda, não havia muitas opções de lazer, ainda mais em meados do século XX. Para estragar a brincadeira, apareceu uma aranha em um dos cômodos da casa. Ela gritou e um dos irmãos se prontificou a matar. Mas, por uma dessas artes de garoto, correu atrás dela com a aranha morta na mão. Minha mãe é do tipo que exige ver o cadáver da aranha ou não acredita que ela está bem mortinha. Mas a ideia dela de ver uma aranha morta impõe certos limites geográficos. Me pergunto se, nas suas superstições de quem desfia um rosário por dia, também não cabe um fantasma aracnídeo rondando os sonhos. Ela não contou dois tempos, com sapatinho de boneca, lacinhos, babados e rendas, disparou porta afora, para o terreiro da fazenda. Meu tio, vendo que tinha conseguido uma diversão ainda maior, saiu no encalço, em cruel caçada. Mamãe meteu-se pelo galinheiro adentro, prendeu as rendas do vestido nas telas, não parou para ajeitar, o pânico não conhece vaidade, arrancou com toda à força, rasgou o vestido novo, sujou-se de lama. Teve de tomar outro banho e foi à missa com a roupa velha. Nem adiantava amuar em um canto e dizer que não ia mais. Meu avô não conhecia esse tipo de sensibilidade, era homem de seu tempo. O tio perverso levou um sabão de meu avô, mas não foi punido com a severidade que a falta exigia. Meu avô tinha também das suas artes perversas. Mas a mágoa dela, e o medo das aranhas, permanece para toda vida…

Dizia eu que aos cinco anos salvei mamãe. De uma aranha, de quê mais seria? Era uma caranguejeira preta e gorda, lembro-me dela, a primeira das muitas que já enfrentei no decorrer dos anos. Acredito que desenvolvi um dom para eliminar aranhas, raramente erro o alvo. Essa estava sobre a pia da cozinha, como um objeto de decoração esquecido. Minha mãe não a achou nada decorativa. Saiu da cozinha aos prantos, toda arrepiada, trêmula. Minha avó veio acudir, mas, não sei por quê, a escolhida como carrasca fui eu. Mamãe sobre o sofá, naquele sapatear miudinho, dançava a música do medo. Apontava para a cozinha e me incentivava: “ali, ela está ali”. Tinha tanto medo na sua voz! Não lembro exatamente do rosto da minha mãe quando eu tinha cinco anos, mas era, certamente, o rosto de uma mulher de quarenta e poucos, bonita. Ela ainda é bonita, mas sempre confundo a mãe de ontem com a avó grisalha de agora. Mas a voz de medo eu aprendi a identificar muito cedo… Peguei uma panela, que estava sobre a mesa da copa e avancei para a cozinha. A aranha estava tranquila sobre a pia, não era de briga. Fez pouco caso da menina gordinha, com a caçarola na mão. Me subestimou, mas nem por isso deixou de levar uma panelada certeira, com toda a raiva de que eu era capaz. Aquela aranha merecia! Ora se merecia, tirou-me dos sonhos infantis e mostrou-me pela primeira vez que mamãe era humana. Depois disso, continuei admirando a sua força, a coragem para resolver coisas que me pareciam tão difíceis. Mas naquele dia, entendi que ela sempre precisaria que, de vez em quando, eu a salvasse.

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