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Umas ideias sobre a autoestima feminina

Em artigo assinado por Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan, a autora fala sobre a autoestima feminina que, via de regra, seria validada pela capacidade de atrair e conquistar o sexo oposto. O texto apenas toca no assunto, porque o foco é outro, ensinar as garotas a se defender contra a Aids, DSTs e gravidez indesejada, nesses dias de sexo descompromissado de Carnaval. De fato, principalmente entre as mais jovens, e atualmente também entre as mais velhas, devido à cobrança sociocultural cada vez mais intensa por beleza e juventude eternas, cada vez mais mulheres tornam-se “reféns” do olhar masculino para validar – e valorar – suas existências.

Na essência, a identidade de uma pessoa sempre precisará do reconhecimento do outro para firmar-se e isso, a psicologia explica melhor que eu, começa ainda na infância e na longa trajetória que percorremos na autoafirmação como indivíduos. Mas, o que percebo é que as mulheres – algumas, não todas, generalizar nunca é bom -, estão perdendo-se nos seus múltiplos papeis, nas inúmeras cobranças que recebem de todos os lados, nos julgamentos feitos por familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho e, principalmente, continuam vulneráveis ao velho julgamento masculino e suas categorizações. As mulheres do século 21, com honrosas exceções, mantém-se presas a modelos de comportamento definidos por uma visão essencialmente masculina do mundo.

Mesmo quando dizem-se liberadas, sexualmente bem resolvidas e desencanadas com o próprio desejo, muitas mulheres deixam-se conduzir por este “olhar masculino” e seus rótulos. É por isso que costumo dizer que as regras do jogo ainda são ditadas pelos homens ou pela opinião alheia – que aqui inclui também a de outras mulheres – sobre o comportamento adequado ou não ao gênero feminino. Os homens temem as mulheres que não se submetem ao jogo dos estereótipos, porque essas são difíceis de dominar. As outras mulheres costumam estranhá-las. E é daí, desse estranhamento, que surgem as divisões absurdas entre “meninas de família” x “periguetes”; ou dilemas infantis sobre quando é ou não a hora de ir para a cama com um novo namorado. É daí também que vem uma preocupação quase doentia que certos namorados têm de saber, por exemplo, com quantos caras a namorada transou antes dele e o quanto ela é experiente ou não em sexo!

Não sou psicóloga, mas gosto do tema, e portanto, esse post é só fruto do meu hábito de “livre pensar”, misturado com o que já vi e vivi como uma mulher que caminha rumo à maturidade. No entanto, é importante definir o que é autoestima e a definição não é minha, está no dicionário Aurélio e na Wikipédia:

“autoestima – em psicologia – é a avaliação subjetiva que uma pessoa faz de si mesma como sendo intrinsecamente positiva ou negativa em algum grau”. É também o “sentimento de que se é uma pessoa com valor e com direito de ser reconhecida por outros.”

Mas por que “filosofar” sobre a autoestima feminina, com tanto tema mais leve para abordar durante o Carnaval? Será que não é “racionalizar” demais a existência? Procurar chifre em cabeça de cavalo? Gastar tanto latim só para falar da velha questão sexual de sempre? Talvez. Mas, depois de pensar nas palavras de Maria Helena Vilela no seu artigo, sobre a Aids e o sexo frágil, e de relembrar a letra de Express Yourself (Madonna), me parece que autoestima é mais que apropriado para discutir durante um Carnaval que, inclusive, terá seu ápice no Dia Internacional da Mulher, 08 de Março.

A autoestima feminina anda combalida e os modelos de mulher apresentados na mídia ou endossados pela sociedade não ajudam em nada a esclarecer a questão. Não ajudam porque limitam e aprisionam, porque geram expectativas do tipo: “mulher bem resolvida transa mesmo e não tá nem aí”, sendo que muitas, nem estão assim com essa vontade toda, mas embarcam no personagem da “liberada” só porque alguém, em algum lugar, disse que ser liberada, ou recatada, ou santa, ou puta, ou isso ou aquilo, está na moda. Outro exemplo: “mulher apaixonada não pode confessar seu amor para ele, porque os homens não valorizam quem se humilha. Homem desdenha mulher que se declara”. É tão ridículo alguém amar e não poder manifestar-se apenas porque o outro vai achar isso ou aquilo, que nem preciso comentar mais! Pessoalmente, tenho é pena dos homens que, tal qual canta Caetano, “pegam um amor assim delicado e desprezam”. O problema, para mim, está é em quem escuta a declaração e foge da raia, com medo de se entregar; e não em quem vive seu sentimento e revela-o, sem medo de ser feliz ou de quebrar a cara. Porque também ninguém é obrigado a namorar, ou ficar, só porque um dos lados quer.

