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Você se sente representada pela Luiza?

A Guilhermina Ginle deve estar tão confusa quanto eu com os rumos da sua personagem Luiza no remake da novela Ti Ti Ti (rede Globo). De uma aparente mulher moderna, segura de si e independente emocionalmente, foi transformada numa psicopata, neurótica, chorona e carente. Se bem que, cá entre nós, a Luiza nunca me enganou. Graças a um professor meu, passei a olhar as construções de certos tipos nas novelas com grande interesse. Sim, sei bem que vocês vão dizer que novela é diversão, é entretenimento, não é para ser levada a sério. De fato, “a televisão é uma ilusão” como diria o Didi Mocó. Mas, essa ilusão, já ficou comprovado, serve de parâmetro para muitas pessoas que reproduzem mais do que simples bordões e incorporam o discurso dos personagens, passam a se comportar e agir como eles, a acreditar que este modelo de sociedade propagado pelas novelas é que é o certo. Há muito tempo, televisão, internet, reality shows e a vida das celebridades deixaram de ser – para uma parcela significativa da sociedade – um mero entretenimento. No mínimo, o que está na TV ajuda a solidificar crenças, algumas  bem tortas, disseminadas em outras esferas como a família, escola ou vizinhança. Se novela fosse algo tão inofensivo, não virava tese de doutorado. E não, não é porque os acadêmicos deixam de “estudar coisas mais importantes”. É apenas porque, tudo o que reflete ou ajuda a moldar nossa cultura é sim, tema importante de estudo.

Mas a Luiza nunca me enganou porque, até a construção inicial dela, como mulher moderna, segura de si e independente, era tão forçada e igualmente ilusória quanto essa reviravolta que a transformou numa doente digna de pena. A Luiza do comecinho de Ti Ti Ti é o estereótipo da mulher contemporânea de capa de revista, aquela que já acorda com cara de #ricah e que para conseguir o que quer, passa por cima de todo mundo. Sendo que, que fique bem claro, independência emocional e egoísmo não são sinônimos e coitadas das pessoas que acreditam o contrário. Na verdade, algumas escondem o egoísmo e a mesquinharia de suas personalidades sob a capa de uma falsa “independência emocional”.

Luiza no começo de Ti Ti Ti. Executiva bem sucedida, fashion e estilosa

A Luiza do começo de Ti Ti Ti era uma mulher madura que tinha medo de assumir o relacionamento com um rapaz mais jovem, por receio do julgamento alheio, por um lado; e por outro, porque gostava de ter o namoradinho sempre à mão, de ter poder sobre ele, manipulá-lo, mas sem compromisso, porque a vida que ela “escolheu” era a da independência. Não estou dizendo que as mulheres que fazem a linha “so singular” (solteiras bem resolvidas) estejam erradas ou mascarando carências e tampouco que elas estão sozinhas por falta de opção. Nada disso! Muitas mulheres “sozinhas” na verdade não estão apenas é namorando, mas possuem toda uma vida afetiva com amigos, familiares e mais, consigo mesmas. Essas tem autoestima de verdade, tanto faz se acordam com quatro dedos de olheiras ou com cara de “sou rica desde que nasci”, o importante é que elas gostam do que veem no espelho e transmitem essa segurança e independência aos outros, de forma natural e não forçando um personagem.

Só que a Luiza nunca teve autoestima. Primeiro, ela não assumia o compromisso e o amor que sente pelo Edgar, (o namorado mais jovem) por medo da opinião alheia. E em segundo lugar, porque admitir que queria companhia, que queria construir uma vida em comum, iria contrariar esse personagem de mulher de negócios, bela e desejada, que construiu para si mesma. Não é à toa gente, que a moça dirige uma agência de modelos. E no mínimo, era indício mais do que evidente de que havia algo estranho com a Luiza, o fato dela incentivar a ‘piriguetagem’ de Edgar, manipulando as namoradinhas do rapaz como se fossem todos bonecos de um teatrinho particular.

Luiza, na minha opinião, é um discurso velado que infelizmente permeia o imaginário coletivo, de que mulher bonita, ainda na flor da idade, inteligente e bem sucedida, não pode ter vida afetiva “normal”, precisa ter alguma tara ou neurose escondida, a menos que troque tudo para virar uma ‘Amelinha’ dos tempos de vovó. E, sem encontrar um meio termo entre a “amelinha” e a “executiva de gelo”, a mulher surta. Oi?!

Luiza junto com Edgar. Ela não teve coragem de assumir o amor pelo rapaz e nem se permitiu viver o romance sem culpa

Vale ressaltar que a palavra normal usada acima está entre aspas porque a guinada da Luiza e sua transformação em uma doente psiquiátrica que até teve pseudociese (gravidez psicológica) só comprova que, com a “decadência” da personagem, os autores da novela (talvez de propósito ou mesmo inconscientemente, graças ao peso da nossa cultura) estão mandando um recadinho subliminar que também vem dos tempos de vovó: “independência em mulher leva à loucura, histeria e amargura”. Já ouvi tias mais velhas se referindo a mulheres sem homens como histéricas. Também já ouvi comentários do tipo, passou dos 40 sem engravidar, “nossa, coitada, vai parar no asilo”. Que é isso, pelo amor de Deus, senão uma forma de conter a mulher dentro de um papel e um padrão normativo?!

Cruzes! Parece praga? Mas como é que vocês acham que a construção milenar do machismo conseguiu deixar tantas mulheres dentro de casa durante tanto tempo? E não é papo de feminista radical, até porque, faço a linha mais ponderada. O feminismo clássico evoluiu e a gente evolui junto, inclusive com o direito a ser crítica e a extrair desse ou de qualquer outro movimento social, o que há de bom, mas sem tapar o sol com a peneira para o que não é tão bom. Mas, reconheço que muito do radicalismo do movimento é necessário, ainda, por conta de estereótipos como o da Luiza. Daí, é preciso ficar de olho!

E na fase atual da novela, Luiza surta e vai parar numa clínica psiquiátrica, com pseudociese

Reparem que são sempre dois extremos: ou a mulher se masculiniza para entrar no mundo corporativo esmagando todo mundo sob a agulha do seu salto 15, comportando-se “como homem” até nas relações afetivas (e esse como homem também está entre aspas porque nem eles escapam do enquadramento em papeis demarcados); ou ela fragiliza a ponto de surtar e de, “tarde demais”, perceber que vai envelhecer sozinha, sem marido e filhos, para darem sentido ao que é uma mulher de verdade!!

Heim!? E desde quando a construção de uma “mulher de verdade” precisa estar atrelada à formação de uma família de comercial de margarina? E quantas mulheres “de verdade” vocês conhecem que se transformam em psicopatas porque não tiveram filhos, a ponto de ameaçar o bebê de outra mulher?

Não estou dizendo que luizas não existam, o mundo é grande e diverso, ainda bem, portanto, existe todo tipo de gente, com todo tipo de paranoia. O que estou dizendo é que, chega de vender as luizas (seja na fase “executiva de gelo” ou na de “coitadinha de hospício”) como sendo o modelo e destino de todas as solteiras do mundo. Acredito que a personagem merecia destino melhor do que um surto psicótico e uma pseudociese.

Até casaram a Luiza num dos momentos da trama, no mínimo, para tentar contê-la, mas o casamento da moça deu xabu, mostrando que além de tudo, a maturidade emocional dela também era apenas de capa de revista…lamentável!

A realidade é que não me vejo, como mulher, representada pela Luiza. E você?

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