Cotidiano, Crônicas, Geral

E de “lefante”

As duas aguardam há bastante tempo e a menina, aparenta no máximo cinco anos, reclama do cansaço e estica os bracinhos pedindo colo. A mãe, igualmente cansada, tenta distraí-la, puxa conversa, mostra objetos na rua, aponta os carros que passam e lança mão de todos os truques que as mães usam para enganar seus filhos pequenos quando não podem carregá-los no colo. Além de trazer a menina por uma mão, a mãe carrega uma bolsa e duas sacolas de supermercado na outra. A menina, sem dar-se por vencida, tenta escalar as pernas da mãe, como se esta fosse uma árvore e ela uma macaquinha, ou um bicho preguiça em busca de aconchego no galho mais firme. Uma cena muito bonita para se ficar indiferente. A mãe pede para ela descer, apela para um pensamento racional ainda em formação na criança: “Oh meu amor, mamãe já está com as sacolas e essa bolsa, não posso carregar você também, fique quietinha!” Mas a menina, achando o jogo divertido, estica-se na ponta dos pés. Em vão, não tem altura para alcançar o pescoço da mãe…

Em determinado momento, esgotada pelos sacolejos da filha, a mulher vira para a criança e sugere: “Vamos brincar de ABC?” E a menina, esquecida do colo e da escalada, prontamente mostra os dedinhos, na clássica brincadeira. A mãe também mostra os dedos e a pequena começa a contar:

“a, b, c,d!”

“D de quê?”

“D de … dado, mamãe!”

Novos dedinhos à mostra e nova contagem:

“a, b,c,d,e!”

“E de quê?”

A mãe insiste:”E de quê, meu bem?”

“Não lembra de nenhum bicho com E? E aquele que tem a tromba grandona?”

“lefante!” – responde a menina, sorrindo e dando pulinhos.

“lefante? Não tá faltando nada aí não?”

A pequena franze a testa naquela atitude de quem faz enorme esforço para pensar. Olha para a mãe e as pessoas no ponto de ônibus, que a essa altura, já deixaram de enrugar a testa – elas mesmas -,por conta dos enigmas das próprias vidas. E de repente…

“Mamãe, eu descobri! Elefante começa com E, né?!”

A pequena ensaia passinhos de dança, balançando-se para lá e para cá, deliciada. O riso dela é contagiante. Um raio de sol em manhã outonal de sexta-feira…

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