Cotidiano, Crônicas, Geral

(Não) Conversão – II

Cena de “Like a prayer” (Como uma oração), de Madonna

– Boa noite, qual é seu nome?

Olhei para ela meio chocada por ter sido despertada de um dos meus devaneios. Já me disseram que não ando pela rua, costumo flanar. Raramente ouço se alguém me chama e, distraída, sempre preciso me lembrar que rua também é lugar de carro. Felizmente, o corpo é sábio e tem garantido minha sobrevivência ao longo dos anos. Mas, ela me tocou o braço, o que é uma invasão para mim imperdoável. Ao menos de acordo com os principios que sigo, ser tocada por um estranho é o máximo do ultraje. Mas ela me olhava como se  esperasse que eu dissesse meu nome, assim sem mais nem menos…

Olhei e não respondi, continuei andando, mas ela veio atrás.

– Onde você mora? Trabalha em quê?

Nessa hora me virei e perguntei se ela estava fazendo alguma pesquisa, porque eu estava sem tempo para responder. Segui caminhando e a mocinha no meu encalço.

– Não é pesquisa. Mas sou do grupo de jovens e queria te fazer um convite. Mas antes tenho de saber onde você mora e qual é sua profissão.

A expressão “grupo de jovens” ligou meu alarme interno anti pregações. Não é um alarme ativado por uma religião específica – é bom explicar para não me acusarem de intolerante – e, pessoalmente, não tenho problemas com quem pratica religião, qualquer uma, mas não gosto de pregações, doutrinações, catequese. Não importa o credo, sou adepta da máxima de que “gosto, futebol ou religião, não se discute”. Para o resto todo, estou aberta à discussão, adoro um bom debate, desde que leal e respeitoso. Mas religião, definitivamente, não entra na lista. Religião é baseada em dogma e dogma exige fé e quem sou eu para discutir ou questionar a fé alheia? Por causa disso, sempre espero que ninguém venha questionar minha resistência  a discutir doutrinas religiosas. Sempre esperamos dos outros o mesmo tipo de respeito que nós lhes dedicamos, mas nem sempre as pessoas correspondem. O ser humano é assim.

A guria que me tirou do estágio zen em que me encontrava não poderia jamais saber que as minhas pernas conhecem o caminho. Possuem a certeza do hábito e sabem para onde me levar. Por isso, de vez em quando, me dou ao luxo de ligar o piloto automático e deixar a mente livre do barulho e da mesquinhez do mundo ao meu redor. Ela não podia também adivinhar que sou aversa a discutir religião e extremamente resistente a ser catequizada. A resistência vem aumentando na medida em que envelheço. Mas, com esse negócio de querer saber meu nome, onde eu moro e em que trabalho, ela atiçou minha curiosidade e não resisti a provocar:

– Vem cá, se eu te disser que me chamo Eliete, moro na Engomadeira e sou diarista, você ainda vai querer me fazer esse convite?

– Ah, você não tem cara de quem faz faxina para viver. Não vestida desse jeito! – Ela me respondeu e lançou um olhar maroto, como quem pensa, “essa daí pensou que ia me pegar, mas eu peguei ela”.

Santa criança ingênua, não sabia ela que a resposta que eu queria ouvir já tinha sido dada. É pela roupa e pela aparência que o “grupo de jovens” da igreja que a mocinha frequenta seleciona os candidatos a receber o tal “convite”. Certamente, porque a ideia não é necessariamente converter mais uma alma para as hostes celestiais, mas contabilizar quanto o novo crente renderá em dízimos…

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Já passei por isso outras vezes: (Não) Conversão

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