Acredito e defendo que uma mulher que precisa provar que é capaz de conquistar tanto quanto um homem, que pode comer quantos lhe caiam no prato e depois cuspir o bagaço e ainda sente necessidade extrema de apregoar seus dotes de caçadora aos quatro cantos está sofrendo sérios problemas de autoestima. Que ela até seja uma ‘destruidora de corações’ e uma ‘devoradora implacável’, tudo bem, nenhum problema com a forma como cada pessoa exercita seu poder de conquista. Mas que ela faça isso por si e não porque a revista a ou b disse que é bom. Se ela se sente bem no papel de predadora, se não se machuca e não liga se vai ou não machucar terceiros, está valendo! Todo mundo tem o direito de levar a vida que bem entende e ninguém tem de se meter no quarto, armário, alcova, cama, banheiro ou que quer que seja alheios. O mundo seria mais fácil se as pessoas parassem de monitorar as camas umas das outras!

O que as pessoas, tanto quem julga, quanto quem se deixa abater pelos julgamentos, esquecem com uma facilidade irritante é que não somos uma coisa só. Somos múltiplos. Essa identidade criada desde a mais tenra infância é um verdadeiro fractal. E os arranjos e jogos de luz desse prisma multicolorido vão sendo feitos sempre levando-se em conta diversas variáveis. Duvido que quem lê esse post agora pensa hoje o mesmo que pensava aos 8 ou 18 anos de idade. É por isso que inventaram uma palavrinha chamada maturidade e creio que, onde falta autoestima, na verdade está faltando é a tal maturidade, principalmente para aceitar e administrar as consequências das escolhas feitas, incluindo aí a opinião alheia e a própria, diante do espelho.

Revi o videoclipe de Express Yourself, que é bem emblemático. E também reli a letra com atenção, para não perder detalhes importantes que a confiança apenas na memória poderia relegar ao limbo. Impressionante como em uma única música, Madonna conseguiu sintetizar – e de uma forma muito mais leve – um pouco do que quero dizer com esse texto gigante sobre autoestima feminina combalida e dependente do olhar masculino. Não vou fazer aqui exercício acadêmico e analisar verso por verso, mas há trechos em Express Yourself que servem perfeitamente para definir esse nosso dilema de sensibilidade feminina em um mundo afogado em testosterona. Cito apenas meu trecho preferido:

“Long stem roses are the way to your heart
But he needs to start with your head
Satin sheets are very romantic
What happens when you’re not in bed
You deserve the best in life
So if the time isn’t right then move on
Second best is never enough
You’ll do much better baby on your own”

Nessa estrofe, a cantora diz textualmente que as rosas de talo comprido são o caminho para o coração de uma garota, mas o homem que quer conquistá-la deve começar é pela sua cabeça. Depois ela emenda: “lençóis de seda são muito românticos, mas o que acontece quando você não está na cama?” A música é uma afirmação de girl power bem no estilo norte-americano, mas é também uma ironia, ainda mais se acompanhada do seu videoclipe, um filminho em que Madonna encarna uma típica “mulher bibelô” (olha o rótulo!) em busca de um grito de liberdade que aparece justamente na forma de erotismo à flor da pele (outro rótulo). É muito interessante e tem muita relação com o império das gostosonas e siliconadas (mais rótulos) vendidas nas revistas como o modelo da mulher contemporânea, bem resolvida e sexualmente desencanada (e haja etiqueta na mulherada).

Veja o clipe de Express Yourself:

Penso que – e quem leu tudo isso até agora tem todo o direito de pensar diferente -, pelas vias do erotismo banalizado e over, que infelizmente não tem relação nenhuma com a nossa misteriosa e encantadora sexualidade multi orgásmica e hiper sensível que tanto medo – e repulsa -provoca desde os tempos da Inquisição, é que essa tal identidade feminina não vai ser definida e muito menos a autoestima combalida resgatada. Assexuadas, – Deus nos livre! -, também não somos, mas de todos os lados ainda voam pedras sobre as ‘Genis!.

Tanto é apontado o dedo para as desinibidas, quanto tentam convencer as recatadas de que elas estão por fora da onda e vão ficar para tia! Mas será mesmo que essa divisão ainda se sustenta ou estamos esquecendo no limbo uma quantidade enorme de mulheres que estão no inter mezzo entre as desinibidas e as recatadas? E é da conta de quem mesmo se a mulher é desinibida, recatada, nenhum das coisas, tudo junto e misturado…?

Vale mais reflexão…

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