Aventura, Geral, Literatura, Resenhas

Resenha: Fora da Lei

Procura-se Robin Hood!
Livro de Angus Donald pretende recriar o mítico senhor de Sherwood, mas frusta expectativas dos leitores acostumados aos romances de cavalaria

Como uma narrativa no estilo capa e espada, ambientada na Alta Idade Média, Fora da lei é uma boa diversão. Mas como suposta biografia do verídico personagem histórico Robin Hood, o livro não passa de engodo. Fica igualmente na promessa a ideia de que o modo de contar histórias de Angus Donald pode assemelhar-se ao envolvente mundo de cavaleiros e arqueiros, tão bem recriado por Bernard Cornwell na saga O Arqueiro ou na trilogia Rei do Inverno (sobre as novelas arturianas). Não passa nem perto. Embora o trabalho de Donald tenha seus méritos próprios.

Fora da lei peca por prometer mais do que pode cumprir. O livro seduz o leitor com o juramento de que ao mergulhar em suas páginas, irá conhecer a origem do maior bandido de todos os tempos, Robin Hood, príncipe dos ladrões, senhor de Sherwood. No entanto, a história, narrada por Alan Dale, membro do bando de Robin, peca por passar mais tempo contando fatos e arrependimentos da vida do narrador do que revelar quem foi o seu mestre de ladroagem. O leitor se frustra e passa boa parte da história procurando Robin Hood.

Errol Flynn – ator ícone dos filmes inspirados nos romances capa e espada – vive Robin Hood em versão cinematográfica de 1938

Esse Robin Hood mostrado pelos olhos de Alan Dale, aliás, nada se parece com o herói encarnado por Errol Flyn ou Kevin Costner, nas versões cinematográficas da vida do salteador mais temido da Grã-Bretanha: um nobre espoliado de seus bens e que se alia aos fora da lei para vingar-se do perverso príncipe João Sem Nome – usurpador do trono de Ricardo Coração de Leão – e de seu principal assessor, o famigerado xerife de Nottingham. De quebra, o bom moço, para redimir-se da bandidagem, sempre segue o lema de roubar dos ricos e distribuir entre os pobres camponeses explorados pela nobreza.

Nada disso. O Robin Hood de Angus Donald é só o filho caçula de um barão (ou seja, já não herdaria nada devido à tradição de morgado – os bens vão para o filho mais velho), egoísta, cruel, chegando mesmo à perversidade, fugitivo da lei por ter cometido assassinato e que mantém relações extremamente ambíguas com os camponeses que supostamente deveria proteger. Está mais para o líder de um grupo de mercenários, que vende proteção às aldeias que podem pagar do que para um herói que trabalha por amor à causa. Nos tempos de hoje, ele seria um chefe de milícia em um morro carioca.

Kevin Costner, no auge da fama, vive o Príncipe dos Ladrões, na versão hollywoodiana de 1991, que é bem fiel à lendária visão do senhor de Sherwood como um “bom moço” de origem nobre, que rouba dos ricos para dar aos pobres. Na foto, o herói e a musa lady Marion, vivida pela atriz Mary Elizabeth Mastrantonio

Mas tem seu carisma, sobretudo como líder guerreiro, treinado na arte de matar. Aos que gostam de boas narrativas de combate, Robin é aquele tipo de comandante casca grossa, mas que acima de tudo preza a vida dos homens de seu pequeno exército particular. Ambicioso, ele quer ser rico para comprar o perdão por seus crimes e voltar às boas graças da realeza, simples assim. Nada de muito idealismo. Imaturo no começo da história, vai amadurecendo a duras penas no decorrer da narrativa. Ah sim, embora com bem menos açúcar que na versão de Costner para o cinema. Por exemplo, o romance com Lady Marion não falta à narrativa – e aqui o mérito do autor é para uma ótima demonstração do amor cortês medieval -, bem como não ficam de fora os carismáticos João Pequeno e Frei Tuck, esse último, na minha opinião, um personagem realmente interessante da obra de Donald.

Recriar um mito – É difícil recontar com criatividade uma história que todo mundo já conhece e que existe há séculos. Robin Hood é uma daquelas lendas que os trovadores cantavam nas feiras da Europa do século XIII. Recentemente, pesquisadores britânicos começam a suspeitar de que ele teria de fato existido e até tentam traçar paralelos entre as narrativas míticas do salteador e nobres do período. Mas há também uma corrente de estudiosos que acredita que não existiu um único homem, mas vários deles que se encaixam no perfil de fora da lei heroico e justiceiro. O contexto seria o feudalismo e suas relações desiguais e baseadas na exploração da maioria camponesa por uma minoria formada por nobres e clero. Rebeliões, lógico, são esperadas numa sociedade assim. Algo semelhante ao coronelismo no Nordeste do Brasil, entre o final do século XIX e primeiras décadas do século XX, cujos desmandos teriam contribuído para a origem do cangaço e o surgimento de personagens como Lampião, Corisco ou Lucas da Feira, este último no sertão baiano.

E aqui, Russel Crowe vive o salteador mítico, em versão de 2010, dirigida por Ridley Scott. Esse filme teria se inspirado no livro de Angus Donald, com as devidas licenças poéticas de Scott, e mostra um Robin bem mais selvagem e sanguinário

Desse ponto de vista, Angus Donald, de fato, se esforça para fugir do lugar comum e montar uma trama apetitosa para situar as aventuras de Robin Hood. O livro – primeiro do que pretende ser uma série sobre a vida do bandoleiro – também tem o mérito de fazer uma boa reconstituição de época. E não falta material sobre a Idade Média para ajudar o autor a montar uma boa história ambientada no período, com destaque para os contrastes entre a vida miserável das aldeias e a pompa da corte. Mas ainda assim, não embala tanto quanto as narrativas de Cornwell, que literalmente transportam o leitor para aquele mundo masculino, conservador e de embates religiosos, quando a Igreja Católica pré inquisitorial já batia de frente no combate aos chamados cultos pagãos.

Angus Donald, ao menos nesse primeiro livro da série, traça esboços com um bom potencial, mas que não se desenvolvem a contento, ao menos ficam aquém da expectativa desse leitor mais exigente e que já possui leituras prévias de romances de cavalaria e uma intimidade quase atávica com Robin Hood, construída em diversas versões da história tanto no cinema quanto na literatura.

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